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#Comédias#Literatura Brasileira

Remissão de Pecados

Por Joaquim Manuel de Macedo (1870)

ADRIANO – Quem te fala em sair, minha Helena?... eu queria dizer, que, ainda assim, preciso tranqüilizar-me, ouvindo um médico, e tu rebelde, e obstinada...

HELENA – Mas, se não há necessidade de médico!

ADRIANO – Há, passaste uma noite cruel: ansiedade... vômitos, e uma síncope, embora ligeira... isto pode ser grave...

HELENA (Rindo triste.) – Foi contágio... Eurídice desmaiou no teatro e eu em casa: desmaios de comédia.

ADRIANO – Não me fales nesse tom de ironia... não me olhes desse modo tão triste... pareces uma vítima... que serei eu então?...

HELENA – Tu?... eu juro que nunca te ouvi uma palavra acerba, e que advinhas os meus desejos para realizá-los.

ADRIANO – Só isso Helena?...

HELENA – Oh! e muito amor e imensa felicidade te mereci, Adriano!

ADRIANO – Mereceste!... como se não merecesses ainda!... queres fingir-te má?...

HELENA – Por que me fazes falar?... eu não me queixo: se às vezes vês-me triste, é a pesar meu: tem paciência... as senhoras são assim... exigentes demais. Entretanto, diante de estranhos, no teatro, no baile, recebendo visitas... eu me rio... eu me ostento feliz... oh!... (Com voz alterada.) não basta o véu? ...

ADRIANO – O véu!!! Mas... não fales... não te exaltes: sossega.

HELENA (Serena.) Perdoa-me: poucos casados têm, como tivemos, dois anos de bem aventurança na terra. Vivi dois anos no céu! olha: não vês todos os dias nos espetáculos públicos, nas sociedades tantas senhoras casadas alegres... radiantes... festivas?... fingimento, Adriano! não vês tantos maridos cercando de cuidados e de expansões de amor às esposas? (Em pé e forte.) falsidade!... o paraíso não passa do respeito devido às conveniências sociais; mas, no segredo do lar, está o tormento de lutas desabridas, às vezes indecorosas, ou, Adriano... o inferno da resignação e do martírio profundo... mundo... horrível!... (Com fogo.)... – E o meu?... (Fria.) desculpa, isto é moléstia: estou nervosa... eu falava das outras... de que posso queixar-me? amaste-me; amas-me... e se me não amasses mais, seria pior querer obrigar, o que não se obriga. Tu és bom para mim.. . e má sou eu... Adriano, estou muito melhor: porque não sais?...

ADRIANO – Tens razão... confesso: no desatino da fatal paixão do jogo eu te esqueço longas noites e frenético esbanjo a fortuna que me trouxeste.

HELENA – E que me importa o jogo?

ADRIANO – Perdão, Helena! arrastei-te à pobreza; mas, eu te juro. não jogarei mais... vou trabalhar...

HELENA – Já maldisse do jogo: hoje, que me importa? rio-me da miséria!

queres jogar? falta-te o dinheiro?... dou-te as jóias; dou-te os brilhantes que ainda me restam, vende-os e joga...joga... joga...

ADRIANO – Helena!

HELENA – Joga! que me importa o jogo?... oh!... há só uma penúria que a esposa que ama seu marido não pode suportar... é a penúria do amor... e eu te amo, Adriano! eu te amo! e tu, e tu... (Avançando em desespero.) e tu... e tu...

ADRIANO – Helena!...

HELENA (Terrível e com voz surda.) – Tu amas outra mulher!... amas

Dionísia!...

ADRIANO (Leva Helena para a otomana.) – Oh! pobre mártir!... eu te amo!... Helena, minha Helena... (Em aflição.) porque não morro! (Abraçando-a) sossega! eu te adoro sempre! és o meu anjo!...

CLARIMUNDO (Dentro...) – Vou subindo e entrando sem cerimônia.

ADRIANO – Helena!

HELENA (Em pé e enxugando as lágrimas.) – Podes sair.

CENA II

ADRIANO, HELENA e CLARIMUNDO

CLARIMUNDO – Vim a correr: adeus Adriano (Avança e observa) menina! evidentemente ela passou mal...

ADRIANO – Sofreu muito durante a noite, sofre ainda e teima em não consentir que se chame o médico.

HELENA – É que não vale a pena: tudo passou...

CLARIMUNDO – Não vale a pena? (Silêncio.) ainda bem: vá descansar um pouco.

HELENA – Dormi três horas... descansei bastante e acho-me forte.

CLARIMUNDO – Então mande-me preparar o almoço, contando com o

Cincinato, a quem no hotel deixei recado para vir encontrar-me aqui.

HELENA – Almoçaremos juntos... agradeço-lhe este prazer.

CLARIMUNDO – Quero mais: enquanto se prepara o almoço, vá para o seu toucador: peço-lhe um toilette simples, mas elegante, e no penteado aqueles anéis de cabelos soltos, de que eu tanto gostava; talvez não seja moda; é, porém, capricho meu... vá... e muito bonita ao almoço... ande... vá....

HELENA (Rindo.) – Vou já... há de ver que faceirice! (A Adriano.) Não te

constranjas por mim... bem vês que podes sair... adeus! (Vai-se.)

CENA III

ADRIANO e CLARIMUNDO

ADRIANO – Obrigado! o senhor é o melhor dos médicos para Helena.

CLARIMUNDO – É que ela tem confiança em mim: e o senhor? e tu,

Adriano?...

ADRIANO – Precisa perguntá-lo?...

CLARIMUNDO – É claro que afastei Helena, para que ficássemos a sós.

ADRIANO – Ah! e então?...

(continua...)

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