Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Que um dia pode inventar direitos...
— Senhor!...
— Eu o tenho visto sempre tão cercado de cuidados...
— Pois ele irá para longe, disse o velho; já tem idade...
Paulina levantou a cabeça e animou-se a dar dois passos para meu lado.
— Depois do que acaba de passar-se, continuou o velho, é preciso fazê-lo sair... nós faremos...
— Meu pai! um pobre inocente!... murmurou a moça.
O velho franziu os sobrolhos, ouvindo sua filha defender-me; e prosseguiu:
— É ágil, vivo e esperto... será um belo marinheiro...
— Não!... jamais!... exclamou Paulina.
— Paulina!...
A moça atirou-se sobre mim, e abraçou-me apertadamente.
— Tirem dali aquele brejeiro! gritou o velho; tirem-no!... eu lhe darei o competente destino...
Os escravos avançaram para mim, porém Paulina colocou-se diante deles, e, furiosa, bradou:
— Eu o criei!... eu o criei!...
O velho avançou por sua vez... agarrou-me com tanta força, que me fez gritar, e empurrou-me para fora; eu, sem pensar no que fazia, corri para Paulina; mas, sendo por ele de novo seguro, tal arremesso recebi que fui cair sobre uma cadeira, e vi correr uma onda de sangue de minha cabeça.
Ouvi, então, um grito desesperado:
— Meu filho!...
Senti um corpo de mulher cair sobre o meu, e uma maldição de pai cair também sobre minha mãe.
Por ordem dele fomos ambos arrastados para fora de casa; mil vezes minha pobre mãe jurou que tinha sido vítima de um infame; ela não foi ouvida, nem nesse dia, nem no outro, nem em todos os mais que foram passando.
Minha mãe esperou debalde que o único homem, a quem ela tinha amado no mundo, fizesse alguma coisa em seu favor; enganou-se: o miserável, desde que a viu expulsa da casa paterna, não cuidou mais dela, nem para consolá-la; oh! todos fugiam de minha mãe! seus antigos amigos, seus protegidos, aqueles a quem ela havia enchido de benefícios, seus próprios escravos, enfim, zombavam e escarneciam dela!... dias horríveis passamos nós em uma pobre choupana, jejuando ou comendo frutos agrestes!... no entanto, um único homem se lembrava de nós: era o Sr. Lauro. Depois de querer em vão reconciliar meu avô com minha mãe, ele, exasperado contra seu rigor, deixou-o, procurou-nos, e tendo-nos encontrado, levou-nos consigo para a cidade, capital da Bahia.
Ali, de tudo lhe fomos devedores: esta educação que eu tenho; este quase nada que eu sei e que muito me tem servido; o pão que minha mãe comia; os vestidos que ambos vestíamos, tudo era ele que nos dava! oh!... o Sr. Lauro foi a Providência de Deus, que veio em nosso socorro! Ainda mais, Sr. Félix, e aqui vai o que eu nunca poderei esquecer, mesmo quando de tudo me esqueça. Um mês depois de estarmos na cidade da Bahia, minha mãe foi vítima de seus desgostos; vítima do maior mal que pode cair sobre o homem; vítima da maldição da carne!... eu vi surgirem no seu rosto manchas, ora de uma, ora de outra cor, vi intumescerem-lhe os lábios e as orelhas, vi... oh!... minha pobre mãe ficou lázara!... eu acompanhei, Sr. Félix, eu acompanhei passo a passo os progressos da horrível enfermidade! eu li letra por letra todo esse livro de miséria escrito no semblante de minha mãe! oh! e, então, quando sua voz rouca e terrível parecia espantar aos que a ouviam, quando, fugindo horrorizados de seu aspecto, cem homens demônios cuspiam para um lado, mesmo aos olhos dela; o Sr. Lauro... só ele..., só ele vinha sentar-se junto da mísera... derramar consolações em seu seio, enxugar-lhe as lágrimas com o seu próprio lenço, e chamá-la, como eu a chamava, minha mãe!... oh!... Sr. Félix, isto não se esquece e não se paga nunca, nem com o sacrifício da vida!...
Sentindo que minha mãe sofria muito, vivendo no centro de uma populosa cidade, em estado tão lamentável, o Sr. Lauro facilitou-nos uma pequena e retirada casa na vizinhança da povoação de Itapoã. Foi aí, senhor, que se passou a cena que lhe foi contada, entre minha mãe e Otávio.
Deus talvez a conservava para ser o instrumento pelo qual se chegasse a provar a inocência do Sr. Lauro; porque, poucos dias depois da noite que em nossa casa passara Otávio, minha mãe expirou nos nossos braços.
Poucos instantes, porém, antes de morrer, ela ficou a sós comigo, e disse: “Meu filho! se Lauro te pedir a tua vida, dá-lha; crê que minha alma estará sempre sobre tua cabeça para te amaldiçoar, se fores ingrato... e para te abençoar se até à tua morte te dedicares a ele, como o mais fiel dos escravos!”
Depois o Sr. Lauro entrou, e ela falou assim: “Sr. Lauro, não se mente na hora da morte: mereci os seus benefícios, porque nunca fui culpada; o meu crime esteve no meu sono... sono talvez efeito de um narcótico... não sei... nunca pude compreender... não sei quem seja o pai deste menino; seja-o o senhor.” E expirou.
Carlos suspendeu aqui a sua narração para enxugar as lágrimas, que em bagas lhe caíam.
Passando um momento, continuou:
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.