Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Dramas#Literatura Brasileira

Mãe

Por José de Alencar (1860)

JORGE - Deixa ver... Talvez não seja preciso.

PEIXOTO - A cama e a mobília da sala... Fica tudo por cento e vinte mil-réis. Tem mais alguma coisa?

JOANA - Tem, sim, meu senhor!... Tem esta escrava! Quanto acha Vm. que ela vale?

PEIXOTO - Ah! Isto é outro caso!... (A JORGE) Quer renovar a hipoteca sobre ela?

JOANA - Quer... Ele quer... Pois já não disse?...

PEIXOTO - Não ouvi! Então fica sem efeito o negócio dos trastes?

JOANA - Fica, meu senhor!... Não é, nhonhô?

JORGE - Não sei.

PEIXOTO - Em que ficamos?

JOANA - Devem ser quatro horas!

JORGE - Quatro horas!?... Que decide, senhor?

PEIXOTO - Sobre a mulata?

JORGE - Sim!

PEIXOTO - Dou-lhe sobre ela trezentos mil-réis.

JORGE - Como, senhor?!... Não lhe estava hipotecada por seiscentos mil-réis que acabei de pagar hoje?

PEIXOTO - Foi em outro tempo! Hoje está velha.

JOANA - Eu velha, meu senhor!... Mal tenho trinta e sete anos... Depois não sou qualquer mulatinha como essas preguiçosas que não entendem de outra coisa senão de estar na janela!... Eu sei pentear e vestir uma moça que faz gosto. Melhor do que muita mucama de fama.

PEIXOTO - Não tenho filhas.

JOANA - Mas eu também sei coser, lavar, engomar. Que pensa meu senhor?... Onde me vê, não é por me gabar... Dou conta do arranjo de uma casa... Varro, arrumo tudo, cozinho, ponho a mesa; e ainda me fica tempo para fazer as minhas costuras, remendar os panos de prato, arcar as panelas... Pergunte a nhonhô!

JORGE - Joana, eu te peço!

JOANA - Olhe, meu senhor! Dê quinhentos mil-réis, que não se há de arrepender!... Dê sem susto, porque o mais tarde, o mais tarde, amanhã meu nhonhô vai lhe pagar.

PEIXOTO - Não posso. Tu não estás segura...

JOANA - Eu não preciso, meu senhor!... Prometo a Vm. que não morro!... Não é capaz!... Tenho vida para cem anos. Vm. não conhece esta mulata, não. Seguro... Isto é para a gente de hoje!...

JORGE - Escuta, Joana.

JOANA - Nhonhô espere... Então Vm. não dá os quinhentos mil-réis?

PEIXOTO - Veremos: veremos! Conforme as condições que teu senhor aceitar.

JOANA - Logo vi que Vm. havia de chegar... Porque olhe!... Também por menos, estava bem livre!... - O que é, nhonhô?

JORGE (a meia voz) - Deixa-nos a sós Quero tratar com este homem.

JOANA - E que tem que eu esteja aqui, nhonhô?

JORGE - Em tua presença nunca poderei.

JOANA - Pois eu vou. Não se arrependa, nhonhô. D. Iaiá Elisa está esperando...

Coitadinha!...

CENA VII

JORGE e PEIXOTO

PEIXOTO - Está disposto a efetuar o negócio?

JORGE - Por quinhentos mil-réis dados imediatamente.

PEIXOTO - Já vejo que nada fazemos.

JORGE - O senhor supõe que estou, como certas pessoas com quem trata, procurando rodeios para tirar-lhe a maior soma possível. Engana-se.

PEIXOTO - Não suponho tal.

JORGE - Tenho urgente necessidade de quinhentos mil-réis, hoje, dentro de meia hora. Desde que não é possível obter esta quantia, o negócio não me convém. E não sei, Sr. Peixoto, se deva agradecer-lhe.

PEIXOTO - Então precisa de quinhentos mil-réis?

JORGE - Justos.

PEIXOTO - Pois não seja esta a dificuldade. Dou-lhe esse dinheiro sobre a escrava.

JORGE - Já?

PEIXOTO - Não o trago aqui, mas vou buscá-lo... num instante... Isto é, eu ainda não examinei a peça... mas podemos terminar isto.

JORGE - Que é preciso fazer?... Ir a um tabelião...

PEIXOTO - Levaria muito tempo. Distribuir a escritura... pagar selo... Nem amanhã se concluiria.

JORGE - Mas eu preciso hoje.

PEIXOTO - Há meio de remediar tudo. Faça um penhor!

JORGE - Para que o senhor a leve?

PEIXOTO - Um simples escrito, e está o negócio arranjado.

JORGE - Isso de maneira alguma! Pensei que era o contrato que já fizemos! Joana hipotecada ao senhor, mas sempre em minha casa!.

PEIXOTO - Deste modo nem é possível, nem eu lhe daria os quinhentos mil-réis. Devo lucrar os serviços.

JORGE - Por algumas horas... Pois amanhã...

PEIXOTO - Lá isso não sei... Pode ser por meses.

JORGE - Não tenho ânimo de separá-la de mim, de tirá-la de casa!

PEIXOTO - Pois resolva-se!... Vou ao escritório buscar o dinheiro. Daqui a cinco minutos venho saber a resposta.

JORGE - É escusado... Para que se incomodar?

PEIXOTO - Tenho um negócio para estas bandas. Até já.

CENA VIII

JORGE e JOANA

JOANA - Arranjou-se tudo, nhonhô! Não foi?

JORGE - Não fiz nada; estou na mesma.

JOANA - O homem teimou em não dar os quinhentos mil-réis?

JORGE - Dava: mas com uma condição que não quis... que não devia aceitar.

JOANA - Qual, nhonhô?

JORGE - Não entendes de negócio. Tanto faz dizer-te como não.

JOANA - É verdade que Joana não estudou como os homens que vão à escola! Mas... Nhonhô não faça pouco... Eu sei muita coisa. Pode ser que lembre uma idéia boa.

JORGE - Não fazemos nada, Joana. O melhor é resignar-me.

JOANA - Então nhonhô deixa morrer o pai de iaiá D. Elisa?

JORGE - Ele há de atender-me!... É impossível que um homem razoável persista em fazer semelhante loucura.

JOANA - Mas Vm. prometeu a iaiá... E quando ela vier que lhe há de responder?

JORGE - O quê?... Que esta vida não vale as lágrimas que custa!

JOANA - Nhonhô!... Não se lembre disso!

JORGE - Que hei de fazer, Joana?

JOANA - Se não tivesse deixado o homem sair.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1112131415...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →