Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Sacrifício

Por Franklin Távora (1879)

— Estão bem moços ainda; são duas crianças — prosseguiu Albuquerque. No governo da vida, Paulo é um homem perfeito; eu não sei se poderia em caso algum dirigir tão discretamente as minhas ações, e trazer tão bem velados os meus interesses. Mas Paulo, segundo a senhora reconhece, não tem fortuna; agora é que trata de formar pecúlio. Ele desmentiria seu conhecido juízo, se tomasse família sem os meios de a manter decente e dignamente. Talvez que já tenha estes meios, quando se preencher a condição de que lhe falei. Então, sim, D. Maurícia; o casamento, que nós e eles desejamos, se realizará com satisfação de todos.

— Mas não poderei saber qual é a condição a que o Sr. se refere?

— Permita que por ora não a revele. Em ocasião oportuna, a senhora será sabedora; mas dependendo a condição da sua vontade, ou do tempo, não há razão para supor que prometo o que é impossível. Está satisfeita, minha senhora?

— Estou tranqüila; satisfeita, ainda não, respondeu Maurícia, graciosamente. — Esperemos pelo tempo - disse Albuquerque.

E levantou-se.

Maurícia imitou-o, e subiu. Levava um demônio no espírito.

— Que condição será esta? perguntava inquieta a si mesma, e não achava reposta que lançasse um raio de luz sobre este mistério impenetrável.

Neste mesmo dia, Albuquerque, dando parte a sua mulher do que se passara entre ele e Maurícia, disse estas palavras:

— Daqui até que Alice esteja de todo educada, hei de ter conseguido conciliar D. Maurícia com o marido, e então darei a Paulo a felicidade que mais deseja. Talvez, não seja preciso promover-se esta conciliação, à vista das circunstâncias em que ficava o marido de D. Maurícia por ocasião das últimas indagações a que mandei proceder no Pará. Estava pobre e enfermo. Conjeturo que a esta hora o infeliz já não mais existe.

Não chegou a contar-se uma semana que Albuquerque teve a prova de que era mentirosa a sua conjetura.

CAPÍTULO VI

Na mesma sala em que Albuquerque e Maurícia tinham conferenciado sobre o grave assunto que vimos, foi introduzido, seriam noves horas da manhã, no dia da festa em honra de Eugênia, um homem que poderia ter quarenta anos de idade. Era alto, magro, pálido. Tinha a fisionomia desfigurada. Trajava de peto. Trazia os cabelos e a barba crescidos, a camisa enxovalhada.

— Queira ter a bondade de dizer o que o trouxe a esta casa, disse-lhe Albuquerque.

— Senhor, disse o sujeito, estava eu no leito de morte, quando um amigo, com o intento de reanimar-me, deu-me a ler uma carta em que uma pessoa desta cidade recomendava a outra, moradora na em que eu agonizava, que lhe desse informações minuciosas acerca do meu estado moral, sobre os meus meios de vida, etc.

— Estou falando com o Sr. Bezerra? - inquiriu Albuquerque.

— Sim, senhor; tornou o sujeito.

— Sente-se.

Depois de um minuto e silêncio, Bezerra prosseguiu:

— V.S. terá bem presente tudo o que disse nessa carta?

— Lembra-me por alto o que escrevi.

— Falo-lhe nestes termos porque eu a tenho de cor, o que não deve causar espanto, visto ser ela a minha salvação. Posso assegurar a V.S. que as suas letras me arrancaram das garras da morte.

— Eu tudo ignoro a seu respeito, porque a pessoa a quem pedi informações nenhuma me deu ainda.

— Essa pessoa julgou-se dispensada de o fazer, quando soube que eu vinha a Pernambuco. Procurou-me para me pedir que entregasse a V.S. a presente carta.

Assim falando Bezerra punha nas mãos de Albuquerque a carta a que se referira.

— É uma carta de apresentação.

Albuquerque, depois de lê-la, disse a Bezerra:

— Antes de passarmos adiante, julgo no meu dever declarar-lhe que nenhuma parte teve no passo que dei para obter as informações a seu respeito a Sra. D. Maurícia.

— Minha mulher... disse Bezerra.

— Andei nisso por exclusiva inspiração minha, e até a este momento ela tudo ignora a semelhante respeito.

A estas palavras, Bezerra tornou-se mais pálido do que era.

— Ah! disse. Eu cuidava que tudo se havia feito por indicação dela.

— Não, senhor.

— Sei, prosseguiu Bezerra, que minha mulher não encontrou em V.S. somente um cavalheiro, encontrou também um irmão.

— Não lhe tenho feito senão aquilo a que tem direito, pelas suas qualidades pessoais.

— V.S. diz a verdade nestas últimas palavras, minha mulher é uma adorável criatura; e só a cegueira em que vivi nos primeiros anos depois do meu casamento poderia dar origem a cenas fatais que hoje eu recordo com pejo. Mas, senhor, posso assegurar-lhe que a cegueira está agora de todo extinta; e que, ensinado pela experiência, castigado pela sorte, trago para minha mulher o primeiro dos meus afetos, e para a minha querida Virgínia todos os extremos de que é capaz o mais terno dos pais.

Albuquerque tinha os olhos fixos em Bezerra, que parecia exprimir-se não com os lábios, mas com a alma.

Bezerra não fora destituído de graça nas suas feições, de vivacidade no olhar.

Conhecia-se pelas ruínas ainda notáveis destes dotes que eles tinham sido pingues. O senhor de engenho ouvia-o com toda atenção, e não sem prazer.

Bem depressa, Bezerra conheceu que da parte do seu interlocutor havia toda a benevolência para ele. Considerou, então, ganha a sua causa.

Continuou:

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1011121314...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →