Por José de Alencar (1857)
EDUARDO - Vem, mana; quero apresentar-te um dos meus amigos.
ALFREDO - Agradeço!... (a EDUARDO, e a meia voz.)
CARLOTINHA - Mano!... Que quer dizer isto?
EDUARDO - Uma coisa muito simples! Desejo que veJas de perto o homem que te interessa; conhecerás se ele é digno de ti.
CARLOTINHA (com arrufo) - Não quero!... Não gosto dele!
EDUARDO - Dir-lhe-ás isto mesmo. Em todo o caso é um amigo de teu irmão! (a ALFREDO) Previno-lhe, Sr. Alfredo, que não usamos cerimônias!
ALFREDO Obrigado; quando se está entre amigos a intimidade é a mais respeitosa e a mais bela das etiquetas.
EDUARDO - Muito bem dito! (PEDRO atravessa a cena, entra na sala com a caixa de rapé, volta, e vem aparecer na porta do lado oposto.) D. MARIA - Henriqueta te chama, Carlotinha!
CARLOTINHA - Sim, mamãe! (Sai.)
EDUARDO (a ALFREDO) -~ É minha mãe! (A D. MARIA) Um dos meus amigos, o Sr. Alfredo, que vem pela primeira vez a nossa casa e que, espero, continuará a freqüentá-la.
ALFREDO - Terei nisto o maior prazer. Eu estimava já, sem conhecê-la, a sua família.
D. MARIA - Pois venha sempre que queira. Os amigos de Eduardo são aqui recebidos como filhos da casa!
ALFREDO - Não mereço tanto, e a sua bondade, minha senhora, honra-me em extremo.
EDUARDO - Vamos, estão aqui na sala algumas pessoas de nossa amizade, a quem desejo apresentá-lo.
ALFREDO - Com muito gosto.
D. MARIA - Eu já volto!
CENA VII
PEDRO, CARLOTINHA
CARLOTINHA - Pedro, traz copos d'água na sala.
PEDRO - Ho! Nhanhã!... Rato está dentro do queijo!
CARLOTINHA - Não te entendo!
PEDRO - Sr. Alfredo já sentado junto do piano, só alisando o bigodinho!
CARLOTINHA - Que tem isso?
PEDRO - Eh!... Casamento está fervendo! Pedro vai mandar lavar camisa de prega para o dia do banquete.
CARLOTINHA - Não andes dizendo estas coisas!
PEDRÔ - Ora não faz mal! E Sr. Azevedo? Nhanhã viu! Está caído também, só arrastando a asa!
CARLOTINHA - Pedro!
CENA VIII
D. MARIA, EDUARDO
D. MARIA - Onde vais?
EDUARDO - Vinha mesmo em sua procura, minha mãe.
D MARIA - Precisas falar-me?
EDUARDO - Quero dizer-lhe uma coisa que lhe interessa. Este moço, Alfredo...
D. MARIA - O teu amigo... que me apresentaste?
EDUARDO - Ama Carlotinha!
D. MARIA - Ah! E ela sabe?
EDUARDO - Sabe e talvez já o ame!
D. MARIA - Não é possível! Tua irmã!...
EDUARDO - Sim, minha mãe; ela o ama, sem compreender ainda o sentimento que começa a revelar-se.
D. MARIA - E esse moço abriu-se contigo e pediu-te a mão de tua irmã?
EDUARDO - Não, minha mãe; eu disse-lhe que sabia a afeição que tinha a Carlotinha, e por isso queria apresentá-lo à minha família.
D. MARIA - E exigiste dele a promessa de casar-se com ela?
EDUARDO - Não; não exigi promessa alguma.
D. MARIA - Foi ele então que a fez espontaneamente?
EDUARDO - Não podia fazer, porque não tratamos de semelhante coisa.
D. MARIA - Mas, meu filho, não te entendo. Tu chamas para o interior da família um homem que faz a corte à tua irmã e nem sequer procuras saber as suas intenções!
EDUARDO - As intenções de um homem, ainda o mais honrado, minha mãe, pertencem ao futuro, que faz delas uma realidade ou uma mentira. Para que obrigar um moço honesto a mentir e faltar à sua palavra?...
D. MARIA - Assim, tu julgas que é inútil pedir ou receber uma promessa?
EDUARDO - Completamente inútil, quando a promessa não constitui uma verdadeira obrigação social e um direito legítimo.
D. MARIA - Não te percebo!
EDUARDO - É preciso conhecer o coração humano, minha mãe, para saber quanto as pequeninas circunstâncias influem sobre os grandes sentimentos. O amor, sobretudo, recebe a impressão de qualquer acidente, ainda o mais imperceptível. O coração que ama de longe, que concentra o seu amor por não poder exprimi-lo, que vive separado pela distância, irrita-se com os obstáculos, e procura vencê-los para aproximar-se. Nessa luta da paixão cega todos os meios são bons: o afeto puro muitas vezes degenera em desejo insensato e recorre a esses ardis de que um homem calmo se envergonharia; corrompe os nossos escravos, introduz a imoralidade no seio das famílias, devassa o interior da nossa casa, que deve ser sagrada como um templo, porque realmente é o templo da felicidade doméstica.
D. MARIA - Nisto tens razão, meu filho! É essa a causa de tantas desgraças que se dão na nossa sociedade e com pessoas bem respeitáveis; mas qual o meio de evitá-las?
EDUARDO - O meio?... É simples; é aquele que acabo de empregar e que V.Mce. estranhou. Tire ao amor os obstáculos que o irritam, a distância que o fascina, a contrariedade que o cega, e ele se tornará calmo e puro como a essência de que dimana. Não há necessidade de recorrer a meios ocultos, quando se pode ver e falar livremente; no meio de uma sala, no seio da intimidade, troca-se uma palavra de afeto, um sorriso, uma doce confidência; mas, acredite-me, minha mãe, não se fazem as promessas e concessões perigosas que só arranca o sentimento da impossibilidade.
D. MARIA - Mas supõe que esse homem, que parece ter na sociedade uma posição honesta, não é digno de tua irmã, e que, portanto, com este meio, proteges uma união desigual?
(continua...)
ALENCAR, José de. O demônio familiar. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7547 . Acesso em: 26 jan. 2026.