Por José de Alencar (1872)
Fábio esperava-o para o almoço, deitado em uma esteira no terreiro da casinha, enquanto D. Joaquina andava apanhando umas goiabas maduras para a merenda. O praticante de advocacia tinha brilhado naquele dia: empregando a manhã na caça de passarinhos, trouxera uma dúzia de rolas, que chiavam no espeto, trescalando perfumes estranhos naqueles lares acostumados às refeições frugais.
O outro encontro fora no mesmo lugar da primeira cena.
Subia Ricardo a pé, e tomara involuntariamente, pela força do hábito, o caminho que seguira da vez passada. Chegando ao ponto onde estivera desenhando sobre a grama, procurou o arbusto, que ainda estava coberto dos seus botões de ouro; apenas duas flores desabrochadas brilhavam sobre o ramo verde-escuro.
Notou o moço que junto à planta estava o chão pisado por casco de cavalo; mas não deu grande atenção a essa circunstância, tão vulgar em um sítio onde freqüentemente andam animais soltos.
Abriu o álbum na página em que desenhara a cena do primeiro encontro da moça; e cotejando-a com o sítio, corrigiu alguns traços do arvoredo, não porque lhes prejudicassem a beleza do quadro, mas por um capricho de artista. A paisagem era uma cópia e não uma fantasia; queria que fosse o mais exata possível.
Tinha concluído esse trabalho e estava examinando os botões de ouro e as flores abertas, quando repercutiu o tropel de uma cavalgata. Eram com efeito diversas pessoas, senhoras e homens, que iam de passeio, rindo e conversando. Fitando os olhos no caminho, Ricardo viu a Guida, que também o percebera. Ou fosse espanto de “Edgard”, ou descuido da gentil amazona no governo das rédeas, ou qualquer outra circunstância, o lindo isabel ao passar em frente ao moço tinha-se desviado do caminho, penetrando no mato, com direção ao arbusto.
Descobrindo porém o moço, Guida com sua habitual destreza corrigiu o desvio do cavalo, e fustigando-o com um movimento de contrariedade, ganhou a frente da cavalgata, que desapareceu num turbilhão de poeira.
- E a flor, Guida? perguntou uma das moças.
- Não achei!
Ricardo compreendeu então o movimento da elegante amazona e a circunstância que a princípio notara de rastos de cavalo junto ao arbusto; a ferradura inglesa fina e um tanto oval estava denunciando a pata aristocrática de “Edgard”. Pensou que a filha do milionário também gostava da linda flor agreste. E quem não se agradaria daqueles aljôfares graciosos? Para ela sobretudo deviam ser de um encanto especial; não tinham a cor do ouro, essa cor sedutora que a natureza destinou para o sol e o dinheiro, os dois clarões que deslumbram, um a vista, outro a alma?
Naturalmente a moça já conhecia a flor antes do primeiro encontro; passando procurava-a com os olhos, quando o descobriu, a ele Ricardo, na posição ridícula de um namorado de novela antiga, beijando o cravo que lhe atirou da janela a dama dos seus pensamentos.
Agora a Guida encaminhara o cavalo para o arbusto a fim de colher um ramo; mas avistando o importuno passeador, desistiu, disparando a galope.
- Esta moça, disse Ricardo rindo-se interiormente, há de me considerar como uma espécie de borboleta preta! Depois do almoço, estando o sol muito quente, Fábio deitou-se a ler no quarto, e Ricardo, tomando a sua caixa de tintas, foi trabalhar junto à janela. Continuou a colorir o quadro que representava a Guida, e cujos traços ele havia corrigido pela manhã. As feições da moça, se não eram de uma semelhança perfeita, recordavam sem dúvida a gentileza de sua fisionomia.
Seriam onze horas do dia; fazia uma calma abrasadora. D. Joaquina e as pretas estavam recolhidas lá para o interior; Fábio, contra o seu costume, lia tão placidamente que causava suspeitas. Tido na casa estava em silêncio. Fora, o
“Galgo” tosava uns tufos de capim melado; e a Nanica ciscava no terreiro em companhia de um galo e de um pinto. A janela junto da qual trabalhava Ricardo, era de tacaniça, onde havia sombra; daí não se enxergava a frente da casa, nem a rua de cafezeiros e abacates que ia dar à cancela da estrada; por isso não pôde ele ver um grupo de cavaleiros que, parados no caminho, espiavam para descobrir alguma pessoa da casa.
Afinal avistaram uma das pretas velhas que saíra a apanhar gravetos para o fogo.
- Vem cá, mãe; você nos dá um pouco d’água? disse um dos cavaleiros.
- Sim, meu senhor; pode entrar, respondeu a preta velha abrindo a cancela.
Os cavaleiros invadiram a propriedade de D. Joaquina; a maior parte porém ficou à sombra das árvores; apenas alguns mais impacientes se aproximaram da porta, a fim de esperar a água. Essa impaciência não era produzida tanto pela sede que eles tinham, como pelo desejo de cada um ser o primeiro a servir uma linda amazona, que esperava à sombra de uma laranjeira.
- Duvido que a tal velha tenha água bastante para matar a sede de tanta gente! observou um cavaleiro.
- Felizmente o rio passa perto.
- O melhor é irmos logo a ele; que dizes, Guimarães?
- Que espécie de copo nos trará a preta? Aposto que alguma xícara!
- Água em xícara!
- Senhores, esta casa está bem boa para uma fogueira de S. João. Não acham?
- É mais velha que a Tijuca.
- Quem morará aqui?
- Alguma velha caraça do século passado.
- Segundo tomo da sujeita dos cambucás!
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.