Por José de Alencar (1870)
Em qualquer ponto onde estivesse, precisando de um cavalo, não carecia de o apanhar a laço: bastava-lhe um sinal e logo aparecia o magote alegre a festejá-lo, oferecendo-se para seu serviço. O trabalho era escolher e arredar os outros, pois todos queriam prestar-se, como seus amigos que eram, uns por gratidão, outros por simpatia.
Quando partia, o acompanhavam algumas quadras, curveteando a seu lado, como demonstração de amizade. Afinal paravam para segui-lo com a vista, até que sumia-se por detrás das coxilhas.
Estâncias havia em que anunciava-se a chegada de Manuel pelo relincho estridente, que é o riso viril e sonoro do cavalo. Era o gaúcho recebido e afagado na tronqueira pelos camaradas saudosos, que vinham apresentar-lhe o focinho, rifando com ciúmes uns dos outros.
Se acontece passarmos à vista da casa de algum amigo, lhe dirigimos um olhar, dando-lhe mesmo de longe os bons-dias. Assim, contavam que os cavalos amigos de Manuel, quando subiam o teso que ficava fronteiro à sua casa, rinchavam de prazer, abanando a cauda com alegria.
Tais eram os contos que referia a gente da campanha. Verdadeiros ou não, todos neles acreditavam; e até apontavam-se pessoas que tinham sido testemunhas dos fatos.
VIII
A BARGANHA
Por sangas e coxilhas, galgando encostas e transpondo barrancos lá vai a baia campos afora.
É um adejo essa corrida; tem a velocidade dos surtos e ao mesmo tempo a serenidade do remígio de uma águia. Não se ouve o estrupido dos cascos na terra, nem parece que tocam o chão. Nesse deslize rápido e suave, sente o cavaleiro despontar-lhe asas ao corpo, enquanto o pensamento, docemente embalado, colhe os vôos e adormece. Descambava o sol.
Fez alto Manuel à beira de um arroio, onde havia frescura d’água, sombra e relva. Perto erguia-se uma choça, perdida no meio dos pampas, como uma árvore da floresta, cuja semente veio trazida pelo vento.
A égua estava ardendo por esticar os músculos e espojar-se na grama.
— Sossegue, moça! disse o gaúcho sorrindo.
Com um molho de ervas secas esfregou-lhe o pêlo banhado de copioso suor; e só depois disso, consentiu que ela se rolasse pelo capim e estancasse a grande sede, não de um fôlego, mas por diversas vezes. A impaciência materna era assim moderada pela inteligente solicitude do gaúcho.
Enquanto o animal retouçava aparando os tufos da grama viçosa, que vestia as margens do arroio, tratou o gaúcho de refazer as forças.
A choça estava deserta e a porta presa apenas por uma correia. No interior, composto de uma só quadra, havia de um lado a cama feita de estiva e forrada de pelegos; do outro o brasido onde assava uma grande naca de charque, suspensa em um espeto. Conhecia-se que a ausência da pessoa que aí habitava era recente, pois a carne apenas estava tostada na parte exposta ao fogo.
Entrou Manuel sem hesitação. No deserto, uma habitação não é mais do que um pouso. Alguém o levanta; o peão de alguma estância que por aí pousou; um caçador talvez, se não um evadido da sociedade. E o rancho lá fica abandonado; aquele que aí chega depois é hóspede, como o outro que há de vir mais tarde.
Nessa vasta solidão, onde o homem, ludíbrio da natureza, não se possui a si mesmo, a propriedade não é mais do que a ocupação.
Nunca tivera o gaúcho ocasião de refletir sobre essa comunidade do deserto, que entretanto agora ele compreendia por uma intuição. Com a consciência de seu direito, tirou do espeto a carne já assada e comeu, tendo o cuidado de substituí-la por outro pedaço, que separou das mantas estendidas nas varas da palhoça.
Finda a colação, deitou-se para descansar um instante. Decorrido algum tempo, ouviramse passos e assomou no vão da porta o vulto de um homem robusto. Dos largos ombros pendiamlhe, á guisa de abas de ponche, dois pelegos de carneiro; tinha a cabeça descoberta, e não trazia mais roupa do que uma tanga de velha baeta encarnada.
Vestia a parte nua do corpo, cara, braços e pernas, um pêlo ríspido e fulvo, semelhante ao do caititu. Na mão direita empunhava um chuço, cuja haste grossa e faceada servia ao mesmo tempo de vara e de clava. Na esquerda suspendia pelas quatro patas, como se fosse algum coelho, o tigre que matara poucos momentos antes.
Correu o desconhecido os olhos pelo interior, prescrutando o que passara em sua ausência. Vira os passos do gaúcho e do animal nas margens do arroio.
— Deus o salve, amigo! disse Manuel erguendo-se.
— Para o servir, respondeu o desconhecido.
Era rouca e áspera a voz, porém articulada. No primeiro instante pareceu estranho que saísse fala humana daquela boca hirsuta, como o focinho de uma fera.
— Por que não se deita? perguntou ao gaúcho com rispidez.
Atirando a caça à banda, comeu o desconhecido a naca de carne, ainda crua, que estava sobre o braseiro. Para beber água foi ao arroio e estendeu-se de bruços pela margem. De volta ao rancho, aproximou-se dos pés do leito onde o Canho estava deitado; e puxando um dos pelegos que o forravam, estirou-o no chão e deitou-se.
(continua...)
ALENCAR, José de. O gaúcho. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.