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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

Estavam, pois, os três pensando se a noiva seria bonita ou feia; quando ouviram o rodar de uma sege, que parava à porta: era a noiva!...

Lembrando-se da palavra surpresa escrita no bilhete da viúva, Tomásia fez entrar seu marido e sua filha, e entrou ela também para a alcova, fechando de novo a porta, porque já ouviam os passos de duas pessoas, que subiam a escada.

Manduca, a princípio espantado, viu que sua companheira abria sem-cerimônia a sege, tomava-lhe a mão, e o fazia apear-se em uma rua muito diferente daquela em que existe o convento da Ajuda; semelhante passo, uma tal ação praticada por Honorina, a fazia perder muito no seu conceito; mas tarde para recuar, e, enfim, forte e valente como era o moço, não temeu nada e foi-se deixando levar.

A moça deu o braço a Manduca, e entrou em um corredor... subiram sem bater palmas... e, enfim, chegaram à sala.

Houve um momento de hesitação em que Manduca e sua companheira ficaram olhando um para o outro... depois, e a um só tempo, arrancaram suas máscaras...

Duas exclamações de espanto se deixaram ouvir então... e ambos aqueles vultos de mulher recuaram espantados...

A companheira de Manduca era nada menos que Brás-mimoso vestido também de mulher!

Para perder Honorina, Lucrécia tinha tido pouco mais ou menos o mesmo pensamento que tivera o moço loiro para salvá-la e vingá-la.

Brás-mimoso soltou de novo um grito de espanto e de medo.

— Que traição! exclamou ele.

Manduca ficou um momento embasbacado; logo depois bradou:

— É agora, jagodes de uma figa!

E atirou-se sobre o seu rival, dando-lhe socos, como o churinado depois da lição de seu mestre.

Venâncio, Tomásia e Rosa acudiram aos gritos que soltava o velho gamenho.

Foi um triunfo importante arrancar Manduca de cima de Brás-mimoso, sobre quem estava agarrado como uma sanguessuga.

O resto da cena tornou-se completamente ridícula.

Manduca tinha a sua touca enfiada no pescoço; só lhe restava um dos cachos; o vestido estava roto de cima a baixo; e já havia neste uma manga de menos; espumando de raiva, dizia:

— Eu!... eu beijar a mão deste tratante!...

Brás-mimoso estava sem touca e sem cabeleira... tinha os beiços rebentados pelos socos que apanhara, e sua figura se tornava absolutamente risível, quando se olhava para seus vestidos de mulher, e depois para sua cabeça absolutamente calva.

— Nesta, dizia ele, só me podia meter a Sr.ª D. Lucrécia!

Uma gargalhada de Rosa rematou a cena.

XXXIX

O novo administrador

Sentado numa bela cadeira de braços, em seu gabinete de trabalho, estava Otávio entregue a mil diversas reflexões, das quais apenas por instantes se arrancava para examinar o ponteiro do relógio de parede, que em frente dele se via pendurado.

A cabeça desse mancebo ardia como seu próprio coração. Honrado e nobre, Otávio tinha encontrado no caminho de sua vida uma mulher por extremo formosa para enfeitiçá-lo; amou-a com todo o amor de sua alma; mas, quando foi pedir-lhe a paga de sua ternura, escutou em resposta um não; e esse não teve o poder de desatiná-lo a tal ponto, que se perdeu da bela estrada que seguia, emaranhando-se nos desvios do vício.

Otávio amava Honorina com uma dessas paixões veementes, que cegam o homem, e o podem precipitar; possuir o objeto de seus anelos era pois para ele, no raciocinar de seus transportes, um fim, onde importava chegar por quaisquer meios que fossem; pareceu-lhe que lavar uma mancha não era um impossível neste mundo severo, em que quase é regra não se dar regeneração moral possível.

Levado do ímpeto de sua paixão, ele não hesitou em ir propor a Félix uma transação infame, não trepidou diante de Hugo de Mendonça, quando estava representando em sua consciência o mais miserável dos papéis; porque, enfim, esse era o seu sonho, o sonho lisonjeiro que lhe prometia a posse de Honorina; mas quando sentiu que o pai da bela requestada se erguia orgulhoso sobre sua própria miséria, quando viu que seu derradeiro esforço ia ser baldado, o sonho começou a esvaecer-se, e ele, despertando, achou-se só, isolado, longe de Honorina, e identificado com a infâmia. Otávio caiu, então, debaixo do peso de suas reflexões. Era o período da febre que tinha passado, e cedido seu lugar à prostração.

Com efeito, livre por um instante do alarido das paixões, a alma de Otávio começou para logo a ouvir a voz pausada, grave e monótona da consciência, voz que é sempre a mesma, com o mesmo timbre, e que jamais se cala, incessante e monótona, como as vagas do mar, ou como o tique-taque da pêndula do relógio, que defronte estava.

Tão poderosa era essa voz, que já por dez vezes tinha podido volver à força os olhos de Otávio para a gaveta, onde se achavam guardadas as três letras falsas, que eram as provas palpitantes de seu crime; apesar do quanto sofria com tal recordação, a despeito do firme propósito que fizera de esquecer-se disso... Otávio olhava sempre.

(continua...)

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