Por José de Alencar (1873)
Por instantes fiquei sem outro sentido, que não fosse uma delícia como nunca tive, nem cuidei que se pudesse gozar na terra, pois me parecia estar no céu, afagado pelas asas dos serafins do Senhor, a brincarem-me entre os cabelos e a borrifarem-me as faces de angélicos sorrisos.
Eis que no meio desse êxtase de ventura, caí em mim arrojado ao abismo da minha miséria, como Satanás submergido nas trevas pela mão do Sempiterno!
Lembrou-me quem eu era, e o horror de mim mesmo espancou-me daqueles lugares.
Ainda o trago comigo! Ah! mãe, porque não estás aqui a meu lado para reerguer-me desta abjeção em que me sinto. Tua palavra me daria força para exaltar esta alma abatida. Ao calor de teu seio, creio que se havia de regenerar esta natureza pusilânime.
15 DE ABRIL
Vejo-a todas as noites.
Sempre recostada ao balaustre, esfolhando ao vento as rosas fragrantes, entretêm-se nesse brinco inocente até a hora de recolher.
Sabe ela que eu a devoro com os olhos, cá do meu refúgio?
Às vezes receio que se tenha apercebido da minha presença constante naquele sítio; e é quando reclina-se mais no balaústre, e estende o colo, como se procurasse afirmar-se do que entrevira.
Nessas ocasiões coso-me ao tronco do coqueiro, e deixo-me ficar sem movimento pelo resto da noite, até que recolhida ela, me posso esgueirar para casa.
16 DE ABRIL
Meu Deus! Meu Deus! Dai-me força para resistir-me, pois ma destes para sofrer este suplício atroz.
Ela, Úrsula, me conhece!
Esta noite, quando me esquecia a contemplá-la, seguro de mim, vi-a acenar com a mão, como se me chamasse! Duvidei que me pudesse ter descoberto ou sequer pressentido. Mas ela insistiu, e como não lhe obedecesse, enfadou-se.
O que se passou em mim, e qual poder oculto dominou meu ser, que sem vontade, nem consciência, atirou-me de joelhos em face do terrado, com as mãos súplices e a fronte abatida, implorando com paixão para a minha infinda angústia?
Esteve Úrsula algum tempo a olhar-me, entre surpresa e aflita. Mas por fim ajoelhou também, erguendo as mãos ao céu, e eu ouvi o sussurro da sua prece.
Era por mim que rezava?
Não ouso crer. Depois que te partiste, mãe, lá na mansão em que habitas, acaso viste subir a Deus uma súplica, uma só, por este desgraçado?...
20 DE ABRIL
Infame sou eu, que de minha hediondez ousei erguer os olhos para a mais bela das criaturas de Deus.
Como foi isto?... Como foi que me não acometeu o horror que ainda me transe neste momento? Por que me não fulminastes, Deus de Misericórdia, quando sem tento de mim, transpus a distância que me separava dela?
Mas não fui eu, que morreria ao primeiro passo... A insânia que me arrancava a mim mesmo, apoderou-se deste esqueleto vil, e arrastou-o miseravelmente ao sopé do terrado.
Ao ver-me ali perto de si, Úrsula debruçada à balaustrada, começou a desfolhar as. rosas sobre minha cabeça, rindo faceiramente de sua travessura..
Disto não tenho mais que uma vaga e tênue reminiscência, pois meus espíritos ainda estavam nesse momento alheios de mim com a grande torvação.
Colhia ela as rosas que me atirava e eu recolhia em meu seio. Correram assim as horas da noite, sem que as sentisse.
24 DE ABRIL
Todas as noites, as tenho passado naquele doce enlevo!
Ali, próximo a ela, sinto-me como outrora quando me recolhias em teu regaço, mãe, e à força de carinho me acalentavas a dor horrível.
Como teus braços outrora, cinge-me o olhar de Úrsula, e me envolve. As folhas das rosas, que ela esparge sobre mim, são carícias tão doces como eram teus beijos, mãe, quando derramavas em meu seio o bálsamo santo da tua alma.
Horas e horas ficamos ali, mudos a olhar-nos, eu repassando-me de sua imagem, ela talvez admirada, em sua ingênua isenção, do meu estranho pasmo.
Ontem, sem o sentir, rompeu-me da seio o seu nome, que meus lábios repetiam submissos, uma e muitas vezes, como as palavras de uma oração. Interrompeu-me a voz de Úrsula.
- Acha bonito meu nome?
Naquele instante não atinei o sentido das palavras, tão absorto fiquei a ouvir a voz melodiosa que falava. Mas quando entendesse, podia eu exprimir em linguagem o que se passava em meu ser, e pronunciar seu nome?
Movi a cabeça maquinalmente como se dissera: sim.
- E o seu? Qual é? perguntou-me ainda.
Meu nome?... Há no mundo para os desgraçados como eu outro nome que não seja o de miserável?... Tive outrora um; nem já me lembro qual fosse, pois há tanto tempo que ninguém o chama! Para ti, mãe, eu era o filho; para o mundo, o lázaro!
Não se abriram meus lábios, porém com o gesto supliquei-lhe silêncio.
(continua...)
ALENCAR, José de. A alma do Lázaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7545 . Acesso em: 8 jan. 2026.