Por José de Alencar (1857)
Peri olhou o céu como para fazê-lo confidente de sua felicidade.
A claridade da alvorada estendia-se sobre a floresta e os campos como um véu finíssimo; a estrela da manhã cintilava em todo o seu fulgor.
Cecília ajoelhou-se.
— Salve, rainha!...
O índio contemplava-a com uma expressão de ventura inefável.
— Tu és cristão, Peri! disse ela lançando-lhe um olhar suplicante.
Seu amigo compreendeu-a, e ajoelhando, juntou as mãos como ela.
— Tu repetirás todas as minhas palavras; e faze por não esquecê-las. Sim?
— Elas vêm de teus lábios, senhora.
— Senhora, não! irmã!
Daí a pouco os murmúrios das águas confundiam-se com os acenos maviosos da voz de Cecília que recitava o hino cristão repassado de tanta unção e poesia.
A palavra de Peri repetia como um eco a frase sagrada.
Terminada a prece cristã, talvez a primeira que tinha ouvido aquelas árvores seculares, a viagem continuou.
Logo que o sol chegou ao zênite, Peri procurou como na véspera um abrigo para passar as horas de calma.
A canoa pojou num pequeno seio do rio; Cecília saltou em terra; e seu companheiro escolheu uma sombra onde ela repousasse.
— Espere aqui; Peri já volta.
— Onde vais? perguntou a menina inquieta.
— Ver frutos para ti.
— Não tenho fome.
— Tu os guardarás.
— Pois bem; eu te acompanho.
— Não; Peri não consente.
— E por quê? Não me queres junto de ti?
— Olha tuas roupas; olha teu pé, senhora; os espinhos do cardo te ofenderiam.
Com efeito Cecília estava vestida com um ligeiro roupão de cambraia; e seu pezinho que descansava sobre a relva, calçava um borzeguim de seda.
— Então me deixas só? disse a menina entristecendo.
O índio ficou um momento indeciso; mas de repente sua fisionomia expandiu-se.
Cortou a haste de um íris que se balançava ao sopro da aragem, e apresentou a flor à menina.
— Escuta, disse ele. Os velhos da tribo ouviram de seus pais, que a alma do homem quando sai do corpo, se esconde numa flor, e fica ali até que a are do céu vem buscá-la e a leva li, bem longe. É por isso que tu vês o guanumbi, saltando de flor em flor, beijando uma, beijando outra, e depois batendo as asas e fugindo.
Cecília, habituada à linguagem poética do selvagem, esperava a última palavra que devia fazê-la compreender o seu pensamento.
O índio continuou:
— Peri não leva a sua alma no corpo, deixa-a nesta flor. Tu não ficas só.
A menina sorriu, e tomando a flor escondeu-a no seio.
— Ela me acompanhará. Vai, meu irmão, e volta logo.
— Peri não se afastará; se tu o chamares, ele ouvirá.
— E me responderás, sim?... para que eu te sinta perto de mim...
O índio, antes de partir, circulou a alguma distancia o lugar onde se achava Cecília, de uma corda de pequenas fogueiras feitas de louro, de canela, urataí e outras árvores aromáticas.
Desta maneira tornava aquele retiro impenetrável; o rio de um lado, e do outro as chamas que afugentariam os animais daninhos, e sobretudo os répteis; o fumo odorífero que se escapava das fogueiras afastaria até mesmo os insetos. Peri não sofreria que uma vespa e uma mosca sequer ofendesse a cútis de sua senhora, e sugasse uma gota desse sangue precioso; por isso tomara todas essas precauções.
Cecília devia pois ficar tranqüila como se estivesse em um palácio; e de fato era um palácio de rainha do deserto esse sombrio cheio de frescura a que a relva servia de alcatifa, as folhas de dossel, as grinaldas em flores de cortinas, os sabiás de orquestra, as águas de espelho, e os raios do sol de arabescos dourados.
A menina viu de longe o desvelo com que seu amigo tratava de sua segurança, e acompanhou-o com o olhar até o momento em que ele desapareceu no mais espesso da mata.
Foi então que ela sentiu a soledade estender-se em torno e envolvê-la; insensivelmente levou a mão ao seio e tirou a flor que Peri lhe tinha dado.
Apesar de sua fé cristã, não pôde vencer essa inocente superstição do coração: pareceu-lhe, olhando o íris, que já não estava só e que a alma de Peri a acompanhava.
Qual é o seio de dezesseis anos que não abriga uma dessas ilusões encantadoras, nascidas com o fogo dos primeiros raios do amor? Qual é a menina que não consulta o oráculo de um malmequer, e não vê numa borboleta negra a sibila fatídica que lhe anuncia a perda da mais bela esperança?
Como a humanidade na infância, o coração nos primeiros anos tem também a sua mitologia; mitologia mais graciosa e mais poética do que as criações da Grécia; o amor é o seu Olimpo povoado de deusas ou deuses de uma beleza celeste e imortal.
Cecília amava; a gentil e inocente menina procurava iludir-se a si mesma, atribuindo o sentimento que enchia sua alma a uma afeição fraternal, e ocultando, sob o doce nome de irmão, um outro mais doce que titilava nos seus lábios, mas que seus lábios não ousavam pronunciar.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Guarani. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.