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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

— Foi meses depois da morte de minha mãe, Sr. Félix, que um parente afastado nosso, que finalmente também tinha piedade de nós, apesar de ser tão pobre como éramos, teve de partir por ordem do Sr. Lauro... para descobrir as provas do crime e provar a inocência do jovem repelido.

Pedi licença para vir em companhia dele, e me foi negada; eu queria a todo o custo servir ao Sr. Lauro, e determinei-me: preparei às ocultas os meus despachos, e, quando o navio em que veio este homem, para o senhor desconhecido, deu à vela, eu lhe apareci na tolda sorrindo-me, e disse: “Foi um pequeno ensaio que fiz para provar que posso servir para alguma coisa.”

Aqui chegamos, Sr. Félix, e para logo o seu desconhecido cuidou do que convinha fazer: era preciso observar dois homens... ele tinha dinheiro, dinheiro de sobra à sua disposição; um espião velou sobre Otávio; faltava outro para o Sr. Félix; eu me ofereci.

— Tu, Carlos?...

— Eu mesmo, Sr. Félix.

— Espião!...

— É verdade: espião; meu oferecimento foi de novo rejeitado; o seu desconhecido não queria consentir que eu representasse semelhante papel; mostrou-me o quanto era vergonhoso, e eu respondi: “Quero servir ao Sr. Lauro!”

— E ele?...

— Ele disse que não, que não absolutamente; mas eu sentia sobre a minha cabeça a alma de minha mãe, que parecia animar-me; usei de uma nova astúcia; eu sabia que em casa do Sr. Hugo de Mendonça havia uma mulher que amava extremosamente o Sr. Lauro; procurei falar-lhe a sós, consegui-o, contei-lhe a minha história, disse-lhe o que queria, e no dia seguinte fui recebido como caixeiro na casa do Sr. Hugo de Mendonça, e tratado com a predileção que merecia um sobrinho da mãe Lúcia.

— E portanto...

— E, portanto, o desconhecido não teve mais que opor-se; eu tinha feito tudo por minhas mãos: deram-me um quarto que fica sobre este... pode ver... levante a cabeça... ali está o meu posto de todas as noites... perdi muitas inutilmente; mas, enfim, eu soube, eu vi tudo!...

— E me traíste!...

— Sim, Sr. Félix, para servir ao Sr. Lauro, que tinha sido o anjo da guarda de minha mãe!...

Félix soltou um suspiro:

— Tiveste razão, Carlos!... ao menos tu és grato.

— Oh! mas agora, Sr. Félix, agora eu preciso alguma coisa do senhor; não desci, não vim aqui, não falo há tanto tempo sem um fim!

— E o que queres então?...

— É que eu me lembro que lhe fiz mal, que lhe ofendi, e preciso que me perdoe!...

— Carlos, tu és bom; eu te perdôo.

O menino caiu, chorando nos braços do moço.

Havia em tudo isto uma coisa pouco natural: era a frieza com que Félix ouvira a confissão de Carlos; mas a consciência daquele, acusando-o de seu crime, tinha podido justificar a falta do menino.

Além disso, no meio da relação de Carlos, tinha por acaso vindo uma idéia à mente de Félix, que lhe sorria, que tinha um não sei quê de lisonjeira para seu coração; foi por tal que ele não sentiu forte abalo, ouvindo a acusação que a si próprio acabava de fazer o jovem caixeiro; foi por tal, enfim, que ele o desviou de seus braços, e disse:

— Está bem, Carlos, vai-te; eu preciso sair; há um negócio muito grave que devo concluir esta noite.

XXXVIII

Aventura noturna

Às nove horas da noite, dois vultos tinham-se aproximado um do outro, junto à igreja da Lapa do Desterro.

— Eis-me aqui, senhor, disse Manduca à misteriosa personagem, com quem de plano se aí encontrava.

— Bem, venha o senhor comigo, respondeu-lhe o desconhecido.

— Mas de que se trata?...

— Não há tempo a perder, tornou-lhe o homem; entremos naquela sege que ali nos espera, e, enquanto ela rodar, eu lhe explicarei tudo.

Manduca, que automaticamente se tinha deixado levar pela mão, logo que ouviu o rodar da sege, começou de novo o interrogatório.

— Para onde vamos?...

— Para minha casa.

— E a que fim?...

— O senhor vai vestir-se de mulher.

— Eu?! exclamou Manduca; então, que diabo quer isto dizer?... Não; não convenho em semelhante asneira...

— Há de convir, quando souber das críticas circunstâncias em que nos achamos.

— Pois então fale, fale, ande...

— Saiba, pois, que a jovem viúva D. Lucrécia detesta furiosamente a bela filha de Hugo de Mendonça.

— Homem, ainda não reparei nisso; mas hei de pensar a tal respeito.

— Detestando-a, como fica dito, determinou perdê-la; e achou que o melhor meio para isso era sacrificá-la a Brás-mimoso.

— E o mais é que foi bem pensado! deve ser um sacrifício casar-se uma mulher com aquele composto de postiços...

— Ora pois; sabendo Lucrécia que apuros comerciais ameaçam a Hugo, o qual para salvar-se deles tratava de um casamento entre Otávio e D. Honorina, que aborrece... quero dizer, que estima a este homem ainda menos que a Brás-mimoso, a atilada viúva, que se finge amiga de D. Honorina, foi à casa desta, e com sua conhecida habilidade convenceu-a de que devia fugir para um convento, a fim de não se casar com Otávio.

— E foi um conselho muito bem dado.

— O caso terá de passar-se pelo modo seguinte; uma sege estará postada na primeira esquina distante da casa de Hugo e do lado da cidade; D. Honorina, quando ouvir dar dez horas, sairá da casa, e entrará na sege, logo depois entrará D. Lucrécia; ambas as moças estarão mascaradas... e a sege partirá!

(continua...)

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