Por Martins Pena (1845)
Carlos entra pelo fundo, apressado; traz o hábito roto e sujo.
Carlos — Não há grades que me prendam, nem muros que me retenham. Arrombei grades, saltei muros e eis-me aqui de novo. E lá deixei parte do hábito, esfolei os joelhos e as mãos. Estou em belo estado! Ora, para que ateimam comigo? Por fim lanço fogo ao convento e morrem todos os frades assados, e depois queixem-se. Estou no meu antigo quarto, ninguém me viu entrar. Ah, que cama é esta? É da tia... Estará... Ah, é ela... e dorme... Mudou de quarto? O que se terá passado nesta casa há oito dias. Estive preso, incomunicável, a pão e água. Ah, frades! Nada sei. O que será feito da primeira mulher do senhor meu tio, desse grande patife? Onde estará a prima? Como dorme! Ronca que é um regalo! (Batem palmas.) Batem! Serão eles, não tem dúvida. Eu acabo por matar um frade...
Mestre, dentro — Deus esteja nesta casa.
Carlos — É o padre mestre! Já deram pela minha fugida...
Mestre, dentro — Dá licença?
Carlos — Não sou eu que hei de dar. Escondamo-nos, mas de modo que ouça o que ele diz... Debaixo da cama... (Esconde-se.)
Mestre, dentro, batendo com força —Dá licença?
Florência, acordando — Quem é? Quem é?
Mestre, dentro — Um servo de Deus.
Florência — Emília? Emília? (Toca a campainha)
CENA V
Entra Emília
Emília — Minha mãe...
Florência — Lá dentro estão todos surdos? Vai ver quem está na escada batendo. (Emília sai pelo fundo.) Acordei sobressaltada... Estava sonhando que o meu primeiro marido enforcava o segundo, e era muito bem enforcado...
CENA VI
Entra Emília com o Padre-Mestre
Emília — Minha mãe, é o Sr. Padre-Mestre. (À parte:) Ave de agouro.
Florência — Ah!
Mestre — Desculpe-me, minha senhora.
Florência — O Padre-Mestre é que me há de desculpar se assim o recebo (Sentase na cama.)
Mestre — Oh, esteja a seu gosto. Já por lá sabe-se dos seus incômodos. Toda cidade o sabe. Tribulações deste mundo...
Florência — Emília, oferece uma cadeira ao Reverendíssimo.
Mestre — Sem incômodo. (Senta-se.)
Florência — O Padre-Mestre veio falar comigo por mandado do Sr. D. Abade?
Mestre — Não, minha senhora.
Florência — Não? Pois eu lhe escrevi.
Mestre — Aqui venho pelo mesmo motivo que já vim duas vezes.
Florência — Como assim?
Mestre — Em procura do noviço Carlos. Ah, que rapaz!
Florência — Pois tornou a fugir?
Mestre — Se tornou! É indomável! Foi metido no cárcere a pão e água.
Emília — Desgraçado!
Mestre — Ah, a menina lastima-o? Já me não admira que ele faça o que faz.
Florência — O Padre-Mestre dizia...
Mestre — Que estava no cárcere a pão e água, mas o endemoninhado arrombou as grades, saltou na horta, vingou o muro da cerca que deita para a rua e pôs-se a panos.
Florência — Que doudo! E para onde foi?
Mestre — Não sabemos, mas julgamos que para aqui se dirigiu.
Florência — Posso afiançar a Vossa Reverendíssima que por cá ainda não apareceu. (CARLOS bota a cabeça de fora e puxa pelo vestido de EMÍLIA.)
Emília, assustando-se —Ai!
Florência — O que é, menina?
Mestre, levantando-se —O que foi?
Emília, vendo Carlos — Não foi nada, não senhora... Um jeito que dei no pé.
Florência — Tem cuidado. Assente-se, Reverendíssimo. Mas como lhe dizia, o meu sobrinho cá não apareceu; desde o dia em que o Padre-Mestre o levou preso ainda não o vi. Não sou capaz de faltar a verdade.
Mestre — Oh, nem tal suponho. E demais, Vossa Senhoria, como boa parenta que é, deve contribuir para sua correção. Esse moço tem revolucionado todo o convento, e é preciso um castigo exemplar.
Florência — Tem muita razão; mas eu já mandei falar ao Sr. D. Abade para que meu sobrinho saísse do convento.
Mestre — E o D. Abade está a isso resolvido. Nós todos nos temos empenhado. O Sr. Carlos faz-nos loucos... Sairá do convento; porém antes será castigado.
Carlos — Veremos...
Florência, para Emília — O que é?
Emília — Nada, não senhora.
Mestre — Não por ele, que estou certo que não se emendará, mas para exemplo dos que lá ficam. Do contrário, todo o convento abalava.
Florência — Como estão resolvidos a despedir meu sobrinho do convento, e o castigo que lhe querem impor é tão somente exemplar, e ele precisa um pouco, dou minha palavra a Vossa Reverendíssima que assim que ele aqui aparecer, mandarei agarrá-lo e levar para o convento.
Carlos — Isso tem mais que se lhe diga...
Mestre, levantando-se — Mil graças, minha senhora.
Florência — Isto mesmo terá a bondade de dizer ao Sr. D. Abade, a cujas orações me recomendo.
Mestre — Serei fiel cumpridor . Dê-me as suas determinações.
Florência — Emília, conduz o Padre-Mestre.
Mestre, para Emília — Minha menina, muito cuidado com o senhor seu primo. Não se fie nele; julgo capaz de tudo. (Sai)
Emília, voltando — Vá encomendar defuntos!
CENA VII
Emília, Florência e Carlos, debaixo da cama.
Florência — Então, que te parece teu primo Carlos? É a terceira fugida que faz. Isto assim não é bonito.
Emília — E para que o prendem?
Florência — Prendem-no porque ele foge.
Emília — E
ele foge porque o prendem.
(continua...)
PENA, Martins. O Noviço. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17004 . Acesso em: 29 jan. 2026.