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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

A moça tinha o mesmo traje de amazona que no domingo passado; mas em vez de serem de camurça amarela as luvas eram de peau de Suède cor de castanha e o chapéu de palha arroz com um véu branco. Salvas essas ligeiras modificações do vestuário, que naturalmente escaparam aos olhos do moço, era a cópia viva do quadro, que lhe aparecera à borda do caminho, oito dias antes. A moldura sim, era diferente; os florões dourados dos corimbos da aroeira foram substituídos pela negra e musgosa cercadura do rochedo. 

Os olhos de Guida e Ricardo se encontraram. 

Reconhecendo-a, o moço envolveu-a com o olhar, um desses olhares ardentes e profundos, que embebem em si os objetos, como um molde, para depois vazá-los dentro d’alma. Olhar de poeta ou de artista, que esculpe na memória estátuas, os relevos e arabescos da natureza; donde os copia depois a imaginação em poemas, em harmonias, em raios de luz. Esse olhar tem alguma coisa do cinzel que talha, e da lava ardente que se coalha e vitrifica sobre os objetos. Guida, que trazia nos lábios o sorriso gracioso, perturbou-se, e desviou a vista corando. Pareceu-lhe descobrir naquela expressão estranha do olhar de Ricardo uma exprobração pela cena do domingo anterior. 

Conhecendo que tinha vexado a moça, Ricardo arrependeu-se do seu movimento de curiosidade artística. Da última vez que estivera na Tijuca desenhara de memória a cena do seu primeiro encontro com Guida; julgou porém impossível dar à figura da moça os traços da fisionomia encantadora, que ele apenas vira tão de relance. Oferecendose essa ocasião de ver Guida de mais perto e demoradamente, quis decorar-lhe as feições. 

A delicadeza d’alma do advogado compreendera o acanhamento da moça, embora o atribuísse a causa diferente. Por isso cuidou em afastar-se dali. Fazendo o “Galgo” voltar sobre os pés, cortejou de longe e subiu na direção da Floresta. 

Durante esta rápida cena, Mrs. Trowshy, enlevada diante da cascata, não cessava de expandir a sua admiração em exclamações patéticas, semelhantes às que lhe ouvimos em princípio. A poética imaginação da inglesa quis infundir um raio do seu entusiasmo no companheiro, o nosso conhecido Sr. Daniel; mas perdeu seu tempo: o português era feito de músculo e osso; por conseguinte impenetrável à poesia, como um capote de borracha é impenetrável á água. 

Foi no momento de afastar-se, que a inglesa reparou no moço: 

- Este não é o sujeito que ia matando Sofia? perguntou em inglês. 

- Creio que é! 

- Que monstro! exclamou Mrs. Trowshy, com o horror que lhe inspiraria um tigre. 

- Ele não teve culpa. Depois é que vi; podia o cavalo atirar-se no despenhadeiro. 

- Era bem feito; para que anda em um cavalo tão fogoso? 

- Mas é muito bonito! Não acha, Mrs. Trowshy?

- Oh! Não tem comparação com “Edgard”! 

- “Edgard” é um cavalo de preço, um cavalo de raça; tem a estampa mais vistosa e elegante; porém acho o outro mais bonito! Olhe a graça dos movimentos. Como é vivo e faceiro! Como brinca! Está-se vendo a alegria nos seus olhos, e no garbo com que move o pescoço. 

Guida falava seguindo com o olhar o “Galgo” que subia o primeiro lanço da escada. 

- Se não possuísse esse lindo isabel, havia de achá-lo magnífico! 

- Ora, Mrs. Trowshy! Não é por isso. Acho “Edgard” esplêndido, incomparável: tudo que a senhora quiser; mas não gosto desta frieza; um cavalo que não sabe brincar, sempre grave e empertigado como um ministro em audiência.

- Dobrando o segundo lanço da estrada em ziguezague, viu Ricardo que a moça tomava a mesma direção; naturalmente ia como ele até a Floresta, ou mais acima ao pico da montanha que tem a forma e o nome de Bico do Papagaio. 

Essa coincidência incomodou o jovem advogado. Por quê? Se tivesse de explicar, naturalmente não lhe acudiria a razão e por uma circunstância muito simples, porque não existia. Com efeito não fora um motivo distinto, suscetível de apreciação, o que atuara em seu espírito; porém unicamente certas repugnâncias que às vezes despertam em nosso espírito a respeito de um fato. É uma espécie de antipatia. 

A possibilidade de sucessivos encontros, a facilidade de se verem de longe, subindo os lanços da estrada em ziguezague e, finalmente, essa comunidade de passeio, embora fortuita, todas essas circunstâncias confusas, indistintas, calaram no ânimo de Ricardo uma súbita contrariedade. Refletiu que a Floresta era distante, e, a não ir de corrida, chegaria tarde para o almoço; ora, passear, para ele, não era correr e sim contemplar. 

O resultado dessas reflexões foi apear-se o advogado e puxar o cavalo para uma vereda que vai ter ao cimo da cascata. Aí oculto pela folhagem ouviu o tropel dos animais que passavam. Quando presumiu que já estivessem bem longe, tornou a cavalgar, e descendo o caminho da Cascatinha, foi acabar o seu passeio interrompido na bela estrada que vai ter ao Jardim Botânico. 

(continua...)

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