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#Romances#Literatura Brasileira

O Seminarista

Por Bernardo Guimarães (1872)

Aquele estranho acontecimento vinha despertar em seu espírito uma multidão de idéias e reflexões novas, que lhe tumultuavam no cérebro, e o punham na maior tortura e confusão. Não compreendia que mal pudesse haver em querer bem a uma menina e em fazer-lhe versos. Bem sabia que tinha de ser padre, e esse era o seu mais ardente desejo, sabia igualmente que o padre não pode casar-se, e muito menos amar uma mulher qualquer; mas nunca lhe passou pelo espírito a idéia de casamento com Margarida, nem com quem quer que fosse, nem tampouco que aquela afeição que consagrava à menina fosse o que se chama amor. Ficou portanto confuso e aterrado, quando aquele sentimento, que lhe parecia tão inocente e sem conseqüência, lhe foi exprobrado como um crime hediondo, um sacrilégio, uma ofensa enorme feita à divindade.

Repugnava-lhe semelhante idéia, mas entretanto sentia que era forçoso curvar-se a ela e submeter-se aos ditames do seu diretor. Mas esquecer-se de Margarida, renunciar para sempre àquela afeição tão pura e suave, que até então lhe havia embalsamado, a existência com os seus eflúvios celestes, e que constituía por assim dizer a seiva de seu coração, o perfume de sua alma, era um empenho diante do qual o seu espírito recuava espavorido, e a sua inteligência, posto que inexperiente, bem entrevia que isso não lhe seria possível.

Todavia Eugênio, como submisso e dócil que era por natureza, não podia deixar de compreender que o padre diretor devia ter toda a razão, e pressentia que a afeição que votava a Margarida era um estorvo temível, um escolho, em que iria naufragar irremediavelmente a sua vocação religiosa. E como desejava sincera e ardentemente abraçar o estado sacerdotal, começou a ter um horror, não à pessoa de Margarida — que mal lhe havia feito ou poderia fazer a pobre menina? — mas à idéia de amá-la.

Não podia desprezar e muito menos odiar a sua boa e gentil companheira de infância, mas era forçoso... esquecê-la de todo! não; não o queria, e nem isso era possível, mas era preciso não trazê-la tão de contínuo presente ao pensamento. Nesse intuito Eugênio tentou embalde esforços sobre-humanos.

À tarde, no recreio, em vez de ir assentar-se como dantes no paredão da esplanada a contemplar as colinas vizinhas e as nuvens douradas do ocidente afogueado pelos últimos clarões do dia, envolvia-se na turba folgazã dos companheiros, e procurava abafar no turbilhão e algazarra de seus trêfegos divertimentos as cismas saudosas que nessas horas, como vapores de rosa nas asas de uma brisa perfumada, costumavam pairar-lhe pelo espírito.

Quando à hora de missa entrava na igreja, desviava os olhos do grupo das mulheres, e quando acordava de madrugada aos sons dos hinos sagrados, ao ouvir aquela voz suave e argentina que fazia lembrar Margarida, cobria bem a cabeça, e tapava os ouvidos com ambas as mãos.

De noite, quando sonhava com ela — e isto sempre lhe acontecia -, despertava benzendo-se, punha-se de joelhos e rezava longamente pedindo a Deus que lhe arredasse do espírito aquela tentação, que até dormindo tanto o perturbava.

Mas debalde Eugênio cerrava os olhos e os ouvidos, debalde procurava furtar-se à influência dessas impressões externas, que lhe falavam de Margarida. De que lhe servia isso, se ele a tinha dentro de si, e não lhe era possível estender um véu que a ocultasse aos olhos da alma, dentro da qual encontrava sempre a sorrir, refulgente de formosura, a imagem de Margarida, como lâmpada sempre acesa dentro de um santuário, e ouvia-lhe constantemente a voz como um eco mavioso, que a viração que passa acorda de contínuo no seio de uma gruta misteriosa.

Era tempo perdido querer riscá-la da lembrança. A encantadora menina cada vez mais louçã e risonha, cada vez mais tentadora, estava sempre a lhe aparecer em sonhos, como um anjo de luz procurando à porfia desvanecer e afugentar as sombras tristonhas que os escrúpulos de uma consciência fanatizada começavam a acumular no espírito do adolescente.

Eugênio cumpriu à risca os jejuns e penitências que lhe foram prescritos durante uma semana, no fim da qual devia prosternar-se no tribunal da penitência aos pés do confessor, e aliviar sua consciência do peso daquele hediondo pecado, o qual entretanto fazia as delícias de sua vida. E quem escolheria ele para seu confessor senão o próprio padre-mestre diretor, que já estava ao fato das fraquezas de seu coração, e das alucinações de sua imaginação?

O menino confessou-se com verdadeira contrição e sinceros desejos de emendar-se, revelando toda a luta íntima que sustentava sem resultado para banir do espírito a imagem da sua querida Margarida.

O padre deu-lhe animações e conselhos salutares, exortando-o a que persistisse naquela luta agradável aos olhos de Deus, e que tivesse fé e esperança na misericórdia divina, que alcançaria segura e completa vitória. Entre outras muitas coisas santas e salutares que disse ao menino, fez-lhe ver que decerto Margarida, como criança que era, já há muito dele se teria esquecido, e que não era senão o demônio que tomava a figura dessa menina para perturbar-lhe o espírito, arredá-lo de uma santa vocação, e arrastá-lo ao caminho da condenação eterna; que se lembrasse que o espírito das trevas, querendo perder nossos primeiros pais transformou-se em uma serpente, que enleando-se submissa e dolosa aos pés de Eva, lançou-lhe n'alma o germe da desobediência e da cobiça, o que fez perderem para sempre, ela e o seu companheiro, as delícias do paraíso terreal.

(continua...)

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