Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
Oh! um amor tão profundo, uma dedicação tão generosa era bela, nobre e santa como a beneficência, que de improviso se apresenta para o bem, e de improviso se esconde, fugindo dos agradecimentos.
E Honorina, ruminando seus dias passados, largando todos os panos à sua imaginação fértil e brilhante, viu de novo o seu querido moço loiro escoando-se pela sombra, ou adorando-a de joelhos ao clarão de cheio luar; ouviu-a ainda sua voz sonora; e, enfim, repetindo a si mesma os melancólicos pensamentos de seu livro de amor, e recordando-se a todo o instante do último serviço que acabava de prestar-lhe, e também generosamente a seu rival, revoltava-se contra esse pensamento frio e desabrido, contra esse esqueleto horrível, que como uma barreira a queria separar de seu romanesco amante... revoltava-se contra a idéia da miséria do pobre.
Desde o grito de surpresa que soltara, ouvindo Félix pronunciar o nome de moço loiro, Honorina se arrancara do estado de inércia em que se achava; e seu rosto, até então comprimido pela mais acerba tristeza, dilatou-se com não sei quê magnética e entusiástica alegria; brilhavamlhe os olhos cheios de ardor e fogo; branda nuvem cor-de-rosa lhe assomava as faces; feiticeiro sorrir de confiada esperança brincava-lhe descuidadoso nos lábios; seu semblante exprimia valor e decisão; batia-lhe o coração rápido e forte; e seu pulso agitado e irregular faria crer que ela estava em uma hora de febre.
Apesar de sua avó, talvez mesmo que apesar de seu pai, a filha de Hugo de Mendonça dará a sentença a favor do moço loiro.
Honorina vai deixar falar seu coração; há nela todo esse encanto inexplicável, toda essa bravura feminil, que se adora em algumas nobres senhoras, que tem a alma ao pé dos lábios; em quem a sinceridade e a franqueza são sempre viçosas flores; senhoras verdadeiramente belas, que com seu caráter firme, independente e angélico, quando amam dizem sem temer — eu amo! Hugo acabava de lembrar a questão que havia sido interrompida pela chegada de Félix; Honorina ergueu orgulhosa a cabeça... ia falar... mas nesse momento Jorge e Raquel apareciam na porta da sala.
As duas amigas correram a encontrar-se, e prenderam-se nos braços uma da outra.
— Minha boa Honorina! disse Raquel.
— Raquel!... Raquel!... eu precisava ver-te para te dizer que sou muito feliz!... respondeu em voz baixa Honorina.
Raquel recuou dois passos, e sentindo na sua mão a mão ardente da moça, e vendo no seu rosto o rubor e alegria anormal que o enfeitavam, tremeu, pensando que a sua amiga delirava.
— Tu feliz?!...
— Mais baixo: isto é só para nós duas.
— Porém, tu dizes que és feliz?...
— Oh!... muito, Raquel! vem, eu te vou dizer.
Honorina levou Raquel pela mão até uma janela, que abriu, e, recostando-se com a sua amiga sobre a grade, começou a referir-lhe em voz baixa quanto devia ao moço loiro; se Honorina não estivesse fora de seu natural estado, se sua mão não ardesse, teria certamente compreendido que sua relação fazia mal a Raquel, e que a mão desta se tornava fria como o gelo. Havia um não sei quê de grande e solene no que se estava passando então na casa de Hugo de Mendonça.
Jorge, cedendo, sem dúvida, aos conselhos da amizade e às generosas inspirações de sua filha, vinha sondar o infortúnio de seu amigo, e oferecer-lhe a mão para arrancá-lo do abismo; por isso, tendo pedido a Hugo que lhe confiasse o estado de seus negócios, se retirou com ele para o gabinete, e aí examinavam ambos os papéis e livros pertencentes a casa.
Ema, sentada no canapé, conversava animada com Lúcia, que a ouvia de um lado, em pé, mostrando-se talvez alegre.
Honorina e Raquel estavam, como deixamos dito, praticando em voz baixa, recostadas à grade de uma janela.
A sala, apesar de longa e espaçosa, achava-se suficientemente iluminada; viam-se nas paredes, e ocupando cada um o seu lado da sala, quatro grandes retratos, o de Raul de Mendonça — avô — o de Raul de Mendonça e o de Clemência de Mendonça — pai e mãe de Lauro; e, finalmente, o de Clara de Mendonça — mãe de Honorina.
Aqueles retratos, nos quais refletiam os raios das luzes, pareciam animar-se, encher-se de vida, observando a maneira por que era tratada uma questão de vida ou de morte de sua antiga casa.
Pouco antes das onze horas, Lúcia dirigiu-se para a janela, onde conversavam Honorina e Raquel; as moças calaram-se imediatamente.
— As senhoras acabam de calar-se, vendo-me chegar, de modo que eu devo pensar que as importuno...
— Não, mãe Lúcia, não...
— Sim; e calaram-se porque pensam que conversavam em objeto que é, e deve continuar a ser um segredo para mim...
— Ora, mãe Lúcia...
— E, todavia, eu sei perfeitamente a respeito de que as senhoras estavam conversando...
— Sim... como era sobre coisas muito naturais...
— Por exemplo, sobre...
Lúcia abaixou a voz.
— Sobre o quê, mãe Lúcia?...
— Sobre o moço loiro.
— Ah!...
— Não grite assim, menina; do contrário não lhe contarei muitas coisas que estimará ouvir.
— E, então, o que é?...
— A história do moço loiro.
— Tu vês, Raquel, como ela está zombando de nós ambas?
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.