Por José de Alencar (1862)
— Procedamos em regra. Às duas horas portanto pára-se a pêndula. Abolição completa da razão, do tempo, da luz; e inauguração solene do reinado das trevas e da loucura. Até lá liberdade completa dentro dos limites da decência; tudo quanto possa alegrar, como o gracejo, a cantiga, o brinde ou o discurso, é permitido; salvo o direito ao respeitável público feminino e masculino de patear as sensaborias.
— Nota do taquígrafo. Numerosos apoiados; o orador é cumprimentado.
E o Couto para realizar o seu dito propôs a saúde de Sum, e acompanhou-a com um discurso recheado de disparates, interrompido a cada palavra pela algazarra dos estouros báquicos.
Não tomei nem uma parte nesse primeiro tiroteio; Lúcia apenas dissera uma palavra. Ela estava visivelmente contrariada; por momentos caía em profunda distração, de que eu a tirava a custo; depois tomava-se de um estouvamento e sofreguidão que não era natural. Uma vez levantado o cálice, a contração muscular foi tão violenta que o cristal espedaçou-se entre as falanges delicadas. Tinha-se ferido, e para estancar o sangue, mergulhou o dedo no meu copo cheio de Sauterne: o áureo licor enrubesceu; e eu esgotei-o até a última gota num assomo de galanteio romântico.
Lúcia acompanhou o meu movimento com um olhar tão cheio do que olhava, como se eu lhe bebera a própria vida nessas gotas tintas de seu sangue.
— Se o bebesse todo!... balbuciou.
— Tu morrias, Lúcia! respondi sorrindo.
— Eu... viveria; e o resto seria pasto dos vermes, como foi pasto dos homens.
Semelhante à mosca importuna que se afoga no vinho, a palavra lúgubre afogou-se no entusiasmo que começava a brilhar em todas as frontes.
Lúcia apanhou no ar o primeiro dito que passava para fazê-lo ressaltar com uma das réplicas vivaces, titilantes de sarcasmo e ironia, que em certos momentos fervilhavam de seus lábios. Era impossível segui-la nesse brilhante rasto de seu espírito.
VII
— Sr. Couto, dizia Sá, recomendo-lhe estas perdizes! Estão saturadas de trufas e castanhas.
— Obrigado; é muito forte para mim. Daqui a dez anos, não digo que não.
— Passa-me as perdizes! exclamou o Rochinha piscando os olhos com certa malícia.
— Por favor, Sr. Couto, disse Lúcia rindo, empreste ao Sr. Rocha os seus cabelos brancos! Por esta noite ao menos...
— Oh! já não são poucos os que eu tenho.
— Mas não são bastantes, Rochinha, atalhou Sá. Lúcia tem razão.
Esta continuou:
— Vou fazer uma proposta.
— Muito bem; atenção em ambas as colunas, gritou o velho Couto abrindo os braços.
— Proponho...
— A minha saúde?
— Um coro com acompanhamento de pratos?
— Não! não! Se continuam, subo à rampa!
— Silêncio!
— Proponho que esta noite o Sr. Couto seja tratado por Coutozinho, que é mais terno; e o Sr. Rochinha sem o embirrante diminutivo, que lhe dá uns ares de menino de colégio!...
Houve explosão de gritos e aplausos.
— Acrescenta, disse o Sá, que Nina chamará o Sr. Couto — nhonhô, e Laura o Rochinha papai.
— Não admito! O incesto é contra a moral, gritou Lúcia.
— Como trata-se de nomes, eu também proponho uma mudança, bocejou o Rochinha. Em lugar de Lúcia diga-se Lúcifer.
— É velho! Não valia a pena acordar para isto. Quem não sabe que eu sou anjo de luz, que desci do céu ao inferno?
A guerrilha de facécias e ditos mais ou menos chistosos continuou tão viva, que renuncio à idéia de reproduzi-la.
Não pensava, quando comecei a escrever estas páginas que lhe destino, lutar com tamanhas dificuldades; uma coisa é sentir a impressão que se recebeu de certos acontecimentos, outra comunicar e transmitir fielmente essa impressão. Para o conseguir, cumpre que nada se omita; e aí justamente está o meu embaraço, porque há episódios daquela noite, que eu desejava bem poder deixar nos refolhos de minha memória ou no fundo do meu tinteiro.
Se tivesse agora ao meu lado o Sr. Couto, estou certo que ele me aconselharia para as ocasiões difíceis uma reticência. Com efeito, a reticência não é a hipocrisia no livro, como a hipocrisia é a reticência na sociedade?
Sempre tive horror às reticências; nesta ocasião antes queria desistir do meu propósito, do que desdobrar aos seus olhos esse véu de pontinhos, manto espesso, que para os severos moralistas da época aplaca todos os escrúpulos, e que em minha opinião tem o mesmo efeito da máscara, o de aguçar a curiosidade.
Por isso quando em alguns livros moralíssimos vejo uma reticência, tremo! Se uma curiosidade ingênua de 15 ou 16 anos passar por ali, não verá abrir-se em cada um desses pontinhos o abismo do desconhecido?
(continua...)
ALENCAR, José de. Lucíola. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2047 . Acesso em: 21 jan. 2026.