Por Joaquim Manuel de Macedo (1844)
— Pois é precisamente agora que eu reconheço ter chegado muito tarde ou pelo contrário, talvez cedo demais.
— Cedo demais?...
— Certamente: não se chegará sempre cedo demais onde se corre algum risco?
— Aqui, portanto...
— Neste lugar, portanto, continuou o estudante, voltando os olhos por todas as senhoras, e apontando depois para d. Quinquina; aqui, principalmente, floresce e brilha o prazer, mas perde-se também a liberdade de um mancebo!
Os dois foram interrompidos para corresponder a uma longa e interminável coleção de brindes que o alemão principiou a desenrolar, e com tanta freqüência e tão pouca fertilidade, que só a sra. d. Ana teve, por sua saúde, de vê-lo beber seis vezes.
Enfim, cedeu um pouco a tormenta, e d. Quinquina, que havia gostado do que lhe dissera o estudante, continuou:
— Não quis vir com os seus colegas?
— Eu gosto de andar só, minha senhora.
— Sempre é má e triste a solidão.
— Mas às vezes também a sociedade se torna insuportável... por exemplo, depois de amanhã...
— Depois de amanhã? repetiu ela, sorrindo-se; depois de amanhã o quê?
— Minha senhora, ouvidos que escutaram acordes, sons de harpa sonora, vibrada por ligeira mão de formosa donzela, doem-se de ouvir o toque inqualificável da viola desafinada da rude sabia.
Eu não o compreendo bem...
— Quem respirou o ar embalsamado dos jardins. o aroma das rosas, os eflúvios da angélica, incomoda-se, exaspera-se ao respirar logo depois a atmosfera grave e carregada de miasmas de um hospital.
— Ainda o não entendi.
— Pois juro, minha senhora, que desta vez me há de compreender perfeitamente. Digo que, vendo eu hoje dois olhos que por sua cor se assemelham a dois belos astros de luz, cintilando em céus do mais puro azul; que, escutando uma voz tão doce como serão as melodias dos anjos; que enfim, respirando junto de alguém, cujo bafo é um perfume de delícias, depois de amanhã preferirei não ver, não ouvir e não cheirar coisa alguma, a ver os olhos pardos e encovados ali do meu amigo Leopoldo, a ouvir a voz de taboca rachada do meu colega Filipe e a respirar a fumaça dos charutos de meu companheiro Fabrício.
—Ah!... exclamou outra vez inesperadamente d. Carolina, eu creio que d. Quinquina terá finalmente compreendido o que o sr. Augusto tanto se empenha em lhe explicar.
— Minha prima, atreveu-se a dizer a ingênua, modesta, medrosa e muito sonsa d. Quinquina; minha prima, você o teria compreendido no primeiro instante, não é assim?...
— Certamente, respondeu a mocinha, sem perturbar-se; o sr. Augusto, além de falar com habilidade e fogo, pôs em ação três sentidos; o que poderia também suceder, era que, como algumas costumam fazer, eu fingisse não compreendê-lo logo, para dar lugar a mais vivas finezas, até que ele de fatigado dissesse tudo, sem figuras e flores de eloqüência... Ora, isso quase que aconteceu, porque os olhos, os ouvidos e o nariz do sr. Augusto hão de estar certamente cansados de tão excessivo trabalho!
— Minha senhora!
Por desdita dele não houve ocasião de pôr em campo um outro sentido; o gosto ficou em inação, bem contra a sua vontade, não é assim, sr. Augusto?...
— Minha prima, todos olham para nós...
— A respeito do tato, não direi palavra, continuou a terrível Moreninha; porque se as mãos do sr. Augusto conservaram-se em justa posição, quem sabe os transes por que passariam os pés de minha prima?... Os srs. estão tão juntinhos, que com facilidade e sem risco se podem tocar por baixo da mesa.
— Menina! exclamou a sra. d. Ana, com acento de repreensão.
— Minha senhora, consinta que ela continue a gracejar, disse Augusto, meio aturdido. Além de me dar a honra de tomar-me por objeto de seus gracejos, dá-me também o prazer de apreciar e admirar seu espírito e agudeza.
— Agradecida! Muito agradecida! tornou o diabinho da menina, rindo-se com a melhor vontade. Eu cá não custo a compreendê-lo como minha prima; já sei o que querem de mim os seus elogios... Estou comprada, não falo mais.
Uma risada geral aplaudiu as últimas palavras de d. Carolina; não há nada mais natural; ela era a neta da dona da casa, além de ser moça e rica.
Começava então a servir-se a sobremesa.
E eu, apesar de amigo e colega de Augusto, disse por fim Fabrício, endireitando-se, não posso deixar de lastimar a sra. d. Joaquina, pela triste conquista que acaba de fazer.
Augusto conheceu que lhe era dado o sinal de combate. Fabrício queria tomar vingança de sua nenhuma condescendência, e pois, preparou-se para sustentar a luta com todo o esforço. Vendo que todos tinham os olhos fitos nele, como que esperando unia resposta, não hesitou.
— Obrigado, disse; nem eu mesmo posso de mim formar outro conceito. Devo, todavia, declarar que, se me fosse dado conhecer a ditosa mortal que conseguiu ganhar os pensamentos e o coração do meu colega, certo que eu lhe daria meus parabéns em prosa e verso, porque Fabrício é, sem contradição, a mais alegre e apreciável conquista!
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. A Moreninha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16667 . Acesso em: 1 jan. 2026.