Por José de Alencar (1853)
Referiam os marinheiros que um dia, sol claro, passára perto d'elles um navio apparelhado em escuna, cuja tripolação compunha-se toda de homens vestidos de compridas esclavinas brancas e marcados com uma cruz negra no peito.
Como lhes observassem que talvez seriam penitentes, que iam de passagem, affirmavam seu dito, assegurando que os viram executar a manobra mandada pelo commandante, tambem vestido da mesma maneira.
Accrescentavam os marinheiros que muitos dias depois, em uma noite escura e de calmaria, tinham avistado ao largo o mesmo navio a boiar sem governo; mas todo resplandecente das luminarias dos cirios accesos em capellas, e á volta de uma imagem.
A tripolação, vestida de esclavina, rezava o terço; e as ondas banzeiras gemendo na prôa, acompanhavam o canto religiosio, que se derramava pela immensidade dos mares.
Para o povo, eram estas as provas evidente de estar o nario encantado; e si misturava assim o paganismo com a devoção christã, tinha aprendido este disparate com bom mestre, o grande Gamões.
XIV
A VOLTA
Um anno, de dia a dia, an dou Ayres no mar, Desde que se partira do Rio. de Janeiro não puzera o pé em terra, nem, a avistára sinão o tempo necessario para enviar um, batel em busca das provisões necessarias.
Na tarde da sahida, deixára-se Ayres ficar na pôpa do,navio(até que de todo sumiu-se a costa; e então derrubára a cabeça aos peitos e quedárase até que a lua assomou na horizonte.
Era meia noite.
Ergueu-se e vestindo uma esclavina chamou a maruja, a quem dirigiu estas palavras.
— Amigos, vosso capitão tem de cumprir um voto e fazer uma penitencia. O voto é não tornar a S. Sebastião antes de um anno. A penitencia é passar esse anno todo no mar sem pisar em terra, assim vestido, e em jejum rigoroso, mas combatendo sempre os inimigos da fé. Vós não tendes voto a cumprir nem peccado a remir, sois livres, tomai o batel, recebei o abraço de vosso capitão, e deixai que se cumpra a sua sina.
A maruja abaixou a cabeça e ouviu-se um som rouco; era o pranto a romper dos peitos duros e callosos da gente do mar:
— Não ha de ser assim! clamaram todos. Jurámos acompanhar o nosso capitão na vida e na morte; não o podemos desamparar, nem elle despedir-nos para negar á gente a sua parte nos
trabalhos e perigos. Sua sina é a de todos nós, e a d'este navio onde havemos de acabar, quando o Senhor fôr servido.
Abraçou-os o corsario; e ficou decidido que toda a tripolação acompanharia seu commandante no voto e na penitencia.
No dia seguinte cortaram os marujos o panno de umas velas rotas que tiraram do porão e arranjaram esclavinas para vestirem, fazendo as cruzes com dois pedaços de corda atravessadas.
Ao pôr do sol cantavam o terço ajoelhados á imagem de Nossa Senhora da Gloria, ao qual levantaram um nicho com altar, junto do mastro grande, afim de acudirem mais prontos á manobra do navio.
Ao entrar de cada quarto, tambem rezavam a ladainha, á imitação das horas canonicas dos conventos.
Si porém succedia apparecer alguma vela no horizonte e o vigia da gavea assignalava um pichelingue, de momento despiam as esclavinas, empunhavam as machadinhas, e saltavam á abordagem.
Destroçado o inimigo, tornavam á penitencia e proseguiam tranquillamente na reza começada.
Quando completou um anno, que tinha a escuna deixado o porto de S. Sebastião; á meia noite, Ayres de Lucena aproou para terra, e soprando fresca a briza de leste, ao romper d'alva começou a desenhar-se no horizonte a costa do Rio de Janeiro.
Por tarde, aescuna corria ao longo da praia da Copacabana, e com as primeiras sombras da noite largava o ferro em uma abra deserta que ficava proxima da Praia-Vermelha.
Saltou Ayres em terra, deixando o commando a Bruno, com recommendação de entrar barra dentro ao romper do dia; e a pé seguiu para a cidade pelo caminho da praia, pois ainda senão tinha aberto na mata virgem da Carioca a picada que mais tarde devia ser a rua aristocratica do Cattete.
Ia sobresaltado o corsario com o que podia ter acontecido durante o anno de sua ausencia.
Sabia elle o que o esperava ao chegar ? Tornaria a ver Maria da Gloria, ou lhe teria sido arrebatada, apegar da penitencia que fizera?
Ás vezes parecia-lhe que ia encontrar a mesma scena da vez passada, e achar a moça de novo prostrada no leito da dôr, mas d'esta para não mais erguer-se; porque a Senhora da Gloria para o punir não ouviria mais a sua prece.
Eram oito horas quando Ayres de Lucena chegou á casa de Duarte de Moraes.
A luz interior filtrava pelas frestas das rotulas; e ouvia-se rumor de vozes, que falavam dentro. Era ali a casa de jantar, e Ayres espiando viu á meza toda a família reunida, Duarte de Moraes, Ursula e Maria da Gloria, os quaes estavam no fim da cei.
Passado o sossobro de rever a menina, Ayres foi á porta e bateu.
Duarte e a mulher se entreolharam surpresos d' aquelle bater fóra de horas; Maria da Gloria porém levou a mão ao seio, e disse com um modo brando e sereno:
— É elle, o senhor Ayres, que está de volta!
— Que lembrança de menina! exclamou Ursula.
(continua...)
ALENCAR, José de. Alfarrábios: O ermitão da Glória. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43220 . Acesso em: 30 jan. 2026.