Por José de Alencar (1873)
— Oh! tem uma habilidade, que é cousa por maior; o Belmiro não pode com ele.
— Há de trazê-lo cá. Em o vendo, logo conheço se é verdade.
— A senhora pode experimentar.
— Deixe estar que ninguém me logra.
A esse tempo travara-se entre a Miquelina e a Engrácia renhida disputa a respeito do painel.
— Mas, senhora, dizia a Miquelina, está-me catucando cá dentro que este não é o Menino Jesus!
— Quem há de ser então? O Arcanjo São Miguel?
— Também não. Quem diz que este painel é de devoção? A mim está-me parecendo pintura de pouca vergonha!
— Jesus! Que blasfêmia! Pois não está vendo as asas de querubim?
— Mas este coração aqui, assim todo crivado, como almofada de renda? Aqui há tafularia, senhora.
— O coração... Mas é para significar as tribulações que a gente passa antes de ganhar o céu. Estes são os espinhos...
— Espinhos não, são setas, e bem setas.
— Vem dar na mesma.
— Eu cá, não sei o que tenho; mas era capaz de jurar que isto não passa de bruxaria.
— Qual, senhora! Pois eu não vi o Ivo quando estava copiando do próprio que tem nos seus divinos braços a Virgem Santíssima dos Carmelitas?
A Rosalina tivera essa idéia, quando pela primeira vez deu com o painel, não podendo compreender que o filho tirasse da fantasia, sem auxílio de cópia, o lindo vulto do Menino Jesus.
Não duvidou pois dar como visto, o que fora apenas imaginado.
— Que é pintura de devoção logo se vê, observou a velha Romana. Se não fosse, não punha o menino assim nuzinho, sem malícia nenhuma, o inocente! Nessas pinturas desavergonhadas não vêem como eles escondem as patifarias, que nem parecem?
Esta razão era sem réplica; à vista dela ficou assentado que o painel representava o Menino Jesus; e a Sr.ª Romana o colocou sobre uma toalha no trumó, mandando logo recado ao seu capelão e confessor, um frade capucho, para vir benzê-lo.
Foi aí que o viu o Ivo, ao entrar em casa da Romana, na alheta da Rosalina, que o puxava pela aba do gibão com receio de que lhe escapasse.
E não era sem razão; pois o rapaz, ao transpor a soleira, estava como que cheio de espavento, e quisera achar-se a léguas daí.
X
DO ALVOROÇO QUE PRODUZIU UM GRILO NA NOITE
DA NOVENA
Havia novena essa noite.
Já as devotas começavam a chegar; e lá estava o tabelião com a família.
Foi o Ivo recebido com muitos agasalhos pela velha Romana e todo o mulherio, que estava em contemplação diante da pintura. Atarantou-se o rapaz, e não sabia como atar-se, quando felizmente deu o tirador da ladainha sinal para começar a novena.
Colocou-se o rapaz de modo que pudesse espiar o rostinho de Marta, oculto sob o capuz da mantilha, que ela de propósito conservava sobre a cabeça para melhor recolher-se no seu pudor, como a corola da flor que cerra com o raio do sol.
Bem vontade tinha a menina de lançar de esguelha e a furto uma olhadela para ver como rezava o rapaz; não se animando, vingava-se em contemplar o improvisado Menino Jesus, como se o quisesse comer com a vista.
Notou a Sr.ª Romana que a neta várias vezes errara as palavras da reza; com o que teve algum desconsolo, pois seu maior desejo era fazer de Marta uma devota insigne, digna de receber a herança de seu oratório, de suas imagens, relíquias e todo o mais beatério.
Terminada a novena, os velhos sentaram-se na calçada, sobre o tijolo, com exceção do tabelião e algum outro também qualificado, para quem vieram cadeiras de couro. Rolou a prática sobre as novas do reino trazidas pela última frota, e afinal, depois de tocar em outros vários temas, veio a cair na mudança da única matriz que possuía então a nascente cidade, da Igreja de São Sebastião do Castelo, onde a tinham colocado desde a primitiva fundação, para a Igreja de São José, de recente fábrica, e apenas acabada.
Foi este para nossos dignos antepassados negócio da maior monta, ou como agora se diria, a “grande questão”. Não abalaria tanto os ânimos hoje em dia a mudança da corte para as cabeceiras do São Francisco, onde há muito devera estar, como naqueles tempos afonsinhos a mudança da sede paroquial da freguesia de São Sebastião do Rio de Janeiro.
Se já existira imprensa, como a sua gíria moderna, que rajadas de eloqüência tribunícia não haviam de aparecer a propósito? E como andaria em bolandas a opinião pública, essa bonita peteca dos jornalistas?
No estrado do oratório, corrida a cortina de crepe sobre o altar e as imagens, sentaram-se as devotas para a costumada prática. Bisbilhotou-se a vida do próximo; contaram-se histórias de almas do outro mundo ou casos de bruxos e lobisomens. Tudo isto, a um tempo, em contínua tagarelice, cada uma escutando e palrando do mesmo passo.
E não se fala de uns cochichos que se perdiam no rumor da prática animada. Esses eram de lábios frescos e rosados, donde se escapavam a medo, envoltos em um suspiro ou na reticência do pudor.
Quanto aos rapazes, saltavam no quintal, ao clarão da fogueira, impacientes pela hora da ceia.
(continua...)
ALENCAR, José de. Garatuja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1841 . Acesso em: 26 jan. 2026.