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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

Esse homem vinha, como dissera o escravo de Otávio, embuçado em uma longa capa preta, cuja gola estava tão levantada que lhe escondia quase todo o rosto, e até os cabelos, de modo que apenas se lhe descobria parte média da testa e olhos, o nariz e o alto da cabeça: — era ele.

— Perdão, se me apresento assim, disse, tendo os olhos fitos na porta da alcova, como se examinasse alguma coisa; perdão, mas estou doente... constipado...

Otávio, sem dizer palavra, arrastou-lhe uma cadeira; a voz desse homem tinha produzido cruel abalo em Félix, que acabava de reconhecer nele o seu desconhecido.

— Não me sentarei, disse este; o negócio de que venho tratar conclui-se em poucas palavras.

— Estou às suas ordens, respondeu Otávio.

— Senhor, acho-me encarregado da administração da casa do Sr. Hugo de Mendonça, e como tal venho receber três letras na importância de quarenta e seis contos de réis, as quais existem na sua mão, e que, segundo creio, deverão já estar sobejamente pagas pelo Sr. Félix, guarda-livros da nossa casa.

Essas palavras foram pronunciadas com tal acento de ironia, e acompanhadas por um sorriso tão cheio de cruel zombaria, que pareciam estar dizendo — sabe-se de tudo.

Otávio empalideceu de maneira a causar piedade; como querendo achar uma resposta, e força para poder dá-la, guardou silêncio por alguns instantes; mas o olhar terrível e penetrante desse homem estava fito nele, como um dardo que se lhe ia enterrando até o coração; para escapar à sua influência, Otávio voltara os olhos, porém o sorriso do desconhecido se foi tornando em uma verdadeira risada insolente... sarcástica... ameaçadora...

Houve um momento de cruel angústia para Otávio, em que ele pensou, tremendo no desconhecido de Félix, e em que esse homem que aí estava em pé, defronte dele, continuou a rirse, a rir-se sempre, e alto, insultuosa e desafiadoramente...

Enfim, Otávio pareceu haver tomado uma resolução: foi à porta da alcova, abriu-a e fez sair Félix.

— Sr. Félix, disse ele, este senhor está atualmente encarregado da administração da casa do Sr. Hugo de Mendonça?...

— Responda, Sr. Félix! disse com sua voz áspera o desconhecido.

Félix levantou os olhos, e viu embebidos em seu rosto os desse homem cheios de fogo e de audácia.

— Sim... balbuciou o guarda-livros.

— Segue-se, portanto, continuou Otávio, que devo-lhe entregar as letras que o senhor acaba de pagar-me?...

— Não, disse Félix; é a mim, que as vim pagar, que o Sr. Otávio deve fazer entrega delas. — Contanto que as entregue, interrompeu o desconhecido, é-me indiferente que seja a mim ou ao Sr. Félix.

Otávio no mais alto grau de perturbação e terror abriu uma gaveta, donde tirou as letras, que entregou a Félix; depois, voltando-se para o desconhecido, abaixou os olhos, e, com voz submissa e implorante, disse:

— Seria possível esperar que isto acabasse de uma maneira decorosa para todos?... — Seja, respondeu o desconhecido; eu me quero julgar satisfeito; porque ambos vós tereis de corar sempre diante de mim.

E, travando do braço de Félix, obrigou-o a acompanhá-lo e saiu, sem ao menos cortejar a Otávio.

XL

O moço loiro

Triunfante em toda a parte, contando cada hora por uma nova vitória, a causa do moço loiro perigava, todavia, corria sérios riscos de completamente perder-se no grande campo de guerra, onde cumpria vencer a batalha decisiva.

O aparecimento inesperado da cruz da família tinha mudado a face das discussões travadas na casa de Hugo de Mendonça; semelhante fato, que era ainda mais uma prova do amor e dedicação do moço loiro por Honorina, havia somente servido de forte argumento a favor de seu temível rival, do primo Lauro. Também aquele não devia ignorar que estava servindo de instrumento para a fortuna desse, por quem parece que fora enviado para demonstrar a sua inocência.

Com efeito, a família inteira de Hugo se empenhava agora com indizível força para obter o sim de Honorina a favor de seu primo. Ema, como querendo compensar seu neto das injustiças que lhe havia feito, era quem mais se extremava em oferecê-lo à bela neta, como o modelo dos noivos. A mãe Lúcia trabalhava no mesmo sentido, quanto podia: o único que se conservava no mesmo posto que dantes era Hugo, a quem apenas se ouvia dizer:

— Minha filha, consulta primeiro o teu coração; mas não te sacrifiques.

A crise terrível e assustadora que ameaçava Hugo, já também não espantava a velha Ema; feliz com sua fé, feliz com sua religiosa esperança, ela exclamava a miúdo:

— Não há mais desgraça possível para nós: a cruz da família apareceu; o nosso talismã vai salvar-nos.

Mas, entretanto, o moço loiro estava mais que nunca presente ao coração de Honorina: cada palavra, cada idéia, cada lembrança que ouvia lhe faziam recordar a imagem daquele que, oculto sempre a todos os olhos, desaparecendo, a despeito das suas indagações, aparecia, contudo, quando era preciso demonstrar o amor que tinha por ela; quando se fazia necessário prestar-lhe um pequeno ou grande serviço; quando, enfim, ela pedia ao céu um anjo que a salvasse de algum perigo.

(continua...)

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