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#Crônicas#Literatura Brasileira

Alfarrábios: o Ermitão da Glória

Por José de Alencar (1853)

Um anno decorreu porém sem que o tal negocio se concluisse, e ao cabo d'esse tempo começou

a mão do homem a mirrar, a mirrar, até que ficou de todo secca e rija, como si fôra de pedra.

Conhecendo então o mercador que estava sendo castigado por, não haver cumprido a promessa, levou sem mais detença a prata que devia ao Santo; mas este já não a quiz receber, pois ao amanhecer do outro dia achou atirada á porta da igreja a offerenda que ficára sobre o altar.

O mesmo foi da segunda e terceira vtez, ate que o mercador vendo que era sem remissão a sua culpa e devia expial-a, decepou a mão já secca e vinha trazel-a, não só como symbolo do milagre, mas como lembrança do castigo.

Eis o que referiram a Ayres de Lucena.

XIII

AO MAR

Já tinha desfilado a procissão e ficára a rua deserta, que ainda lá estava no mesmo lugar Ayres de Lucena quedo como uma estatua.

Seus espiritos se tinham afundado em um pensamento que os submergia como em um abysmo. Lembrára-se que tambem fizera um voto e ainda não o havia cumprido, dentro do anno que estava quasi devolvido.

Horrorizava-o a idéa do castigo, que talvez já estava imminente. Tremia não por sua pessoa, mas por Maria da Gloria, que a Virgem Santissima ia levar, como S. Miguel seccára a mão que antes havia sarado.

Quando o corsario deu acordo de si e viu onde se achava, correu á praia, saltou na primeira canôa de pescador, e remou direito para a escuna, cujo garboso perfil se desenhava no horizonte illuminado pelos arrebóes da tarde.

— Prepara para largar! Leva ancora!... gritou elle apenas pisou no tombadilho.

Acudiu a maruja á manobra com a presteza do costume e aquelle fervor que sentia sempre

que o commandante a conduzia ao combate.

No dia seguinte ao amanhecer tinha a escuna desapparecido do porto, sem que houvesse noticia d'ella, ou do destino que levára.

Quando em casa de Duarte de Moraes soube-se da nova, perderam-se todos em conjecturas ácerca d'essa partida subita, que nada explicava; pois não havia indicios de andarem pichelingues na costa, e nem se falava de qualquer expedição contra aventureiros que por ventura se tivessem

estabelecido em terras da colonia.

Maria da Gloria não quiz acreditar na partida de Ayres, e tomou por gracejo a noticia.

Afinal rendeu-se á evidencia, mas convencida de que ausentára-se o corsario por alguns dias, sinão horas, no impeto de combater algum pirata e não tardaria voltar.

Succederam-se porém os dias, sem que houvesse novas da escuna e de seu commandante. A esperança foi murchando no coração da menina, como a flôr crestada pelo frio, e afinal desfolhou-se.

Apagára-se-lhe o sorriso dos labios, e o brilho dos lindos olhos empanou-se com o soro das lagrimas choradas em segredo.

Assim foi se finando de saudades pelo ingrato que a tinha desamparado levando-lhe o coração.

Desde muito que a gentil menina estremecia o cavalheiro; e d'ahi nascêra o sossobro que sentia em sua presença. Quando a cruel enfermidade assaltou-a, e que ella prostrada no leito, teve consciencia de seu estado, o primeiro pensamento foi pedir a Nossa Senhora da Gloria que não a deixasse morrer, sem dizer adeus áquelle por quem sómente quizera viver.

Não só ouvíra seu rogo a Virgem Santissima, como a restituíra á vida e ternura do querido de sua alma. Este era o segredo da novena que se tinha feito logo depois do seu restabelecimento. A afflicção de Ayres durante a molestia da menina, os desvelos que mostrava por ella, ajudando Ursula na administração dos remedios e nos incessantes cuidados que exigia a convalescença, mas principalmente, a ingenua expansão d'alma, que em crises como aquella, se desprende das miserias da terra, e paira em uma esphera superior:

tudo isso rompêra o enleio que havia entre os dois corações, e estabelêcera uma doce correspondencia e intimidade entre elles.

N'esse enlevo de querer e ser querida, vivera Maria da Gloria todo o tempo depois da molestia. Qual não foi pois o seu desencanto quando Ayres se partiu sem ao menos dizer-lhe adeus, e quem sabe si para não mais voltar.

Cada dia que volveu foi para ella o supplicio de uma esperança a renascer a cada instante para morrer logo apoz no mais cruel desengano.

Cêrca de um anno era passado, e em S. Sebastião não havia novas da escuna Maria da Gloria.

Para muita gente passava como certa a perda do navio com toda a tripolação; e em casa de Duarte de Moraes já se trazia luto pelo amigo e protector da familia.

Maria da Gloria porém tinha no coração ura presentimento de que Ayres ainda vivia., embora longe d'ella, e tão longe que nunca mais o pudesse ver n'este mundo.

Na crença do povo miudo o navio do corsario andava no oceano encantado por algum genio do mar; mas havia de apparecer quando quebras-, se o encanto: o que tinha de succeder pela intrepidez e arrojo do destemido Lucena.

Essa versão popular ganhou mais força com os contos da maruja de um navio da carreira das Indias, que fazia escala em S. Sebastião, vindo de Gôa.

(continua...)

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