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#Comédias#Literatura Brasileira

Remissão de Pecados

Por Joaquim Manuel de Macedo (1870)

CLARIMUNDO – Não vim ralhar; mas é natural que eu te peça contas da fortuna e da felicidade de Helena. Quero poupar-te a confissões penosas. Cheguei ontem, e hoje sei já tudo. Tens perdido em uma casa de jogo quanto possuías; e tudo quanto possuías, Adriano, era o dote ou a fortuna de tua mulher.

ADRIANO – Tem razão, sr. Clarimundo; é verdade o que diz.

CLARIMUNDO – Não te confundas: somos dois amigos a conversar com expansão. Eu também fui moço: quebrei a cabeça algumas vezes; mas tu eras um moço velho: como, de repente, enlouqueceste a ponto de te tornares jogador?...

ADRIANO – Ah! foi uma hora de infernal felicidade que me perdeu! eu estava no baile e entrei por curiosidade na sala do jogo... Fábio jogava, e me provocou a imitálo.

CLARIMUNDO – Ah! Fábio...

ADRIANO – Sim: desde algumas semanas ele se relacionara comigo...

CLARIMUNDO – E freqüentava a tua casa?

ADRIANO – A princípio; mas Helena, aliás já amiga de dª. Úrsula, não o recebia com agrado, e o afugentou.

CLARIMUNDO – Por que? Helena é tão afável...

ADRIANO – Capricho de senhora; antipatiza com ele.

CLARIMUNDO – Ah! então Fábio te provocou a jogar.

ADRIANO – E outros com ele... zombaram da minha resistência...e enfim eu tive como vexame de parecer mesquinho: joguei... tomei as cartas... ganhei... oh!... senti as emoções do jogo... ganhei muito, e levantei-me inebriado... febricitante.

CLARIMUNDO – E depois? ...

ADRIANO – Ouvi Fábio e alguns outros emprazarem-se para a noite seguinte em uma casa de jogo... pedi explicações, e exaltei-me ouvindo a descrição desse abismo... oh!... sr. Clarimundo... eu estava envenenado pelo favor da fortuna... fui jogar e ganhei ainda na primeira noite... depois... depois... eu reduzi minha mulher à miséria e minha reputação de probidade à... à.... desgraçado!...

CLARIMUNDO – Pelo trabalho o homem regenera a riqueza perdida: se és

capaz de não tornar a jogar... se ainda tens honra no coração, eia! reanima-te. Eu estou pobre: mas tenho amigos... pedirei para mim... e faremos maravilhas; mas... Adriano! és capaz de não jogar?...

ADRIANO – Oh!... sim! eu não jogarei mais; porém, salvar-me... é impossível! caí no fundo do precipício!

CLARIMUNDO – Tem coragem, e tornemos à Helena: tu a olvidaste muito, quando em noite de frenesi queimaste ao jogo a fortuna que ela herdara de seus pais; estou certo, porém, que a amas em dobro, empobrecida por ti.

ADRIANO – Helena... criatura angélica... uma santa...

CLARIMUNDO – Eu estava seguro dos teus sentimentos; o contrário seria horrível... imagina: um mancebo tomar por esposa uma donzela rica, formosa, tesouro de virtudes e de amor, não ter dela a mais leve queixa, a menor dúvida de sua dedicação, e do seu recato... – tens de Helena?

ADRIANO – Meu Deus! não... não... é um anjo...

CLARIMUNDO – E depois de levá-la até perto da fome pelo completo desbarato da sua riqueza na paixão vergonhosa do jogo, amesquinhar suas virtudes, ultrajar sua beleza, assassinar o seu amor, atraiçoando-a pelo adultério, aviltando-a pela preferência ou pela competência de uma rival qualquer... talvez mulher indigna... ah! não... não... eu sabia que desse atentado... desse crime tu eras incapaz.

ADRIANO – Basta! basta! (Correndo à porta e, observando, volta. ) eu sinto que me castiga... não me defendo... sou infame algoz... e nos remorsos de uma paixão que me desonra não preciso de juiz que me condene, porque já tenho o meu patíbulo na consciência.

CLARIMUNDO – Desgraçado! e a razão, de que te serve?...

ADRIANO – Os loucos não a têm. Eu não lhe encubro nenhum dos meus ignóbeis erros... insulte-me, despreze-me... está no seu direito: sou um infeliz pervertido...

CLARIMUNDO – Miséria humana! a paixão desvaira o homem: Adriano, eu te desculpo, mas a loucura há de passar e Helena te perdoará. Aproveita a lição da experiência para também seres fácil em perdoar aos outros, desatinos iguais.

ADRIANO – Sim... eu não posso mais ser severo... não há vontade que domine a violência da paixão.

CLARIMUNDO – Bem, meu amigo, o ensejo é o mais oportuno para te confiar o verdadeiro motivo da minha vinda a esta capital. Vamos deixá-la quanto antes: estás enganado sobre a causa da tristeza de Helena.

ADRIANO – Que quer dizer?

CLARIMUNDO – Ânimo e prudência: um amor irresistível... fatal...

ADRIANO – Minha mulher!...

CLARIMUNDO – A infeliz esqueceu o dever... e desassisada... perdão!...

ADRIANO (Lançando-se para a porta.) – Infâmia!...

CLARIMUNDO (Contendo-o e friamente.) – E a paixão que desculpa o

adultério?... há pois duas leis diversas para a fidelidade dos esposos?...(Silêncio.)

ADRIANO – Oh!...o senhor foi cruel!... meu Deus!... como Helena deve ter

sofrido!...

CLARIMUNDO – E é mulher, e a mulher vive só de amor, Adriano!... vê como estás matando Helena!...

ADRIANO – A minha Helena! meu pai! eu vou ser digno dela!... obrigado... o senhor me regenera... obrigado, meu pai!... (Abraça-o.)

CLARIMUNDO – Teu pai!... pois bem... chama-me assim... Adriano... chamame teu pai... mas... corrige-te... trabalha... volta a Helena... ouviste... sê bom, meu filho!... eu quero chamar-te meu filho!. (Profunda comoção: novo abraço.)

CINCINATO (Dentro e batendo palmas.) – Removido do hotel Provenceaux para a casa de Adriano, prevenção: fome de quinze dias.

CENA IV

ADRIANO, CLARIMUNDO e CINCINATO

CLARIMUNDO – Entra.

(continua...)

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