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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

Não era porém comum o ver-se sobre um túmulo deposta a roxa perpétua pela mão da simples amizade. Poucos se notavam os amigos de além-túmulo.

Mas lá em sombrio recanto havia uma urna humilde e modesta, onde um grande número de homens e mulheres se tinha ido ajoelhar e depor seus ramos de saudades. Ora um mancebo luzido e rico, quase sempre a pobre mulher envolta em negra mantilha, e o velho abatido e magro se fora curvar ante esse pó sem dúvida muito amado.

O túmulo como dito fica, era simples e humilde; tinha por inscrição na parte superior duas letras – P. A. – e logo abaixo delas uma outra – C.

Ultimamente uma velha magra, de cabelos brancos e olhos verdes, e um mancebo pálido, de cabelos pretos e olhos pardos, acabavam de ajoelhar-se junto do túmulo, e oravam profundamente.

Um homem, a quem o amor que se tributava àquele pó tão lembrado, parecia haver muito sensibilizado, esperou que a velha e o mancebo se erguessem para falarlhes; mas vendo que ambos por demais se demoravam, aproveitou um seu momento em que a mulher levantou a cabeça e tocando-lhe no ombro, perguntou:

– Senhora, perdoe se a interrompo; mas por quem é que ora tão fervorosamente?

– Pelos pais dos pobres, respondeu a velha.

– Como se chamavam?...

A mulher apontou para as três letras, e disse:

– Paulo Ângelo e Celina.

– Ah! tem razão; por minha vez rezarei por eles.

A velha tinha já outra vez se mergulhado em suas orações.

Nesse momento aproximaram-se do túmulo um velho e duas senhoras; uma muito mais moça que se quis logo lançar de joelhos, e outra também moça ainda, que fez a primeira parar à força enquanto se não levantavam a velha e o mancebo.

Teve então lugar uma cena que atraiu a atenção de quase todos os circunstantes.

A primeira das recém-chegadas, que era tão jovem como bela, sustida à força por sua companheira, por entre um dilúvio de lágrimas, sufocada por seus soluços, encarava ainda assim com indizível mostra de gratidão a mulher e o mancebo que rezavam junto daquele túmulo.

E o velho pálido, com os braços cruzados e a cabeça caída, chorava muito, como chora um pai pelo filho amado que lhe morreu.

Finalmente a velha persignou-se e se ergueu. Um lugar ficou vazio; o moço levantava-se também por sua vez, quando a jovem escapando-se das mãos da senhora que a sustinha, foi... atirou-se de joelhos ao pé da urna funérea, exclamando: – Meu pai!... minha mãe!...

O mancebo, que acabava de levantar-se, escutando aquela exclamação dolorosa, e olhando para a pessoa que a soltava, começou por seu turno a soluçar desabridamente, e, sem querer talvez, pôs as mãos ainda em pé, e depois foi pouco a pouco curvando-se até ajoelhar-se de novo.

No entanto a comoção ou o acaso tinha feito com que se soltasse a mantilha que a velha trajava; e então aquela mulher alta, magra, com seus longos cabelos cor de neve caídos sobre uma saia de sarja preta, com as mãos postas e em pé por detrás daqueles dois jovens, completava um quadro da mais dolorosa eloqüência.

Conhecendo que também ela se fazia objeto da geral atenção, apontou para o túmulo, olhou com seus olhos verdes para a multidão e disse:

– É o prêmio do justo.

E desfazendo-se em lágrimas, a velha envolveu-se de novo e rudemente com sua mantilha, e retirou-se apressada.

A esse tempo também o mancebo tinha já refletido sobre o que acabara de praticar, e espantado de si mesmo, aproveitou o instante em que todos os olhos acompanhavam a velha, para desaparecer por entre os túmulos.

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À inteligência de ninguém será feita a injustiça de dizer-se, como revelando um segredo, que essa mulher era Irias, e esse mancebo Cândido.

Somente convém acompanhá-los em sua volta para o “Purgatório-trigueiro”.

CAPÍTULO V

O INSULTO

A VELHA e o mancebo encontraram-se à porta do templo, e sem se dizerem palavra, dirigiram-se para o “Purgatório-trigueiro”.

Irias voltava comovida; Cândido absorto e preocupado caminhava a esmo.

Havia mês e meio que na alma de Cândido se desabotoara sobre uma bela flor, um pensamento novo e brilhante, que desde então sendo o seu eterno companheiro das vigílias do dia, e dos sonhos da noite, nesse momento em que tornava para o “Purgatório-trigueiro”, o ocupava exclusivamente.

Esse pensamento se debuxava na alma do mancebo sob a forma de uma mulher formosa.

Até bem pouco, Cândido, que sentia o coração cheio de amor, que pedia incessantemente ao céu sua mãe para saciar nessa mulher, que lhe dera a vida, toda sua ambição de amar e de ser amado, não tinha ainda adivinhado que além do amor filial um outro afeto há, ardente e poderoso, que enche a vida do homem, que lhe desvaira a cabeça e pode fazer dele um herói ou um demônio.

Cândido era uma criatura excepcional, um desses mancebos que tem podido viajar pelo mundo vinte anos sem sentir surgir-lhe em seu caminho a figura de uma mulher formosa que lhe fizesse pagar o tributo gracioso, que enfim o coração do homem paga sempre na vida.

(continua...)

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