Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Vai pedi-la à filha do Sr. Hugo de Mendonça.
— Quê!... exclamou Otávio admirado.
— Sim! a minha vergonha está passada: tu me traíste... a morfética revelou por sua vez o que lhe confiaste, e esse homem, que me veio dizer: — roubaste uma cruz de brilhantes! — esse homem arrastou-me pelas ruas, varreu com meu rosto as escadas da casa do Sr. Hugo de Mendonça e me obrigou a ir lá com o meu crime nas mãos, com as lágrimas nos olhos, e com o grito de misericórdia na boca!
— E esse homem?...
— Esse homem é um demônio que nada ignora do que lhe convém saber; esse homem sabe do nosso contrato... não ignora que tu tens as letras falsas... sabe tudo!
— Mentira!...
— Oh!... não! desgraçada ou felizmente verdade!...
— Nós estávamos sós, e fechados no teu quarto...
— E por cima das nossas cabeças, a Providência, que não dorme, nos observava pelos olhos de um menino.
— E então...
— Um dos caixeiros da casa do Sr. Hugo me espreitava... e testemunhou o crime de nós ambos!
— Oh!... gritou Otávio deixando-se cair na cadeira.
Passaram-se alguns momentos em silêncio, durante os quais a cabeça de Otávio se não ergueu dentre as mãos, onde tinha tombado.
Terrível anúncio era esse que ele acabava de ouvir, e seu espírito lutava com a verdade para achar um meio de dizer — é mentira; trabalhava, perdido nesse pélago de vergonha, para deparar com uma tábua de socorro, em que se agarrando dissesse — ainda me não perdi! Enfim, Otávio viu brilhar uma tênue e leve nuvenzinha de esperança. Era o que por então bastava; atirou-se para ela dizendo:
— É falso! é falso!... eu te compreendo! queres arrancar-me as letras, mercê dessa miserável astúcia!... não, não as terás...
— Tu me hás de entregar, Otávio!
— É impossível... é tarde, muito tarde! pensa que eu já as apresentei a Hugo de Mendonça, que já lhe disse — o senhor tem de pagar-me esta quantia! — e agora, Félix, agora... — Otávio, para tudo se acha um remédio; lembra-te que me dizias: — o contrabando em que se achava empenhada a casa de Hugo enriquece e empobrece com a rapidez do raio.
— É uma desculpa miserável...
— Sim; mas uma desculpa que me ensinaste.
— Porque, quando se perdem embarcações... não há contrabando que receber, nem vender, não há contas que dar: diz-se — perdeu-se — e tudo está dito.
— Pois, então, Otávio, inventa uma desculpa; já que de qualquer modo que seja, as letras deverão sair daqui comigo.
— Félix!...
— Otávio!...
— Eu já disse que não acredito no que inventaste para assustar-me; tenho um fiador na cruz de brilhantes.
— A cruz de brilhantes aparecerá nas mãos da filha de Hugo de Mendonça...
— É falso!...
— Otávio... as letras!
— Não!
— Oh!... mas tu me estás desafiando!
— Sim!...
— E quando eu amanhã estiver gritando diante de todos, no meio de uma rua, ou na praça do comércio — o Sr. Otávio é um falsário!...
— Eu responderei que mentes!
Félix, com um terrível e vingativo sorriso estremecendo-lhe nos lábios, arrancou um papel do bolso:
— E esta carta?... exclamou ele, e esta carta?...
— Esta carta?...
— Sim! a carta que me lançaste por baixo da porta, a carta em que me convidas para perpetrar o crime! — Oh!...
— Como é que tu hás de responder — ele mente! —, sabendo que para logo eu mostraria a todos a tua assinatura, o corpo de delito de nosso mútuo crime?...
— Miserável!...
— As letras! as letras, Otávio!...
— Miserável! disse outra vez Otávio, fazendo um movimento para erguer-se.
— Otávio, nem um só passo para mim que não seja para entregar-me as letras falsas; eu aprendi com o homem que me fez ir de joelhos entregar a cruz de brilhantes àquela a quem pertencia, a prevenir-me contra tudo; então, eu avancei para ele, como tu queres avançar para mim, e vi brilhar na sua mão uma arma mortífera, como tu verás brilhar na minha instrumento semelhante, se tanto for necessário.
Otávio, pálido de cólera, olhou de um modo terrível para Félix, em cujo peito viu luzir o cabo de um punhal.
— Porque, enfim, Otávio, as circunstâncias nos têm levado a extremos tais.
— Mas isto é uma infâmia!... disse com voz abafada Otávio, voltando a cabeça para o lado da porta, como quem ia chamar alguém.
— A primeira pessoa que aqui entrar, disse Félix, ficará para logo sabendo que tu exiges de Hugo de Mendonça o pagamento de três letras falsas. Chama agora os teus caixeiros, chama os teus escravos, Otávio.
— Maldito!... maldito!...
Nesse instante o relógio fez ouvir o sinal de meia hora depois das dez.
— Dez horas e meia!... exclamou Otávio; é a hora marcada pelo bilhete!...
Um escravo anunciou que ia entrar um homem embuçado em longa capa preta.
— As letras?!... disse Félix.
— Félix!... Félix!...
— As letras!...
Ouviam-se já muito próximas as pisadas da pessoa anunciada.
— As letras!... repetiu Félix com tom decidido e firme.
— Félix, disse Otávio com voz trêmula e fraca, peço-te meia hora para determinar-me; entra nesta alcova, enquanto falo ao homem que vai entrar.
— Seja, respondeu Félix entrando; mas só meia hora.
Quando a porta da alcova acabava de cerrar-se, o homem entrou no gabinete.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.