Por José de Alencar (1857)
Ernesto— Nove contos! Sou rico! Tenho dinheiro para vir ao Rio de Janeiro, ainda que meu pai não consinta.
Teixeira — Agora vai gastá-los em extravagâncias!
Ernesto — Pois não! Servirão para me estabelecer aqui; montar minha casa. Quero uma linda casinha como esta, um retiro encantador, onde a vida seja um sonho eterno! (A Júlia, baixo) Onde recordaremos os nossos três meses de felicidade!
Teixeira — Vamos; despacha este homem.
Ernesto — Tome, meu tio; tome o bilhete e arranje isto como entender. V.Mcê. me guardará o dinheiro.
(Teixeira e Filipe saem; Teixeira examina o bilhete).
Júlia (a Ernesto) — Como a felicidade vem quando menos se espera! Há pouco tão tristes!
Ernesto — É verdade! E se soubesse como isto me caiu do céu! Nem me passava pela idéia semelhante coisa, quando este homem começou a importunar-me de tal maneira, que tomei-lhe o bilhete para ver-me livre da maçada. É só a ele que devo a fortuna.
Júlia (sorrindo) — Eis então mais uma vantagem do Rio de Janeiro.
Ernesto (sorrindo) — Tem razão!
Teixeira (a Filipe, dando-lhe dinheiro) — Tome; como alvíssaras, basta.
Filipe — Obrigado! (Desce a cena, a Ernesto) Então, um meio, um inteiro, um quarto? Enquanto venta, molha-se a vela.
Ernesto — Agradeço; não sou ambicioso. Quero deixar a sorte grande também para os outros.
Filipe — E a senhora? E a Sra. e o Sr.?... Um meio?... Tenho justamente o número premiado.
Teixeira — Nada, nada; já compramos!
Filipe — As suas ordens. (Sai)
CENA XVI
Teixeira, Ernesto, Júlia
Teixeira — Ora, enfim, vamos almoçar.
Ernesto — Espere, meu tio, tenho urna palavra a dar-lhe.
Teixeira — Pois então já; uma palavra custa pouco a dizer.
Ernesto (baixo, a Júlia) — Sim! Porém, a mim custa mais do que um discurso!
Júlia (baixo a Ernesto) — Que vai fazer? Ao menos deixe-me retirar.
Ernesto (baixo, a Júlia) — Para quê?
Júlia (baixo, a Ernesto) — Morro de vergonha.
Teixeira — Então? a tal palavra? Estão combinados? Tu sabes o que é, Júlia?
Júlia (vexada) — Eu, papai!... Não, Sr.
Teixeira — Ora, tu sabes! Ficaste corada.
Júlia — Foi porque Ernesto riu-se.
Teixeira (a Ernesto) — Falas ou não?
Ernesto — Tenho a palavra aqui atravessada na garganta! Lá vai!
Teixeira — Ainda bem! O que é?
Ernesto — Escute, meu tio. Eéééé...
Teixeira — É...
Ernesto — Queêêêê....
Teixeira — Já vejo que é preciso ajudar-te! É que...
Ernesto — Euuu... (Júlia faz sinal que não..) Quero...
Teixeira — Ah! Queres brincar? Pois não estou para te aturar. (Sobe)
CENA XVII
Os mesmos, D. Mariana, depois Pereira
D. Mariana (entrando) — Então, por quem se espera? São quase dez horas.
Teixeira — Vamos, D. Mariana.
Ernesto (a Júlia, baixo) — Está tudo perdido.
Pereira — Permitam o ingresso. O Sr. Teixeira?
Teixeira — Um seu criado. O que pretende o Sr.?
Pereira — Tomei a liberdade de oferecer a V.EX.a esta minha produção poética por ocasião do fausto motivo que enche hoje esta casa de júbilo.
Teixeira — Não tenho excelência; nem o compreendo. Queira explicar-se.
Pereira — Com muito gosto. A minha veia poética inspirou-me este epitalâmio que ofereço ao doce himeneu, às núpcias venturosas, ao feliz consórcio da senhora sua filha com o senhor seu sobrinho. (Espanto geral).
Júlia (escondendo o rosto) — Ah!...
Ernesto — Bravo!
D. Mariana — Calúnias, Sr. Teixeira!
Teixeira — O consórcio de minha filha com meu sobrinho!... O senhor está louco!
Pereira (a Teixeira) — É verdade que alguns espíritos mesquinhos chamam os poetas de loucos, porque não os compreendem; mas V.Ex.a não está neste número. Teixeira — Entretanto, o senhor vem com um despropósito! Onde ouviu falar de casamento de minha filha?
Pereira — Há muito tempo sabia que o senhor seu sobrinho e a senhora sua filha se amam ternamente...
Teixeira (olhando Júlia e Ernesto, cabisbaixos) — Se amam ternamente!... (A Pereira) E que tem isto? Quando mesmo fosse verdade, é natural; são moços, são primos...
Pereira — Por isso, sendo hoje um sábado, e não tendo V.Ex.a ido à Praça, conjeturei que as bodas, a feliz união dos dois corações...
Teixeira conjeturou mal; e para outra vez seja mais discreto em não intrometer-se nos negócios de família.
Pereira — E a poesia? V.Ex.a não a recebe?
Teixeira — Leve a quem a encomendou; ele que lhe pague! (Voltando-lhe as costas)
Ernesto (baixo, a Pereira) — É justo que seja eu que aproveitei. O senhor não sabe o serviço que me prestou. (Dando-lhe um bilhete) Tome e safe-se quanto antes.
Pereira — Entendo!
Ernesto (a Júlia e D. Mariana) — Sublime raça que é esta dos poetas! Sem o tal Sr. Pereira ainda estava engasgado com a palavra, e ele achou uma porção de sinônimos: consórcio, feliz união, bodas, núpcias, himeneu e não sei que mais...
Pereira (a Teixeira) — Peço a V.Ex.a queira desculpar.
Teixeira — Está bom, Sr., não falemos mais nisto.
Pereira — Passar bem. (Sai)
CENA XVIII
Teixeira, Ernesto, Júlia, MARIANA, depois Custódio (Teixeira acompanha Pereira que sai pelo fundo).
Júlia (a D. Mariana) — Não tenho ânimo de olhar para meu pai!
D. Mariana — Ele não foi moço? Não amou? (Teixeira desce).
Ernesto —
Aí vem o temporal desfeito.
(continua...)
ALENCAR, José de. Verso e Reverso. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16680 . Acesso em: 28 jan. 2026.