Por José de Alencar (1873)
Nunca em minha vida, tive eu tamanha sede de ventura; também nunca a fortuna escarninha aproximara tão perto de meus lábios a taça falaz.
Ávido precipitei-me sobre ela, e pior que Tântalo, a quem o destino apenas retraía o pábulo, a mim trocou-o no mais negro fel.
Traguei a minha própria peçonha; e não morri, não, porque a morte seria uma redenção, e eu não expiei ainda toda a minha culpa de haver nascido, para ser um arremedo de homem...
29 DE ABRIL
Não pude acabar ontem. Embruteceu-me o desespero, se não é que empederniu-me; pois nem gemer eu podia como a besta quando sofre...
Que medonho transe!
Tinha-me eu embuçado na sombra das árvores, que serviam de manto escuro, e não deixavam que ela entrevisse mais do que um vulto. Meu semblante, se o descobrisse à claridade da lua, não resistiria à hedionda catadura do maldito!
Do seio da terra, que é o meu só regaço, mãe, depois que perdi o teu, onde me conchegava no delírio da dor; dás entranhas da noite, onde se gerou o aborto de peste que eu sou, estava alheio de mim na contemplação de Úrsula.
Eis rasga-se a escuridão e vomita sobre mim uma chama do inferno. Alaga o rúbido clarão todo o arvoredo, e cinge-me de uma labareda sinistra.
Corro; mas além está o luar alvacento, que amortalha-me em fantasma. Volvo esvairado sobre os passos, e entro de novo na flama vermelha que me persegue como a língua de Satanás.
Nisto surge o corpo alquebrado de um velho e afasta-se horrorizado.
- É o lázaro!... É o lázaro!...
Ainda ouvi o grito de angústia que despedaçou a alma de Úrsula, mas vindo doutro mundo diverso daquele onde eu estava. Do mais não soube, até as alvoradas que me acharam estremunhando na vasa onde eu jazera o resto da noite; da noite dos outros, que não desta contínua e perpétua que se estende sobre minha vida.
Mas até o sono do jazigo me rouba a sorte ímpia.
30 DE ABRIL
Lembro-me agora! O velho, é o mesmo que me repeliu, quando eu o acabava de salvar do cão danado. Daquela vez tinha razão: meu contacto o enchia de horror; mas desta, que mal lhe fiz para me precipitar nesta voragem do desespero?
4 DE MAIO
Sei tudo!...
O velho é avó de Úrsula. Percebeu sem dúvida o aparecimento naquele sítio de um vulto suspeito, e quis reconhecê-lo.
Acendeu a fogueira, que devia esclarecer a minha figura, e fugiu aterrado, por si e pela neta.
Não lhe quero mal por isso.
Salvar a filha de seu sangue é um dever de todo o homem. Em seu lugar eu faria mais. Exterminaria ali mesmo o pestiferado para que nunca mais ousasse envenenar o ar que ela, a inocente, respirava.
Úrsula não tornou, e eu rogo a Deus que não me apareça nunca mais. Assim terei ao menos o consolo de olhar os muros que a escondem à minha vista, mas não ao meu coração. Presente ela, ,nunca ousarei eu aproximar-me daqueles sítios.
O horror a afastou para sempre. Ainda bem! Ao menos não receberei dela o asco e desprezo que o mundo arremessa sobre mim; e poderei guardar dentro em minha alma, doce e com passiva, a linda imagem que me sorriu um dia através das agruras de uma mísera existência.
6 DE MAIO
Misérrimo de mim!... Despedacei a flor que desabrochara entre as urzes de minha alma, e derramava nela o seu mago perfume!... Apaguei a estrela que rompera um instante a procela de minha vida, para infundir-me no seio uma luz celeste!
Úrsula anseia nas vascas da agonia e fui eu que a matei; foi o horror de minha miséria que a assassinou.
Quando pressenti a fatal nova, pela agitação que ia na casa, perdi toda a razão, e precipiteime pelos aposentos em busca da câmara onde se finava a minha única e fugaz alegria deste mundo.
Perceberam-me os da família; e esquecendo um instante a sua dor, esbordoaram-me com tamanha ira que ali caí sem espírito, com o corpo macerado.
Despertou-me uma reza cantada ali perto, e as luzes das tochas que desfilavam pela praia.
Era o enterro de Úrsula.
Levaram-na à Igreja de São Pedro Gonçalves. Vi deporem seu ataúde na essa rodeada de tocheiros e guardada pelas beatas.
A meia-noite voltarei.
6 DE MAIO
Introduzi-me na igreja por uma janela baixa da sacristia, cuja grade estava carcomida.
Vendo à luz baça dos tocheiros assomar um vulto, as beatas fugiram assombradas. Fiquei só ali em frente do ataúde.
Nesse momento Úrsula me pertencia; ninguém a disputava à minha adoração.
Como era bela no eterno sono em que repousava do mundo e de suas misérias! Tinha nos lábios aquele mesmo sorriso que derramava sobre mim, agora tocado de um reflexo lívido. Estava branca e imaculada como os anjos; eram níveas como as faces as rosas que lhe cingiam os bastos cabelos crespos.
Quis beijá-la e recuei!... Ainda morta, e brevemente pasto dos vermes, não ousei profanar o despojo santo da formosa criatura.
Nesse momento ouço rumor do lado da sacristia. É a gente curiosa que vem trazida pelas beatas, para espancar o espetro. Querem roubar-ma outra vez!...
Mas não o conseguirão! Hei de disputá-la até aos vermes e ao pó da terra.
Cingindo ao peito o corpo de Úrsula, arrojei-me fora da igreja, e vim depositá-lo aqui, onde ninguém ousará perseguir-me. As portas estão eiscâncaras, dia e noite, batidas pelo vento; guardadas porém uma fera mais terrível que Cérbero, a peste.
(continua...)
ALENCAR, José de. A alma do Lázaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7545 . Acesso em: 8 jan. 2026.