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#Ensaios#Literatura Brasileira

Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

Alexandre Cardoso sentiu alvoroço na sala de jogo, e não tendo retirada pelo quintal, perdida a cabeça, lançou-se além da cozinha pela sala de jantar, tomou por estreito corredor, e ao ouvir o ruído que faziam os jogadores, que acudiam aos gritos da negra, foi subindo uma escada que achou no fim do corredor sem saída...

Mas no tope da escada apareceram Helena e Águeda a bradar:

O lobisomem vem para o sótão!... o lobisomem está aqui!...

Alexandre Cardoso precipitou-se pela escada abaixo, tornou à sala de jantar, viu os jogadores que voltavam apressados do quintal, tomou por outro corredor, chegou à saleta do jogo, e enfim, orientado, saiu veloz pela porta ainda entreaberta da loja.

Estava livre do maior perigo; não querendo, porém, que o reconhecessem, e certo de ser perseguido, como de fato logo o foi, fugiu, correndo pela Rua da Vala, e aturdido pela vozeria dos jogadores já a segui-lo, ao chegar diante da extrema da Rua do Padre Homem da Costa, deu infeliz salto para vencer a vala, e caiu dentro dela.

Pior do que isso! João Fusco e os companheiros da banca aproximaram-se, e Alexandre Cardoso, furioso, sem medo, mas envergonhado do ridículo de sua situação, e para escapar à publicidade do seu escandaloso procedimento, abismou-se até o pescoço na vala nauseabunda e mal cheirosa.

Os perseguidores o procuravam... alguns diziam que ele se escondera dentro da vala, já falavam em mandar vir luzes e archotes, o poderoso oficial da sala do vice-rei estava em torturas, quando angustioso brado veio salvá-lo.

O lobisomem carregou com Águeda!... gritava Helena desesperada.

João Fusco e seus amigos acudiram ao clamor de Helena.

O caso era simples.

O sacristão achara a igreja fechada e a casa do vigário seu tio também de porta trancada, e amante apaixonado a imaginar traição, voltara à Rua dos Latoeiros, ouvira grande ruído na casa de João Fusco, e apreensivo se dirigira para a Loja de Doces.

Quando ali chegava, Helena saía como espavorida agarrando-se ao irmão que com os sócios da banca iam em perseguição do lobisomem.

À porta da loja ficaram somente Águeda e Jacoba que lhe contaram quanto se passara.

O sacristão, adivinhando pela ousadia da tentativa algum poderoso rival, disse com ansiedade a Águeda:

- Oh!... em tal caso, ou já ou nunca!

E ofereceu a mão à menina.

Águeda o compreendeu, e, tomando-lhe a mão, fugiu com ele.

Pouco depois Helena menos aterrada, lembrando-se da filha, voltou cuidadosa para casa; mas debalde procurou Águeda, encontrando apenas Jacoba caída no chão e em terríveis contorções.

Tudo obra do lobisomem!

João Fusco e os outros chegaram para reconhecer a triste verdade.

Águeda tinha desaparecido.

Alexandre Cardoso, aproveitando a súbita retirada dos perseguidores, saiu da vala, e desapontado e prestes recolheu-se à sua casa, onde, livre da roupa imunda, só depois de três sucessivos banhos, foi no leito pedir ao sono o esquecimento das suas extravagâncias e do seu desastre dessa noite.

O epílogo desta tradição tem o merecimento de dois bonitos quadros: um o da felicidade de dois jovens amantes; outro o de um benefício público.

O Vigário de S. José perdoou facilmente a travessura do sobrinho, casando-o com Águeda, a despeito dos impedimentos que João Fusco protestava que ia apresentar, mas que não ousou fazer.

Alexandre Cardoso, o ajudante oficial da sala do vice-rei, tomara em aversão a vala, e sem dúvida para obviar iguais e possíveis desastres futuros fez com que o Conde da Cunha ordenasse à Câmara Municipal que a mandasse cobrir com lajedos.

Precaução de useiro salteador amoroso noturno.

Veio ex-fumo a luz, do mal o bem; de um banho fétido na vala a pétrea coberta desta.

Meses depois de realizada a obra beneficiadora da cidade, e de quase de todo esquecida a famosa história do lobisomem na casa de João Fusco, lobisomem de que principalmente as velhas davam testemunho até jurado da aparição, da correria e do desaparecimento misterioso por arte diabólica, Alexandre Cardoso que era vingativo e mau, explorando a freqüência de pasquins injuriosos que amanheciam pregados nas esquinas das ruas contra ele próprio, e contra o Vice-Rei Conde de Cunha, um dia mandou prender o sacristão da Igreja de S. José como suspeito de pasquineiro.

Era suspeita imaginada, calúnia indigna e perversa, vingança de opressor cruel.

Mas, ainda bem que a vítima, o sacristão, era sobrinho de padre, e ainda mais e melhor, sobrinho de padre vigário.

O marido de Águeda tinha averiguado, ponto por ponto, a história toda do lobisomem; guardaraa, porém, consigo a medo do oficial de sala.

O tio vigário, sabendo da prisão do sobrinho, foi ter com ele à cadeia, e ouvindo-o então narrar o caso do lobisomem, que explicava a injusta prisão, correu logo a referi-lo ao Bispo D. Frei Antônio do Desterro, e o bispo deu conhecimento de tudo ao Conde da Cunha, que mandou soltar o sacristão, bem que não acreditasse no que diziam contra o seu ajudante oficial de sala.

Propalou-se logo a história do lobisomem, e dias depois amanheceu em frente da rua do Padre Homem da Costa, junto da vala, fincado um poste e nele pregado o seguinte pasquim:

Mude-se o nome da rua,

Tenha outro nome e mais gala;

(continua...)

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