Por Martins Pena (1845)
Virgínia e Clarice à direita, e Bolingbrok e John à esquerda, e em distância.)
John (tossindo) — Hum, hum!
Bolingbrok (tossindo) — Hum, hum! (As duas sorriem-se.)
John — O dia hoje está fresco...
Bolingbrok — Está bonita dia...
John — E creio que teremos chuva...
Bolingbrok — Muita chuva; a tempo está perturbada...
Virgínia (sorrindo-se) — Bem vejo que está perturbado.
Clarice (desatando a rir) — E muito... Ah, ah!
Bolingbrok — Oh!
John — Enfim, senhoras, temos a felicidade de vos falar sem testemunhas.
Bolingbrok — E de nos achar junta de vós.
John — E esse obséquio fez-se tanto esperar!
Bolingbrok — Yes... Mim estava sequiosa para vos ver.
Clarice — Sequioso? Quer um copo de água com açúcar?
Bolingbrok — No, no. I thank you.
Clarice — Não faça cerimônia... Parece-me tão alterado.
Bolingbrok (levantando-se) — No quer! Oh!
John (levantando-se) — Senhoras, este cerimonial muito pesa depois de tão longa ausência. Não seria melhor deixarmos de lado estes modos polidos, reservados, e falarmos sinceramente?
Virgínia (levantando-se) — Como quiserdes, mas lembrai-vos das condições mediante as quais vos concedemos esta entrevista — nem uma palavra sobre o passado.
John — Recusais ouvir a nossa justificação?
Bolingbrok — Oh, não dá orelha a nós?
John — Se temos culpa, vós também a tendes.
Virgínia — Nós, senhor?
Bolingbrok — Yes.
John — Sem dúvida! Abandonar-nos!...
Virgínia (com gravidade) — Senhores, vós pensastes que depois de nos enganar cruelmente, sujeitar-nos-íamos, de boa vontade, a ser vossas escravas? Muito vos iludistes! Felizmente recobramos a nossa liberdade, e estamos resolvidas a não sacrificá-la de novo.
Clarice — O vosso proceder foi uma traição indigna.
Bolingbrok — My Clarice!
John — Virgínia, nunca me amaste...
Virgínia — Mas convenha que muito pouco foi feito para alcançar o meu amor.
Clarice — Basta; deixemos de recriminações. Os senhores farão o obséquio de jantarem conosco.
Bolingbrok (contente) — Oh, by God!
John (contente) — É isto para nós de grande satisfação.
Bolingbrok (à parte, para John) — Elas inda gosta de nós, John. (Alto, e muito risonho:) Eu está muito satisfeita, muito contente janta com vós. Ah, ah, ah!
Virgínia — Henriqueta, nossa amiga, jantará conosco.
Bolingbrok — Henriqueta, mulher de Jeremias? Jeremias está traidor.
Clarice — Jeremias é uma pessoa de nossa amizade.
Bolingbrok — Oh, pardon! Então é minha amiga.
Virgínia — Um favor que lhe quisera eu pedir...
John — Ordenai.
Virgínia — Henriqueta gosta muito de empadas e pão-de-ló; se quisesse ter a bondade de ir ali à confeitaria e comprar...
John — Oh!
Virgínia — Como? Não quereis?
John — Eu vou, eu vou. (Sai apressado.)
Clarice — Se eu achasse quem quisesse ir comprar alface para salada...
Bolingbrok — Eu vai, Miss, eu vai.
Clarice — Quer ter esse incômodo?
Bolingbrok — Incômodo não; dá prazer, basta, eu faz... Eu compra alface, batata, repolha e nabos; eu traz tudo... Está muito satisfeita. Eu volta. (Sai.)
CENA V
Virgínia, Clarice e Henriqueta. Virgínia e Clarice, logo que Bolingbrok sai, caem assentadas nas cadeiras e riem-se às gargalhadas.
Henriqueta (entrando) — O que é? De que se riem? Que é deles?
Virgínia (rindo-se) — Ah, ah, ah! Isto é delicioso!
Clarice (rindo-se) — Ah, ah, ah! É magnífico!
Henriqueta — Acabem de rir, e digam-me o que é.
Clarice — O meu ex-marido foi comprar alfaces e couves...
Virgínia — E o meu, empadas e pão-de-ló. Ah, ah!...
Henriqueta — Eles mesmos? Tão orgulhosos como são?
Virgínia — Pois então? É que o caso mudou de figura. Na Bahia nem queriam carregar o nosso chapelinho-de-sol.
Clarice — E agora carregarão tudo quanto quisermos.
Henriqueta — Assim são os homens... Ou mansos cordeiros quando dpendem, ou bravios leões quando nos governam. Ah, se não precisássemos deles...
CENA VI
Jeremias e os meninos. Jeremias virá vestido muito ordinariamente.
Jeremias — Viva!
Virgínia e Clarice — Sr. Jeremias!
Jeremias — Como passam?
Virgínia e Clarice — Bem.
Henriqueta — Que fazes tu por aqui a estas horas?
Jeremias — Vim falar com estas senhoras.
Virgínia — Conosco?
Jeremias — Nem mais, nem menos.
Clarice — E para quê?
Jeremias — Seu pai encarregou ao seu procurador estes papéis. (Mostra-lhe uns papéis.) É o auto de anulação do vosso casamento com os meus amigos ínglis. O procurador, porém, que é um procurador muito procurado e tem muito que fazer, encarregou-me de dar andamento aos papéis. Não sei se já tive a distinta de lhes participar que dpois que não soube dirigir o que era meu, trato de negócios dos outros...
Clarice — Já sabemos, que no-lo disse Henriqueta.
Jeremias — Muito bem. Recebi os papéis, e lançnado os olhos sobre eles, li os vossos nomes, o dos nossos caríssimos amigos e a causa de toda a barulhada, e disse cá com os meus botões: isto pode ser maroteira do velho Narciso das Neves, e ainda vejo aqui a assinatura de suas filhas, não façamos nada sem consultá-las...
Pus-me a caminho e eis-me aqui.
Virgínia — Muito lhe agradecemos.
Jeremias — Não há de quê.
Henriqueta — És
um excelente rapaz.
(continua...)
PENA, Martins. As Casadas Solteiras. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17001 . Acesso em: 28 jan. 2026.