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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

Tão vingativa era essa consciência que falava, que tinha apagado a derradeira luz de esperança que Otávio poderia descobrir no correr do dia do vencimento das letras; indigno de felicidade a seus próprios olhos, Otávio gemia, adivinhando que a posse de Honorina era para ele um impossível.

Tão formidável, enfim, era essa voz, que aquele que de contínuo a estava ouvindo, temia que ao passar pelas ruas uma boca lhe gritasse — falsário!... oh! ele tinha medo de Félix, tinha medo do mundo, e corava diante do seu espelho! Finalmente, ouvindo dar dez horas, disse:

No correr da mesma noite em que se passaram com Félix, Manduca e o desconhecido as cenas de que demos conta, estava, pois, Otávio, triste e pensativo, sentado no seu gabinete de trabalho, e olhando de momento a momento para o relógio.

Finalmente, ouvindo dar dez horas, disse:

— Ainda me falta meia hora!

Depois tirou de seu bolso um pequeno bilhete, que leu ainda uma vez; pois que já o tinha feito por muitas vezes. O bilhete dizia assim:

“Negócio importante que cumpre ser decidido hoje mesmo com o Sr. Otávio me obriga a pedir-lhe licença para procurá-lo às dez horas e meia da noite em ponto.” Ou por descuido, ou de propósito, o bilhete carecia de assinatura.

Bilhete tão estranhamente concebido, hora de encontro tão mal escolhida, a ignorância em que se achava Otávio a respeito do negócio, que tão urgente se dizia, e, enfim, o receio que ele começava a ter de tudo quanto lhe parecia pouco comum, faziam com que Otávio esperasse ansioso pela hora determinada.

Recolhendo-se a seu gabinete, ordenara a um de seus escravos que ali fosse conduzida uma pessoa, que se apresentaria pouco depois das dez horas da noite.

Faltavam ainda vinte minutos para essa hora, quando o escravo anunciou e fez entrar o Sr. Félix.

Ao ver aquele que conhecia a mancha que nodoava sua reputação, Otávio corou, involuntariamente, e, apontando para uma cadeira, disse:

— Senta-te.

— Não, Otávio, eu não me sentarei.

— Pois conversaremos de pé; mas nunca me passou pela cabeça que fosses tu quem me escreveu aquele bilhete singular.

— Eu não te escrevi bilhete algum.

— É que a tua visita a estas horas...

— A minha visita a estas horas, Otávio, quer dizer que entre nós tem de decidir-se uma questão bem grave.

— E então...

— Eu venho dizer-te que tive uma hora de loucura, da qual me acho felizmente curado, e que por conseqüência posso desfazer tudo quanto havia feito desarrazoadamente.

— Peço que te expliques... e depressa: vês que eu espero alguém.

— Pensei que me tinhas compreendido, Otávio; porque a minha hora de loucura se passou entre nós dois.

— E portanto...

— E, portanto, eu te declaro que já não me acho disposto a consentir que seja reduzida à miséria uma família inteira, para obrigá-la a sacrificar-te uma bela moça.

— Félix!...

— Passou o tempo, Otávio, em que tua voz me fazia calar, e os teus olhos me obrigavam a abaixar a cabeça; duas paixões nos atiraram para um abismo... estamos hoje na mesma linha. Otávio, vermelho de vergonha e de despeito, olhou para Félix como se não acreditasse que era aquele mesmo homem que lhe estava falando; porém, o guarda-livros, forte e decidido, por sua vez, prosseguiu:

— Eu venho, Otávio, receber as letras falsas que tive a fraqueza de te passar; venho declarar-te que o contrato da infâmia está roto.

— Oh!... isto é admirável!... exclamou Otávio; é admirável, que tu, Félix, levantes a cabeça diante de mim!...

— Sim, eu a abaixei diante de outros, e era preciso que a levantasse diante de alguém; Otávio, eu te estou devendo horas inteiras de vergonha, de miserável submissão, horas de torturas que te venho pagar agora.

— Insensato!...

— Oh!... pois bem. Compreende que diante de mim se apresentou um homem que me disse: miserável! tu roubaste uma cruz de brilhantes... quem te denunciou foi aquele mesmo a quem a confiaste!...

— É falso!...

— Foi Otávio... há alguns meses passados, em momentos de horrível padecer, foi ele quem te denunciou a uma mulher morfética!...

Otávio não teve uma palavra para dizer. Félix prosseguiu:

— Portanto, vês bem, Otávio, que tu faltaste à principal condição de nosso contrato de infâmia; e, neste caso, está nulo: eu quero, pois, as letras que me arrancaste.

— É tarde, Félix.

— Tarde?... tu não podes dizer-me que é tarde. Agora, Otávio, é tempo oportuno sempre para mim; sofri quanto sofrer podia; esgotou-se-me a paciência. Vamos!

— Félix!...

— Otávio, as letras falsas!...

— Miserável!...

É um nome que nos cabe a ambos; enfim, as letras!...

— Oh!... e não te lembras que eu tenho a vingança nas minhas mãos?... que nossas infâmias estão casadas?... que somos solidários na vergonha?...

— Sim; e porque eu já esgotei o meu cálice até às fezes, justo é que esgotes também o teu: as letras!...

— Pois bem: a cruz de brilhantes!...

— Era o teu escudo, não é assim, Otávio?... tu tinhas feito do teu amigo a miserável carta com que jogavas; que importava pouco que fosse perdida ou não, contanto que em resultado a partida do teu jogo de infâmia fosse por ti ganha: não é isto assim?... não é verdade o que eu estou dizendo?... oh! Otávio!... Otávio!... o teu escudo está quebrado!...

Otávio encarava Félix sem compreendê-lo.

— As letras!... as letras!... disse este levantando a voz.

— A cruz de brilhantes!...

(continua...)

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