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#Relatos#Literatura Brasileira

A Retirada da Laguna

Por Visconde de Taunay (1871)

Não longe dali residira outrora esta mesma D. Senhorinha, cuja hospitalidade já gabamos. Achava-se, então, casada, em primeiras núpcias, com um Lopes (João Gabriel), irmão do nosso valente guia José Francisco, e falecido em 1849. Residindo só, com os filhos, então crianças, numa zona fronteiriça, onde não há a mínima segurança para os fracos, já fora outrora a viúva presa e levada por um magote de paraguaios. Reclamada, ao cabo de algum tempo, pela legação brasileira em Assunção e liberta, em 1850, contraíra, segundo o costume generalizado naquela terra, segundo casamento com o cunhado, o nosso guia, que a estabelecera em sua estancia do Jardim. Ali, ao começar a invasão, de 1865, fora de novo presa e internada no Paraguai.

A 17 de abril, pela manhã, deixamos o Retiro e, duas léguas à frente, encontramos uma construção em forma de galpão ou cabana que evidentemente acabava de ser abandonada por uma ronda inimiga. Erguia-se-lhe ao lado um destes mastros de vigia a que os paraguaios chamam mangrulhos, grosso esteio ou travejamento de toscos madeiros, pelos quais trepam para descortinar, ao longe, os terrenos circunvizinhos. Haviam os nossos índios Guaicurus avançado até ali, anteriormente, num reconhecimento do tenente-coronel Enéias Galvão. Desta vez fizeram os selvagens, nossos aliados, alegre fogueira do tal mastro e da choupana.

Avisaram neste momento ao Coronel que o nosso comboio se atolara à saída do Retiro. Decidiu imediata mente que, sem interromper a marcha, iríamos esperá-lo a alguma distancia, à vanguarda. Foi o que fizemos assentando acampamento exatamente no local onde existira a fazenda de João Gabriel. Grosso contingente d' vanguarda colocou-se em observação sobre uma culminância que dominava a campina.

Quem comandava este destacamento era um capitão da guarda nacional do Rio Grande do Sul, Delfino Rodrigues de Almeida, mais conhecido pelo apelido paternal de Pisa-flores, homem enérgico, a cuja bravura todo prestávamos homenagem. Vimo-lo olhar fixamente par. oeste; de repente, partido de diferentes pontos, reboou um grito: A fronteira! Da elevação onde se achava destacamento avistava-se com efeito a mata sombria d’ Apa, limite das duas nações.

Momento solene este, em que entre oficiais e soldado nosso houve quem pudesse conter a comoção! O aspecto da fronteira que demandávamos a todos surpreende que realmente era novo. Podiam alguns já tê-la visto' mas com olhos do caçador ou do campeiro, indiferente. A maior parte dos nossos dela só haviam ouvido vaga mente falar; e agora ali estava à nossa frente com ponto de encontro de duas nações armadas, e como campo de batalha.

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(1) Por ocasião da travessia dos pantanais e da Retirada da Laguna pr' tou este oncial, Cesário de Almeida Nobre de Gusmão, prodigiosos servis _ Vd D1.Y de Guerra e de Sertão nelo A.

CAPÍTULO VII

Passagem do Apa. Primeiro embate. Ocupação da Machorra.

Haviam as nossas carretas retardatárias chegado ao acampamento a 17. No dia 18, pelas nove da manhã, fez-se a rendição das guardas avançadas. Reinava em nossas linhas a maior tranqüilidade quando, de repente, pelas onze, ouviu-se o grito de alarma: "Cavalaria inimiga!". Armam-se os batalhões; expede o comandante os engenheiros aos postos avançados; o ajudante-general à retaguarda; o assistente do quartel-general aos diversos corpos para lhes examinar as condições e remediar ao que possa faltar. Para a vanguarda marcha ele próprio, acompanhado pelo batalhão de voluntários, com as bocas de fogo do major Cantuária e do tenente Marques da Cruz, o mesmo que havia de morrer combatendo nas Linhas de Humaitá. Por nós passou, com a espada nua, não querendo, dizia, tornar a embainhá-la senão depois que houvesse travado conhecimento com os paraguaios.

Estavam os inimigos, então, a pequena distância de nós, perto da mata que beirava um ribeirão. Avançavam sensivelmente estendendo-se em linha de atiradores, correndo de um lado para outro, sob as ordens de um oficial, que entre eles se destacava; e súbito mandou se retirassem: perdemo-los de vista. Após tão prolongada espera ordenou o comandante que volvêssemos às nossas posições.

Pela manhã de 19 deixamos o acampamento. O Coronel destacou o 21.° batalhão para a vanguarda com a recomendação de nunca perder de vista o grosso do corpo do exército, durante a marcha, embora sempre a ganhar terreno. Seguia o resto em estacamentos, próximos uns dos outros, mas, como a animação dos soldados e a dos oficiais corressem parelhas, avançaram os corpos sem prestar grande atenção ás ordens dadas, achando-se por vezes separados por distâncias maiores do que a prudência aconselhava.

À passagem do Taquaruçu, cuja ponte acabavam os paraguaios de destruir, deu-lhes a vanguarda uma descarga, embora quase estivessem fora de alcance. Viu-se um de seus cavaleiros cair ferido. Tomou-o um dos camaradas á garupa, enquanto o terceiro lhe laçava a montaria que fugia, sentindo-se solta. Ao presenciar esta primeira cena de guerra, queriam os nossos soldados deitar-se á água para perseguir o inimigo, quando um toque de clarim do quartel-general os fez estacar. Toda a coluna achou-se logo agrupada atrás deles. Neste entrementes os engenheiros restabeleciam a ponte; bastou-lhes uma hora. Efetuou-se a passagem e a marcha recomeçou à outra margem.

(continua...)

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