Por Joaquim Manuel de Macedo (1840)
Espere sempre... eu sirvo para alguma coisa
Simão
Qual! Se eu fosse mulher casava-me logo com o filho do barão do Lago Azul... vou-me embora...
Pereg.
Não... não... dance primeiro com a bela Corina, e ainda que ela se mostre indiferente e fria, tenha esperança... eu sustentarei a sua causa...
Simão
Não posso mais apresentar-me candidato... aquela firma é melhor que a minha...
Peregr.
Que homem desanimado!... Demore-se e mostre-se amável: olhe... isto é segredo de família... Teófilo tem outras intenções... creio que minha irmã...
Simão
Hein?... Que está dizendo?... Eu, porém, o vejo muito mais ocupado a conversar com a outra...
Peregr.
Disfarce de namorada...
Simão
O senhor dá-me alma nova... então tratarei de manifestar-me... mas não me engane...
Pereg.
Voltemos à sala... estão servindo o chá. (vão-se)
Cena 8ª
Júlia e Corina
Corina Não tens razão... acredita-me
Júlia Se tenho! É casquinha como os outros.
Corina É prata de lei.
Júlia Por isso estás perdida por ele.
Corina Teófilo adora-te...
Júlia Sim; já mo repetiu dez vezes e continua a dizê-lo; mas sem nunca te haver conhecido teve que dizer-te tanta coisa em voz baixa... ocupa-se tanto de ti...
Corina É verdade...
Júlia E tu pareces tão contente, tão feliz...
Corina É verdade...
Júlia Ah! confessas?... E então?...
Corina Confesso o que acabas de dizer; juro, porém, que é a ti que ele ama.
Júlia E tu?...
Corina Confia em mim.
Júlia Desta vez ficou-me um espinho no coração... Corina! Sabias que eu amava Teófilo...
Corina E bendigo do teu amor... oh! Júlia tu nem pensas como eu amo o teu amor.
Júlia Que fogo!... Mas ou eu não te posso entender ou tu és a sonsa mais refinada...
Corina Aceito o dilema.
Júlia Então... há um jogo...
Corina Convenho.
Júlia E esse jogo... esse jogo... Corina, tu contas ganhar?...
Corina Se tu ganhares...
Júlia Tu esperavas Teófilo?...
Corina Esperava-o
Júlia Corina!...
Corina Não pude ver-te sofrer e julgar mal de mim... Deixei transpirar já metade do meu segredo: basta...
Júlia Ah, sonsa!... tu amas... tu amas... ele o sabe?...
Corina Atraiçoa-me agora, se quiseres...
Júlia O que eu quero é entrar no jogo... já devias ter falado... como é a história toda?
Corina Agora... aqui é impossível... depois eu te direi tudo.
Júlia Mas se eu quero entrar no jogo!... Hei de perguntar a Teófilo... (sinal de contradança)
Corina Júlia!
Júlia Não dizes que é a mim que ele ama?
Corina Pergunta-lho: o teu amor é a minha fiança.
Cena 9ª
Júlia, Corina, Teófilo e logo Simão, Firmino aparece e desaparece, observando Teóf. Por ordem da música e da ambição de glória perturbo a conferência angélica. (a Júlia) Vim lembrar a V. Exª. a minha contradança... (oferecendo-lhe a mão)
Júlia Posso perguntar, Corina?...
Corina Podes. Teóf. Oh! E eu serei tão feliz que possa responder?...
Corina Pode.
Júlia Ainda bem! Vou entrar no jogo. (os três vão sair) Simão V. Exª. não pretende, creio eu, dançar com duas senhoras...
Teóf.
Pretendo, sim senhor...
Simão
Esta é nova! E como?
Teóf. Dançando agora com uma e logo com a outra.
Simão
Ah! isso é claro... mas eu estava meio só...
Corina O senhor me havia pedido esta contradança... com todo o prazer... (toma o braço a Simão)
Teóf.
De vis-à-vis conosco... sim?...
Simão
Não faço questão de vis-à-vis... (de mau modo)
Teóf.
Admirável! De vis-à-vis toda a noite! (vão-se)
Cena 10ª
Firmino e Peregrino
Peregrino (moitando) Vê, meu pai?...
Firmino Agora ao menos é Júlia o seu par!...
Peregr.
Corina não podia sê-lo sempre.
Firmino Mas Júlia estava contrariada e agora vai radiante.
Peregr.
Também desconfio de Júlia.
Firmino Ela ama Teófilo, não é admissível que conspire contra o seu amor.
Pereg.
Mas os dois namorados acharam meio de iludi-la, e de abusar da sua credulidade.
Firmino Nesse caso deves lamentar tua irmã, e não desconfiar dela...
Pereg.
É que Júlia deixa-se enganar com simplicidade pueril!... Meu pai me desculpe... é natural que eu esteja desensofrido...
Firmino Tens razão: tudo nos contraria: até havia de acontecer que teu padrinho adoecesse hoje, para que a filha não pudesse vir!...
Peregr.
Mas que lembrança infeliz a de Júlia com a sua maldita boneca!...
Firmino Pensas que não me tenho arrependido desta malfadada reunião?...Mmas que hei de fazer agora?.. É indispensável mostrar o rosto alegre...
Peregr.
Sem dúvida: hoje é sofrer com paciência; mas desde amanhã, meu pai...
Firmino O que?
Peregr.
Sempre sou transparente aos olhos de meu pai: Corina é o meu brilhante futuro pela sua riqueza; mais do que isso, é a regeneração da fortuna paterna pela dedicação e pela diligência do filho enriquecido.
Firmino Sei tudo isso, mas só me lembro de ti.
Peregr.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de Macedo. Uma pupila rica.