Por Franklin Távora (1878)
Imagine uma criatura humana com entranhas de tigre; na mão o pau ou a faca prestes para ofender ou ferir a quem estava perto, a pedra para atirar contra quem estava longe; sempre a saltar e a correr pelo caminho, a trepar nas arvores novas, primeiro que nas arvores idosas por serem mais fáceis de quebrar-se com o peso do corpo as primeiras do que as ultimas; imagine um ente essencialmente malévolo que cortava, por gosto de fazer mal, os gerumusinhos ainda na erva, arrancava as batatas verdes, despedaçava os maturis, queimava as cercas, quebrava as pernas ás aves domesticas que se achavam a seu alcance quando ele entrava em seu furor; enfim imagine o espirito mais diabólico, o coração mais duro, a constituição mais forte aos doze anos de idade, que tereis, não o retrato tirado pelo natural, mas apenas a miniatura de Lourenço quando chegou ao Cajueiro.
Ao cabo de um ano a luta continuada de dois sexos, dois gênios, duas idades diferentes, representadas por Marcelina e Lourenço, tinha trazido notável alteração ao natural e aos costumes de ambos. Marcelina estava cansada de lutar; as faces se lhe alquebraram; com pouco se irritava. Por felicidade, porém, Lourenço dava mostras de achar-se menos duro, manos indiferente aos castos sentimentos, menos insensível aos afetos plácidos do lar, menos forte para fazer mal, e já propenso ao trabalho e á pratica do bem.
Luta insana e titânica fora essa, mas tão gloriosa para a parte vencedora, como proveitosa para a vencida. A mãe mais amorosa, paciente e discreta teria que invejar àquela mulher ignorante e rústica o esforço que, em sua benevolência, empregava em domesticar o animo da fera metido no coração da criatura humana, que ela adotará por filho.
Aquela mulher era digna do estudo das mães de família, e de ser por elas imitada. Era o modelo vivo da mãe pobre, boa e virtuosa.
- É meu filho, dizia Marcelina consigo mesma. Porque não hei de ter para ele amor e brandura? Que tem que me dê muito que fazer encaminha-lo para o bem? Muito custa a gente acertar com o bom caminho; mas querendo-se ir por ele, ou tendo-se quem sirva de guia para ai, chega-se ao fim sempre. Hei de amolecer a natureza de pedra deste menino; hei de o fazer bom, ainda que eu fique má e dura de coração contra minha vontade.
Quem souber que o maior desejo de Marcelina era Ter um filho, facilmente compreenderá os impossíveis que ela vencia para fazer Lourenço digno dos seus afetos grandiosos.
As palavras que, no momento de chegar com Lourenço da povoação, Francisco dissera á sua mulher, apresentando-lho, deram logo a esta a conhecer a grande obra em que tinha de empenhar suas gigantescas forças. - Não pedias todo santo dia um filho a Deus? Pois aqui tens um que ele te enviou e está já em condições de te fazer companhia e ajudar, quando eu não estiver na terra. Achei-o rasgado, sujo, desamparado, obrando ações feias, de todos desprezado e odiado. Lembrou-me o teu desejo, compadeci-me da criança desviada do bom caminho, tomei-a para nós, e aqui t’a entrego. Se aprender a trabalhar, a ajuntar, e a fazer bem, de muito nos poderá servir, porque é forte como uma onça.
Lourenço estava hediondo. Os cabelos tinha-os imundos e crescidos, as unhas terrosas, os pés cortados das pedras e dos vidros dos quintais e esterquilínios por onde de noite andava em busca do alheio.
Sobre o corpo, que sendo de cor branca, se apresentava enegrecido do pó e das imundices em que se espojava, como cão, e sobre as quais dormia como porco, trazia, não roupa, mas pútridos e repugnantes andrajos.
- Onde achou você este menino? perguntou-lhe Marcelina, não sem espanto do que via e não esperava.
- Achei-o por ai além; não precisa saber onde. Toma-o á tua conta, limpa-o, trata dele.
Não tem pai nem mãe? Poderemos te-lo por nosso, sem risco de o perdermos ou de que alguém o venha tirar de nosso poder quando já estiver não como bicho, mas como gente?
- Não tenhas receio de que haja quem o queira, Marcelina. Todo o Pasmado entregou-mo para ficar aliviado e livre dele. Tu não sabes de quanto é capaz este menino endiabrado que nos está ouvindo sem dizer uma palavra sequer, passado de raiva e em termos de arrebentar. Enfim, para encurtar a historia, basta que eu te diga que pelo que me fez em tão curta jornada, tive muitos ímpetos de o ir deixar outra vez no lugar onde o encontrei aborrecido e temido por todos. Não foi uma nem duas vezes que me arrependi da minha caridade e de me terem lembrado as tuas encomendações sempre que eu saia.
- Não diga assim, Francisco. Ele há de ficar bondinho, com o favor de Deus. Você há de ver. Não há tanta gente que nasce ruim e que pelo tempo adiante fica boa?
- Enfim, ai o tens. Foi o menino que encontrei, e agora agüenta-te com ele, que tem sangue no olho e cabelo na venta.
Dias depois, Lourenço já apresentava aspecto diferente do que trouxera. Marcelina tinha feito para ele ceroula e camisa nova, e principiou a sua obra de regeneração pela limpa do corpo.
Á tardinha, entrando Francisco com o feixe de capim que fora cortar na baixa para o cavalo, ficou admirado de ver a mudança de Lourenço.
A limpa corporal tinha sido completa.
Desapareceu o cabelo sórdido e especado, que fora cortado rente, as rajás que desfiguravam a cara, as unhas que se podiam comparar com as garras dos carcarás. Lourenço mostrava-se agora na realidade outro do que viera. O banho geral que lhe foi dado por Marcelina o poz ao natural. A cara despojada da crosta terrena em que se envolvia, como em mascara, atestava pela brancura que o menino era de boa origem. Os vasos azuis desenhavam-se sob a cútis das faces, murchadas pouco antes, agora porém refrescadas pela ablução saudável, e como remoçadas pela pronta reação que é natural da meninice.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.