Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Bravo! bravo!... tomara eu saber quantas semanas levarão a arranjar um plano tão intrincado!... essas moças são capazes de fazer uma revolução política no mundo!
— Mas em lugar de ir parar à porta e abrigar-se no seio de um convento, D. Honorina será por sua falsa amiga sacrificada a Brás-mimoso.
— Que mixórdia!... que mixórdia!...
— Ora, eu que amo ardentemente a D. Honorina, e que por ela velo sempre, pude penetrar esse pérfido segredo, e fiz também o meu plano; ainda não o conhecia, e, pois, não contava com o senhor. Comprei vestidos de mulher, e uma máscara para mim, disposto a ir às dez horas sentarme na sege ao lado de D. Honorina, antes que D. Lucrécia o fizesse.
— Essa é que é uma dos diabos!
— Encontrando-o, porém, ouvindo a confissão do seu amor, e simpatizando logo muito com a sua fisionomia nobre, distinta e luminosa... determinei propor-lhe fugir com D. Honorina, ir pô-la no convento... salvá-la de Brás-mimoso; porque, enfim, eu não sou egoísta; se se descobrir isso, o senhor pode casar-se com ela, e lavar-lhe a mancha, e eu não posso... sou casado.
— Homem, não é melhor irmos declarar tudo ao chefe da polícia?...
— Como? publicar a fraqueza de uma pobre moça?...
— Então, dirijamo-nos a seu pai...
— Para fazê-la vítima de seus justos furores?...
— Antecipemos, do que ocorre, à mesma D. Honorina.
— Ela se não recolherá ao convento, e casar-se-á com Otávio...
— Decerto... o caso é grave!... se me dessem ao menos três dias para meditar sobre a matéria...
— Chegamos... senhor; apeie-se... venha vestir-se...
— Homem, escute...
— Estou quase crendo que o senhor tem medo de encontrar-se amanhã com Brás-mimoso.
— Que é lá isso?... ora, eu lho mostro: entremos... e vista-me de mulher.
— Venha!... a sua missão é sagrada... o Sr. Manduca já tem ares de cavaleiro andante.
O desconhecido acabava de lembrar-se de D. Quixote.
Logo depois, Manduca estava em um pequeno sótão, onde achou tudo quanto era necessário para vestir-se de mulher.
Confundam-se todas as senhoras, pois lhe asseguramos que, em menos de um quarto de hora, o rapaz estava completamente vestido de mulher; era um gosto vê-lo! Um vestido de seda verde, que oito meses antes estivera muito na moda, por ser em demasia curto, lhe deixava à mostra um bom palmo de finíssimas pernas, e dois imensos pés terrivelmente apertados em sapatos de lã; o desconhecido pendurou-lhe, como melhor pôde, dois cachos postiços aos lados da fronte, e depois escondeu-lhe os cabelos com uma touca cheia de rendas brancas e encarnadas; mas com tanta inabilidade o fez, que a touca mostrou-se na posição inversa da que deveria ficar, isto é, a frente ficou para trás. Finalmente, um longo xale de seda já usado embrulhou desarranjadamente o corpo de Manduca.
— Bem... disse o desconhecido, está lindíssimo, está mais belo do que o amor, esbelto como uma palmeira... é uma virgem... uma vestal completa... vamos...
— Vamos! exclamou o pobre Manduca entusiasmado com o elogio pomposo que lhe fazia o desconhecido.
E desceu a escada, ele, jovem senhora improvisada, com esse andar asselvajado e rude, próprio das pessoas afeitas às botas.
Os dois tornaram a subir para a sege que partiu; poucos momentos antes das dez horas parou; o desconhecido e Manduca apearam-se.
Uma outra sege estava parada na esquina, que do lado da cidade mais próxima ficava da casa de Hugo; o desconhecido mostrava-a a Manduca, quando soaram as dez horas.
— Senhor, disse ele, apresentando uma máscara a Manduca, deixe agora arranjar-lhe a máscara no rosto, e parta; durante a viagem não diga palavra... olhe... lá sobe Honorina para a sege... ainda bem que o senhor está pronto... ande... corra... vá...
— Mas o boleeiro para onde nos levará?...
— Para o convento da Ajuda; o boleeiro está peitado por mim...
— Bom... adeus... vou salvar a beleza! disse Manduca partindo.
— Sim! vá imortalizar-se!... seja feliz!
Logo depois duas seges rodavam para a cidade: iam na primeira dois vultos de mulher; e mais atrás o desconhecido, na segunda, ria-se desabaladamente.
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Um gênio benfazejo velava, portanto, a favor de Honorina: o moço loiro, pois não pode restar dúvida de que este desconhecido é ele, o moço loiro tinha em poucas horas prestado à sua bela amada os mais valiosos serviços.
Ainda com uma nova cabeleira, ainda trajando estranhas vestes, ele aparece, confunde a Félix, e, nós o sabemos, a cruz de brilhantes torna às mãos de sua herdeira, e a inocência de Lauro é demonstrada.
Sem que se saiba como, compreende ou adivinha o que se passa entre Lucrécia e
Honorina, e protesta castigar a viúva.
É ele que escreve a Lucrécia a palavra do ajuste, o sim, simples termo que simboliza a vingança de uma mulher e a perda de outra.
Na tarde desse dia, a viúva tinha ainda escrito a Honorina, recomendando-lhe que, se pudesse, fugisse mascarada para não ser conhecida ao sair de casa, e que durante a viagem se abstivesse de falar, para não ser ouvida pelo boleeiro que as devia conduzir.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.