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#Romances#Literatura Brasileira

Encarnação

Por José de Alencar (1878)

O doutor compreendeu que só havia um meio de arrancar o amigo àquela vida abstrata; era perturbar o seu recolhimento, quebrar os seu hábitos, agitar-lhe o espírito. Antes de fazê-lo, hesitou. Tinha ele certeza de dar felicidade a Hermano? Não seria cruel dissipar-lhe a doce ilusão em que vivia para lançá-lo em uma triste realidade?

Era caso de refletir.

O pavor que produzira em Amália a idéia de casar-se com Hermano deixou em seu espírito uma impressão profunda, que só mais tarde se foi desvanecendo.

A chácara vizinha excitava nela um sentimento de repulsão; desviava os olhos daquela direção; passava os dias fora para fugir a essa vista que a incomodava. Foi para o Andaraí estar uma semana com a tia.

A ausência acalmou a sua agitação. Voltando a casa, D. Felícia acabou de tranqüilizá-la. Disse-lhe que tivera aquela idéia, por desconfiar que Hermano lhe agradava, mas desde que ela rejeitava o partido não devia pensar mais nisso; pois nunca se casaria senão de sua livre vontade e com um homem que escolhesse.

— Mas ele, mamãe, soube de seu desejo? perguntou Amália inquieta.

— Não; foi só lembrança minha. Ele não deu nenhum passo.

— Se nem me conhece!

Esta conversa dissipou o susto da moça. Aquele interesse que ela havia tomado pela constância do viúvo, tornou-se inocente como dantes. Ela podia sem receio, e sem vexame, abandonar-se de novo aos impulsos desse capricho.

Voltou pois à contemplação e devaneio, em que se esquecia a observar os movimentos da habitação vizinha.

Uma tarde, Hermano não veio como de costume sentar-se no banco dos bambus. Ela impacientou-se com a demora; lastimou Julieta por aquela primeira inconstância; e afigurou-se-lhe ver a esposa desdenhada suspirando na sua tristeza e abandono.

Pouco tempo depois Hermano saía à chácara acompanhado do Teixeira, e dirigiu-se para o sítio habitual. Advertindo, porém, que não estava só, arredou-se e foi sentar-se longe com o amigo.

Amália adivinhou então a causa da ausência que a afligira. Perdoou a Hermano em nome de Julieta; condoeu-se da contrariedade que ei devia sofrer naquele momento; e irritou-se contra o Teixeira, que viera disputar o amigo ao amor da mulher e obrigá-lo a parecer ingrato.

À noite fechada Amália via através da folhagem brilhar a luz do gás nas janelas que ela sabia serem as dos antigos aposentos de Julieta; nessa ocasião murmurava:

— Está junto dela.

Recordava-se então da vez em que os vira ali outrora; dos beijos que Hermano dera na mulher, e do rubor da noiva quando percebeu que alguém os espiava, e que ria de sua ternura. Nesses momentos repreendia-se por aquela travessura de criança, de que se envergonhava.

Henrique Teixeira lhe dissera que esses aposentos ainda estavam como Julieta os deixara. Que vontade não tinha de os ver de novo, e agora que podia melhor apreciá-los! Às vezes dirigia-se para o terraço donde antigamente espreitava os noivos. Mas a delicadeza de seus sentimentos a retinha. Repugnava-lhe espiar a casa alheia, e abaixar-se a essa curiosidade leviana.

Notou, porém, que as rótulas estavam constantemente fechadas; portanto ela podia sem indiscrição aproximar-se dessas janelas. Para quê? Para estar mais perto, para ter uma esperança vaga e ilusória de ver aquilo que fugia de olhar.

Em uma noite cálida e abafada, a moça recostada à leiva de grama, fatigava, como de costume, os seus belos olhos em distinguir umas sombras fugitivas e confusas que se agitavam por dentro das venezianas.

As rótulas estavam apenas cerradas, o que ela notou pela estreita faixa de luz que indicava o interstício das duas abas não ajustadas. A princípio teve escrúpulo; mas como era impossível enxergar por aquela fresta, deixou-se ficar.

Instantes depois a moça caiu de bruços sobre o respaldo de grama, sufocando nos lábios o grito doloroso que lhe estalara no seio.

Capítulo 9

Soprava a viração da noite.

O primeiro lufo, cortando o ambiente cálido e estagnado, e derramando no ar uma onda de frescura, rugitou pela folhagem das mangueiras.

Com a rajada, as rótulas se tinham afastado de modo a mostrar no quadro da janela o interior do aposento.

No centro havia uma mesa de charão com um vaso de rosas, colhidas naquela tarde. Amália vira quando Hermano as cortara da haste e pensou então que eram uma oferenda do marido à esposa querida. Naturalmente iam ornar o seu toucador.

Junto do vaso estava aberta uma caixa de carvalho com preparos e utensílios de flores artificiais; e na beira da mesa uma peanhazinha de bronze que mantinha direita na sua haste de arame uma rosa de pano ainda por acabar.

Hermano sentado ao lado com um livro aberto lia a meia voz; e embora o sussurro de suas palavras se perdesse nos rumores da noite, podia Amália mesmo de longe ver-lhe o movimento dos lábios.

Mas não foi nada disto o que feriu a alma da moça, quando a veneziana aberta patenteou-lhe aquela cena.

Em face de Hermano e também sentada como ele, Amália viu, cheia de espanto, uma mulher. Era moça e de rara formosura. Na posição que tomara, o seu talhe moldado por um vestido simples e justo, de seda azul à princesa, desenvolvia-se com um garbo indefinível.

(continua...)

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