Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Há, Sr. Félix, um velho costume de que a sociedade não se emenda, e que, todavia, é uma injustiça... uma infâmia. Quando uma mulher é iludida e ultrajada no que tem de mais nobre, a sociedade não fecha suas portas ao homem que a iludiu e ultrajou; cospe, porém, no rosto da mulher que se deixou perder em um instante de desvario, ou que foi, a pesar seu, brutalmente ultrajada.
— E o que vem isso ao caso, Carlos?...
— Perdoe-me, Sr. Félix, eu começo imediatamente. A algumas léguas de distância da cidade da Bahia, vivia há seis anos um abastado fazendeiro, tão honrado como altivo, e que parecia concentrar todas as suas afeições numa filha que tinha: chamava-se esta Paulina. Bela e virtuosam, Paulina tocava os seus trinta anos ainda solteira, e, tendo já rejeitado grande número de pretendentes, ela passava seus dias ao lado de seu velho pai, e, naturalmente melancólica e acanhada, raras vezes se deixava ver; alguém havia, contudo, que merecia de seu coração a mais extremosa amizade; era um pobre menino de dez anos, que fora na sua casa enjeitado, era eu.
“Travesso, talvez engraçado com as minhas meiguices infantis, era eu a única pessoa que ganhava um sorriso de Paulina. Para todos os mais ela se mostrava a mesma: triste... muito triste; dir-se-ia que no fundo de sua alma existia um agudo espinho, que a feria de contínuo.
“Na opinião de seu pai, no entender de todos, um único remédio podia dar-se para curá-la daquele eterno abatimento, que se parecia bastante com o que se chama desamor do mundo: era fazê-la amar.
“Pois Paulina amou. Um estrangeiro, que para perto veio morar, ganhou o que por tantos havia sido debalde pedido; ganhou seu coração; foi esse um amor, Sr. Félix, ligeiro e ardente como a chama... eu tinha tão pouca idade, que não me lembro de nenhuma de suas circunstâncias; sei, porém, que quase milagrosa deveu ter sido a impressão produzida por esse mancebo em Paulina; e recordo-me bem que muitas vezes ela me abraçava, me beijava, dizendo-me: ‘eu vou casar-me, meu Carlos’! e orvalhava-se o rosto com suas lágrimas.
“E, com efeito, eles iam casar-se; o moço a pedira a seu pai, e, como fosse rico e estrangeiro, a tinha sem dificuldade obtido. O dia do casamento estava marcado; esperava-se um negociante da Bahia, que deveria ser o padrinho; só três dias faltavam para chegar o dia da celebração das núpcias; e Paulina chorava sempre, abraçando-me.
“O negociante que se esperava não pôde vir; mas em seu lugar mandou o seu primeiro caixeiro munido de competente procuração; este primeiro caixeiro, Sr. Félix, chamava-se Lauro. “Além de Lauro, uma outra personagem tinha também vindo da cidade, que deveria perturbar os prazeres que antecipadamente se gozavam na casa: essa personagem era uma moça. Viera só, sem pai, nem irmão, nem marido, nem criada; e era bela, chamava-se, oh!... lembro-me bem de seu nome, chamava-se Hipólita.
“Hipólita pediu uma conferência particular a Paulina: esteve com ela duas horas, e retirouse. Paulina apareceu mais pálida do que nunca; todo o seu corpo tremia convulsivamente, e, dirigindo-se a seu pai, disse que não queria mais casar-se.
“Mas o pai era altivo e arrogante, e o noivo miserável e ambicioso; apesar dos gemidos da vítima e das súplicas do Sr. Lauro, Paulina ia sendo arrastada da sala para o oratório, quando na porta apareceu Hipólita.
— Parai! gritou ela.
“Todos pararam; eu estava presente e chorava; mas pude ver no rosto dessa mulher todo o fogo infernal do ciúme em delírio.
— Parai! e ouvi-me!
“Todos se voltaram para ela, à exceção de Paulina que acabava de desmaiar nos braços do Sr. Lauro.
— Esse homem que caminhava para o altar, disse ela, amou-me, prometeu desposar-me e enganou-me: eu quero saber se se consentirá depois do que acabo de expor que ele se case com aquela senhora.
— É uma louca... uma mulher perdida... disse o noivo.
— Lancem fora daqui aquela mulher! gritou o pai de Paulina aos escravos que o acompanhavam.
— Suspendei! exclamou Hipólita; ainda um instante, e eu parto. Senhores, eu sou filha de uma parteira!...
— É louca ou não?... acudiu o noivo.
— Há dez anos passados, continuou a mulher sem se dar com o que acabava de ouvir; há dez anos passados, essa moça, que vai ser levada ao altar, foi passar alguns meses na cidade da Bahia em companhia de uma senhora, parenta sua.
— E o que tem isso?... perguntou o velho pai.
— Poucos dias depois de voltar ela a esta fazenda, um menino, um enjeitado, aqui foi depositado...
— E a que vem semelhante história?... tornou o velho elevando a voz.
— Senhores!... exclamou a mulher, eu já disse que minha mãe era parteira...
— Insolente!... gritaram algumas vozes.
— Eu digo que esse menino é filho daquela senhora!... eu o denuncio!... e agora, senhor, pode casar-se com ela!
E a mulher infernal deixou para sempre a casa a que viera, como o gênio do mal, semear desgraças.
O longo silêncio que se seguiu à cena precedente foi interrompido por um grito de Paulina, que exclamou:
— Eu sou inocente!... eu não sou culpada!...
— O senhor a está ouvindo: que ela jura que é falso, que é calúnia o que disse aquela mulher! falou o velho ao noivo.
— Mas esse menino... balbuciou este.
— O menino de que se trata é aquele, tornou o velho apontando para mim: é um enjeitado...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.