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#Romances#Literatura Brasileira

O Ermitão de Muquém

Por Bernardo Guimarães (1869)

Atirou ao ombro a jaqueta, pôs na cabeça o seu chapéu de couro, deitou na boca uma masca de fumo, e sem mais perda de tempo, dirigiu-se o mais depressa que pôde à casa de Reinaldo. Aí não encontrou senão uma mulher velha, que morava com Reinaldo e lhe tratava da casa. Esta, que também se mostrava aflitíssima, contou-lhe que pela madrugada Reinaldo sozinho e arquejando de cansaço batera à porta, arreara o cavalo a toda a pressa sem dizer palavra, por mais que ela lhe perguntasse o que tinha acontecido, o que era feito de Maroca e onde ia àquelas horas; que resmungando e praguejando sem a nada responder partira a toda a brida, sem que ela soubesse que rumo levara.

Esta informação foi mais que suficiente para que mestre Mateus compreendesse quantas desgraças não poderiam resultar, ou não teriam já resultado daquela desastrada pendência, que vinha desacreditar para todo o sempre a sua casa. Amaldiçoava a hora em que se lembrou de fazer semelhante função, e dava aos diabos a Maroca, Gonçalo e Reinaldo, que vieram deitar azar em sua casa, onde nunca houvera nem a mais insignificante rusga. Arrependeu-se mil vezes de não ter mandado amarrar aqueles dois malucos, logo que começaram a brigar, e entregá-los à justiça; teria impedido uma desgraça, que já quase tinha como certa e irremediável.

Contudo o bom do velho sem mais perda de tempo corre à casa de alguns dos parceiros da véspera, amigos dos dois rapazes, dá-lhes conta do que acaba de saber e das inquietações que tinha no espírito.

Estes também tinham acordado com a mesma preocupação, e apenas viram mestre Mateus, perguntaram-lhe com sofreguidão se tinha notícias de Reinaldo, de Gonçalo e da Maroca.

— Oh! se as tenho! e bem tristes. O Reinaldo é tão doido como o outro. Ontem quando saiu da súcia, foi direto à casa, montou a cavalo, e voou como uma flecha atrás de Gonçalo e de Maroca. Agora vocês, que são seus amigos, o que devem fazer, é irem já e já cada um arrear o seu animal e correrem à fazenda de Gonçalo; não podiam ter tomado outro rumo. Vão ver o que é feito daqueles doidos. Depressa! depressa! ah! e queira Deus que já não seja tarde.

Mestre Mateus era respeitado e estimado dos rapazes, e seus conselhos eram executados à risca, como se fossem ordens.

Foi dito e feito. Em menos de meia hora alguns moços, amigos dos dois, galopavam à rédea solta caminho da casa de Gonçalo, que morava em uma pequena fazenda de sua propriedade a légua e meia da vila.

Teriam andado cerca de uma légua, quando divisaram a umas quinze braças ao lado do caminho à beira de um pequeno capão uma mulher assentada no chão e encostada ao tronco de uma árvore. Correram a reconhecê-la. Estava ela com a cabeça como que pregada ao tronco da árvore, com ar de idiota, com os olhos muito abertos, parados e obstinadamente fitos em um cadáver todo mutilado e ensangüentado, que estava estendido diante dela. O capim em roda estava todo amassado e ensopado em sangue; o sol abrasador ardia a pino; uma nuvem de insetos, moscas e maribondos esvoaçavam sobre aquele lugar, e mais longe já pairavam alguns urubus atraídos pelo cheiro da sangueira, que dali se exalava como se fosse um matadouro.

Os rapazes deram um grito de horror, e sentiram os cabelos se entesarem como espetos na cabeça, quando na mulher reconheceram a Maroca e no cadáver o desditoso Reinaldo.

A Maroca nem deu fé da chegada dos cavaleiros, e conservou-se imóvel como uma estátua, sempre com os olhos desvairados fincados sobre aquele corpo ensangüentado.

Chamaram-na pelo nome, sacudiram-na com força para ver se a arrancavam daquele torpor, e se dizia alguma coisa da cena horrorosa que ali se passara. Mas ela apenas olhava para eles como que pasmada, resmungava uns sons ininteligíveis, e tornava a cravar olhos estatelados sobre o cadáver.

E aquela feiticeira menina, ainda nessa madrugada tão linda, tão viva e travessa, agora descabelada, salpicada de sangue, com as feições horrivelmente transtornadas, parecia um fantasma, e causava horror àqueles mesmos que ainda há pouco morriam por um só de seus sorrisos. O espanto, o terror e talvez o remorso tinham fulminado a alma da infeliz rapariga, que caiu em um estado de idiotismo, do qual nada pôde depois arrancá-la.

A pobrezinha tinha também os vestidos e as mãos salpicadas de sangue, e parecia ferida, posto que ligeiramente, em uma ou outra parte do corpo. Sem dúvida naquele trance horrível se lançara entre os combatentes para os separar e se achara envolvida naquela temerosa luta.

Os cavaleiros, à vista do que observaram, concluíram que o combate tinha sido renhido, furioso e desesperado. O corpo de Reinaldo estava todo contuso, cutilado e esfaqueado; na boca e nos dentes, onde espumava um sangue negro, viam-se farrapos de pano, o que indicava que no último trance o infeliz combatera até com os dentes. Tudo enfim revelava que ali se passara uma cena pavorosa, da qual os vestígios mudos, que existiam, falavam mais alto do que toda e qualquer narração.

(continua...)

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