Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Não sou tão alheio às leis da cortesia que me exponha a deixar desalojados e na rua os frades do Carmo, os desembargadores da relação e os presos da cadeia. Os carmelitas trocaram o seu convento do terreiro do Paço pelo hospício dos barbadinhos italianos, na Rua da Ajuda, onde permaneceram até que se extinguiu o seminário de Nossa Senhora da Lapa, para o qual passaram de propriedade.
Os barbadinhos foram ocupar as casas dos romeiros de Nossa Senhora da Glória.
A relação não se achava mais nas suas salas do palácio, quando chegou a família real: tinha-se estabelecido, desde algum tempo, na casa da câmara municipal. Mas dali mesmo teve de retirar-se, alugando-se primeiro, e enfim comprando-se para ela a casa da rua do Lavradio em que até hoje continua a funcionar, e que pertencia a João Marcos Vieira da Silva Pereira, fazendeiro de Campo Grande. Convém lembrar que ainda então não existia, e só muito depois se abriu a rua que tomou o nome da Relação, tribunal que, aliás, em 1808, foi elevado ao grau de Casa da Suplicação do Brasil.
Provavelmente todas estas mudanças incomodaram não pouco aos desalojados. Mas é seguro que aos presos nem sequer um só instante ocupou o espírito e cuidado de um novo asilo. Para eles, porém, tomou-se casa destinada a outros, que, sou capaz de jurar, não lamentaram a perda que sofreram.
Os presos foram removidos para o Aljube, que o bispo D. Francisco Antônio de Guadalupe fizera preparar exclusivamente para reclusão dos eclesiásticos que merecessem uma tal punição.
Quem não mudou de casa em conseqüência da chegada da família real, apesar de pensarem alguns o contrário disso, foi a câmara municipal.
A câmara já tinha deixado a sua casa própria, cedendo-a para a relação e se fora estabelecer naquela parte da casa do Teles que fica na esquina da rua hoje denominada do Mercado. Em conseqüência de um incêndio que chegou a devorar também boa porção do seu arquivo, passou a ocupar uma casa da rua do Rosário, entre as da Quitanda e Ourives, e aí se achava em 1808. Da rua do Rosário, mudou-se para o consistório da igreja do Rosário, onde, em 1824, recebeu as assinaturas de todos os cidadãos que declararam aceitar e querer a constituição oferecida pelo Sr. D. Pedro I. Do consistório da igreja do Rosário, enfim, foi mostrar-se no seu paço no campo hoje da Aclamação.
Dizem que duas mudanças equivalem a um incêndio. E então, quatro? A câmara municipal não esquentava lugar, estava sempre em movimento constante. Desde alguns anos, porém, estabeleceu sua residência definitiva no lugar mencionado, e enfim, está quieta, e tão quieta que parece dormir por uma eternidade.
Mas não penseis, meus bons companheiros de passeio, que somente as repartições, estabelecimentos públicos e religiosos tiveram de fazer mudanças inesperadas e súbitas naquela época. Essas ao menos eram exigidas pela necessidade de hospedar-se mais comodamente a família real, e portanto, efetuavam-se com satisfação geral, sem relutância da parte dos proprietários, sem violência da parte da autoridade, e a um simples convite deste ou com entusiástica espontaneidade daqueles.
Com a família real, porém, chegaram em grande número fidalgos, empregados e criados de todas as ordens, e tantos eram que faltavam casas para receber a todos eles.
Os criados de menor graduação tiveram mesa e ninho na famosa ucharia, que se transformou desde logo em um imenso formigueiro, no pavimento inferior do convento do Carmo que se ligara ao palácio. A ucharia não somente serviu para matar a fome a muitos pobres, mas ainda para encher os cofres de muitos ricos.
Os fidalgos, empregados e criados de outras ordens acharam a sua providência nas muito mais famosas aposentadorias.
Quero em poucas palavras dar-vos uma idéia do que foram as aposentadorias, especialmente em 1808.
Adeus, direito de propriedade!
Não houve habitantes da cidade do Rio de Janeiro que dormisse tranqüilo na sua casa própria, e que acordasse com a certeza de anoitecer debaixo do mesmo teto. Quanto mais bela e vasta era uma casa, mais exposta ficava ao quero absoluto dos privilegiados.
Havia um juiz aposentador.
A aposentadoria era um arranjo de uns à custa de outros, que se executava em cinco tempos:
1º tempo. O privilegiado dirigia-se ao aposentador e dizia-lhe que precisava da casa tal da rua tal;
2º tempo. O aposentador encarregava um meirinho de ir satisfazer o desejo do privilegiado;
3º tempo. Saía o meirinho com um pedaço de giz na mão, e chegando à casa designada escrevia na porta P. R. (Príncipe Regente).
4º tempo. O proprietário ou morador da casa mudava-se em vinte e quatro horas;
5º tempo. O privilegiado aposentava-se e ficava muito à sua vontade.
Esta sem-cerimônia era, na verdade, desesperadora.
Compreende-se que era indispensável tomar providências para
que não ficassem no meio da rua aqueles vassalos fiéis e bons servidores que
tinham acompanhado a família real ao Brasil. Mas entre essa necessidade e os
abusos inauditos que se praticaram sob o pretexto das aposentadorias, havia uma
distância enorme que cumpria ser prudentemente considerada.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.