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#Romances#Literatura Brasileira

Diva

Por José de Alencar (1864)

Muita vez a sós as faces lhe ardiam, o sangue fervia dentro, as lágrimas saltavam dos olhos; súbito erguiase, com o talhe ereto, a cabeça desafrontada, o olhar aceso, e um sorriso —que sorriso! — mordido no lábio túrgido. Erguia-se para bater com o pé no chão e desafiar do gesto uma visão de sua fantasia. A teima infantil, que devia ser orgulho na mulher, estava-se gerando naquele coração de menina; Uma noite, ao deitar, Emília jurou que arrostaria tudo para atraveasar ela só a alameda da chácara. Seu dito, seu feito, e logo feito. 

Os primeiros albores do dia a acharam f á pronta. A exceção de alguns escravos, todos dormiam na casa. Esgueirou-se furtivamente pelas escadas e ganhou a cerca. Da cancela até o fim da alameda foi uma corrida só e de olhos fechados. 

Lá parou, tomou fôlego e correu a vista espavorida pelas densas e escuras ramadas. Disparou nova corrida, mas já senhora de si. 

Assim percorreu duas ou três vezes a alameda. Quando o sol nasceu, entrava ela sem ter sido pressentida, e metia-se na cama, onde sua mãe com pouco a foi despertar. 

Nesse dia Emília esteve de uma alegria que não mostrara recebendo a mais enfeitada de suas bonecas. Saltava de contente; a ponta de seu pé calcava mais firme o chão como se o quisera repelir, tanto o passo era firme e altivo. A luz filtrava mais viva na pupila negra; a mão tinha tais ímpetos nervosos que partia as penas escrevendo, e amarrotava a custura. 

—Foi essa minha primeira travessura, me dizia ela depois contando as suas recordações de infância. Dai em diante a minha afouteza foi em progresso. Um ano depois o mato já não tinha segredos para mim ; eu conhecia todos os trilhos e veredas, sabia onde estava a melhor goiabeira, o cajueiro mais doce, e o coco de indaiá, de que eu era muito gulosa! Eu mesma... O senhor acredita?... trepava nas árvores, penduravame aos ramos, e saltava pelas ladeiras as mais íngremes. 

—E sua mãe consentia nisso? perguntava-lhe eu. 

—Não consentia, não! Pobre mãe! Nunca ela o soube. Eu aproveitava as horas de estudo em que me deixavam só. A sala dava para o jardim; numa volta ou noutra eu ganhava a chácara, sem que me vissem. Demais, sonsa como era então, ninguém em casa podia desconfiar das minhas travessuras. Diante de gente tinha tal acanhamento que até já aborrecia. Minha mestra chamava a isso com muita graça a minha ferocidade caseira!... 

Fora assim, Paulo, que se formara essa natureza tímida ao mesmo tempo que audaz. Havia nela a transfusão de duas almas, uma alma de criança e outra alma de heroína. Só em face da natureza, a agreste poesia daqueles ermos comunicava com seu espírito e o enchia de arrojos admiráveis. Em presença de alguém a vida soldava-se no íntimo como num invólucro impenetrável; restava apenas na superfície uma sensibilidade irritável. 

Com a idade essa menina assumira a pouco e pouco o governo despótico da casa e da família. Desde o pai até o último dos escravas todos lhe obedeciam cegamente. Ela recebia com gentileza de moça e dignidade de senhora a homenagem devida à superioridade do seu espírito. 

Um dia, Emília, que já começara a frequentar a sociedade, surpreendeu sua alma triste e desconsolada no meio daquela velha habitação; pareceu-lhe isso um degredo dos ricos salões onde algumas noites se expandia a sua beleza. 

Disse então uma palavra. De repente o feio edifício surgiu das ruínas maior e suntuoso, entre jardins, mármores e repuxos; foi coberto de vasos, pinturas e tapeçarias; encheu-se de ricas mobilias; teve grande trem , numerosa criadagem e serviço magnifico à européia. 

Um dos novos criados, que não me conhecia, levara meu cartão de visita. Esperando, eu observava pelas janelas, à luz frouxa das estrelas, os tabuleiros de relva e os alvos passeios que se recortavam na areia da chácara. Nada sabendo ainda, sentia em tudo quanto me cercava o tato delicado das mãos de Emília. Ouvi perto de mim a voz do Sr. Duarte. 

—Bem aparecido, doutor, nesta sua casa! Cuidei que estava mal com ela! O negociante conduziu-me através de grandes salas, que estavam acabando de decorar, a uma saleta do lado oposto do edifício. 

D. Leocádia cosia junto à mesa; Emília estava ao piano; mas vendo-me entrar, levantou-se, correspondeu com a costumada frieza ao meu cumprimento, e foi recostar-se à sacada.  


VIII 

PASSEI alguns instantes a conversar com D. Leocádia junto à mesa. O negociante sentara-se numa cadeira de palha à porta do terraço, onde regularmente todas as noites fumava seu charuto. —Sr. Duarte! disse eu alteando a voz. 

—Doutor! —O senhor está lembrado do que se passou entre nós há três anos, logo depois do restabelecimento de D. Emília? A que respeito?... 

—A respeito da maneira generosa por que o senhor quis recompensar os pequenos serviços que eu... 

—Ah! lembro-me!... 

—Pequenos serviços, doutor! acudiu D. Leocádia. Um irmão não faria por sua irmã o que o senhor fez por Mila. 

—Fiz o meu dever, minha senhora, e nada mais; um simples dever de médico! —Não! O senhor pode pensar como quiser; mas eu sei que lhe devo a vida de minha filha, doutor. Se não fosse o senhor... —Que passou vinte e tantos dias, quase sem dormir, não pensando em outra cousa... Cuida que eu não vi o seu desespero quando Mila piorou? E até uma vez... 

(continua...)

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