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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

— Peri só podia salvar a ti, senhora! murmurou o índio tristemente. Cecília ergueu a cabeça altiva. 

— Por que não me deixaste morrer com os meus?... exclamou ela numa exaltação febril. Pedi-te eu que me salvasses? Precisava de teus serviços?... 

Seu rosto tomou uma expressão de energia extraordinária. 

— Tu vais me levar ao lugar onde descansa o corpo de meu pai. É ai que deve estar sua filha... Depois partirás!... Não careço de ti. 

Peri estremeceu. 

— Escuta, senhora... balbuciou ele em tom submisso. 

A menina lançou-lhe um olhar tão imperioso, tão soberano, que o índio emudeceu, e voltando o rosto escondeu as lágrimas que lhe molhavam as faces. 

Cecília caminhou até a beira do rio e com os olhos estendidos pelo horizonte, que ela supunha ocultar o lugar em que habitara, ajoelhou e fez uma oração longa e ardente. 

Quando ergueu-se, estava mais calma: a dor tinha-se repassado do consolo sublime da religião, dessa doçura e suavidade que infiltra no coração a esperança de uma vida celeste, que reuna aqueles que se amaram na terra. 

Ela pôde então refletir sobre o que se tinha passado na véspera: e procurou lembrar-se das circunstâncias que haviam precedido à morte de sua família. Todas as suas recordações, porém, chegavam unicamente até o momento em que, já meio adormecida, falava a Peri, e dizia essa palavra ingênua e inocente que lhe escapara do intimo da alma: 

— Antes morrer como Isabel! 

Lembrando-se dessa palavra corou; e vendo-se só no deserto com Peri, sentiu uma inquietação vaga e indefinida, um sentimento de temor e de receio, cuja causa não sabia explicar. 

Seria essa desconfiança súbita proveniente da cólera que ela sentira, porque o índio salvara a sua vida, e a arrancara da desgraça que tinha destruído toda a sua família? 

Não; não era essa a causa; ao contrário, Cecília conhecia que fora injusta para com seu amigo que tinha talvez feito impossíveis por ela; e a não ser o receio instintivo que se aponderara involuntariamente de sua alma, já o teria chamado para pedir-lhe perdão daquelas palavras duras e cruéis. 

A menina ergueu os olhos tímidos e encontrou o olhar triste e súplice de Peri: não pôde resistir; esqueceu os seus receios, e um tênue sorriso fugiu-lhe pelos lábios. 

— Peri!... 

O índio estremeceu, mas desta vez de alegria e de contentamento; veio cair aos pés de sua senhora, que ele encontrava de novo boa como sempre tinha sido. 

— Perdoa a Peri, senhora! 

— És tu que me deves perdoar, porque te fiz sofrer; não é verdade? Mas bem sabes!... Não podia abandonar meu pobre pai! 

— Foi ele que mandou a Peri que te salvasse! disse o índio. 

— Como?... exclamou a menina. Conta-me, meu amigo. 

O índio fez a narração da cena da noite antecedente desde que Cecília tinha adormecido até o momento em que a casa saltara com a explosão, restando dela apenas um montão de ruínas. 

Contou que ele tinha preparado tudo para que D. Antônio de Mariz fugisse, salvando Cecília; mas que o fidalgo recusara, dizendo que a sua lealdade e a sua honra mandavam que morresse no seu posto. 

— Meu nobre pai! murmurou a menina enxugando as lágrimas. 

Houve um instante de silêncio, depois do qual Peri concluiu a sua narração, e referiu como D. Antônio de Mariz o tinha batizado, e lhe havia confiado a salvação de sua filha. 

— Tu és cristão, Peri?... exclamou a menina, cujos olhos brilharam com uma alegria inefável. 

— Sim; teu pai disse: “Peri, tu és cristão; dou-te o meu nome!” 

— Obrigado, meu Deus, disse a menina juntando as mãos e erguendo os olhos ao céu. Depois envergonhada desse movimento espontâneo, escondeu o rosto: o rubor que cobriu as suas faces tingiu de uns longes cor-de-rosa as linhas puras do colo acetinado. 

Peri ergueu-se e foi colher alguns frutos delicados que serviram de refeição à sua senhora. 

O sol tinha quebrado a sua força, era tempo de continuar a viagem e aproveitar a frescura da tarde para vencer a distancia que os separava do campo dos goitacás. 

O índio chegou-se trêmulo para a menina: 

— Que queres tu que Peri faça, senhora? 

— Não sei, respondeu Cecília indecisa. 

— Não queres que Peri te leve à taba dos brancos? ]

— É a vontade de meu pai?... deves cumpri-la. 

— Peri prometeu a D. Antônio levar-te à sua irmã. 

O índio fez a canoa boiar sobre as águas do rio, e quando tomou a menina nos seus braços para deitá-la no barquinho, ela sentiu pela primeira vez na sua vida que o coração de Peri palpitava sobre o seu seio. 

A tarde estava soberba; os raios do sol no ocaso, filtrando por entre as folhas das árvores, douravam as flores alvas que cresciam pela beira do rio. 

As rolas começavam a soltar os seus arrulhos no fundo da floresta; e a brisa, que passava ainda tépida das exalações da terra, vinha impregnada de aromas silvestres. 

A canoa resvalou pela flor da água como uma garça ligeira levada pela correnteza do rio. 

Peri remava sentado na proa. 

(continua...)

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