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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

O moço loiro intercepta essa carta, também ignoramos por que meio, e, senhor do plano de Lucrécia, forja então o seu. Tão bom como travesso, tão nobre como extravagante, o projeto que concebe é uma extravagância, e sua execução deverá ser uma travessura. Ele dispõe-se a tornar vestido de mulher e ir dar, embora mascarado, um passeio noturno com Lucrécia; mas, escondido dentro do guarda-roupa de Félix, ouve o que diz Manduca, sabe que é também seu rival, abre um pouco a porta do guarda-roupa para ver a cara do homem que ama Honorina; vê-se a ponto de soltar uma risada... contém-se... pensa, e modifica seu projeto de vingança contra Lucrécia... fá-lo uma travessura completa; e, enfim, nós o sabemos, vê seu plano coroado pelos mais felizes resultados.

Provavelmente importantes negócios o obrigam a não seguir por muito tempo a sege em que vão os dois vultos de mulher; pois que ele volta a seu sótão, despe os falsos vestidos, arranca a mentirosa cabeleira, começa a vestir-se com todo o zelo e afã de um namorado, e defronte de seu toucador fala consigo mesmo, sorrindo-se:

— Estou fatigado; mas pouco falta... muito bem! muito bem! fingi-me pobre e desgraçado... abatido e melancólico... escrevi um livro de amor, todo molhado de lágrimas, sondei o coração de Honorina, e conheço que, pobre ou não, feliz ou desditoso, sou por ela amado... agora sim... posso e quero consagrar-lhe a minha vida...

O tal Sr. Lauro de Mendonça não deve também desejar mais nada... continuou sorrindo-se com malícia; está tudo feito: a vaidosinha D. Lucrécia lá se vai com Manduca, passeando pelas ruas da nossa boa cidade... ora pois: acabemos com isto... vamos depressa fazer as últimas visitas.

E, como já se achasse vestido com toda, elegância, e com seus longos e crespos cabelos loiros cuidadosamente penteados, embuçou-se com uma longa capa negra, cuja gola lhe escondia quase todo o rosto, desceu, embarcou de novo na sege e partiu.

Pouco faltava para dez horas e meia da noite.

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E agora voltemos a acompanhar com o leitor a outra sege, onde iam os dois vultos de mulher.

Rodava ela, e nenhuma das duas senhoras dizia palavra; Manduca guardava silêncio, porque assim seguia os conselhos de seu mentor, e também com medo de ser antes do tempo reconhecido pela sua voz; e aquela que ele supunha ser Honorina, e que era, sem dúvida, Lucrécia, porque de plano ou por pejo não se queria deixar ouvir.

Mais uma vez os pés das moças se tocaram; a companheira de Manduca estremeceu toda. Que bom sinal!... que delicioso estremecer!... era, sem dúvida, o efeito do pejo; e daí a pouco, oh, glória!... Manduca recebe um beliscão na perna... não houve dúvida, pagou-lhe com outro; vem um segundo mais forte, Manduca não hesita, não quer ficar devendo nada, e desta vez o aplica um pouco menos brando; recebe um terceiro tão terrível, que quase o obriga a gritar; Manduca paga-o imediatamente com uma unhada de mestre; ouve um surdo gemido, e temendo ter ofendido a bela companheira, toma-lhe a mão, e beija... oh!... como achou tão macia aquela mãozinha de querubim!...

Já estavam as duas a beijar mutuamente as mãos... já uma vez por outra tinha havido seu abraço respeitoso, quando a sege parou; era o momento decisivo: ambas as viajadoras estremeceram.

Ora, a viúva tinha tomado bem suas disposições para que a vergonha fosse completa: Honorina não devia lavar-se mais nunca daquela nódoa, aliás todo o seu trabalho estava perdido. Lucrécia entendeu que havia necessidade de testemunhas, e se propôs a tê-las; para isso um escravo seu foi à casa de Venâncio e entregou a Tomásia um bilhete dela, que dizia assim:

“Minha comadre. A amizade que lhe tenho não me deixa gozar com satisfação um prazer em que Vossa Mercê não tome também parte. Quero que venha apreciar comigo uma bela cena: o nosso amigo Brás-mimoso trata de casar-se, e pelo sim pelo não a noiva chega-lhe hoje às dez horas da noite; vamos causar-lhe uma surpresa, e recebê-la; havemos de rir-se muitíssimo; às dez horas, pois, esteja com seu marido, sua filha e seu filho em casa de Brás-mimoso, e, se eu me demorar, esperem-me, que não tardarei.”

Sua comadre do coração — Lucrécia.

Esse bilhete foi recebido às nove horas da noite, e deu vivíssimas contestações; porque Venâncio sustentava que não devia levar sua família à casa de um homem solteiro; mas, como sempre, a vontade de ferro de Tomásia triunfou dos pudicos receios de seu marido.

Conseqüentemente, às dez horas da noite Venâncio, Tomásia e Rosa achavam-se em casa de Brás-mimoso, que parecia ornada com estudo, e muito de fresco.

Manduca não acompanhou sua família, porque desde as oito horas da noite se achava fora de casa: melhor do que os próprios pais, sabem os nossos leitores o que era feito dele.

Lucrécia não havia ainda chegado; isso, porém, não admirava a comadre, pois pelo bilhete da viúva conhecia-se que ela contava demorar-se. Brás-mimoso era esperado a todos os instantes.

(continua...)

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