Por José de Alencar (1861)
Miranda — Decerto; devemo-nos todos à pátria e à humanidade. Mas, acredita-me, a primeira ocupação e a mais séria do homem é a sua felicidade doméstica. Não há neste mundo mais sagrado sacerdócio do que seja o do pai de família; ele assemelha-se ao Criador, não somente quando reproduz a sua criatura, mas quando desses anjos (entra Rita com IAIÁ) que Deus lhe envia, ele prepara as futuras mães e os futuros cidadãos. É só depois de cumprida esta santa missão, que temos o direito de dar a outros misteres as sobras da nossa alma.
Henrique — Não haverá exageração nesse modo tão exclusivo de considerar a família, sobretudo no século em que vivemos, meu tio?
Miranda (confuso) — É possível. Fui daqueles que se deixaram arrastar pela vertigem; felizmente esbarrei a tempo; mas, por isso mesmo talvez influa em mim o perigo que ameaçou a minha felicidade.
Henrique — Mas hoje nada a perturba?
Miranda — Nada.
Henrique — Quanto isso me alegra! E eu disse que não sabia se eu era feliz. Posso não sê-lo, vendo-o cercado de todas as venturas, e coberto das glórias conquistadas na política?
Miranda — Quando te brotarem essas vergônteas, Henrique, (mostra Iaiá que tem nos braços) então me hás de compreender; terás uma alma nova saída da refusão da alma velha; é a alma do pai.
Henrique — Como está bonita, Iaiá! Então já não conhece o primo Henrique?
CENA XIII
Os mesmos, Rita, IaIá e Joaquim
Joaquim — O almoço está pronto.
Miranda (para Henrique) — Vai almoçar, é tarde. Não te há de faltar apetite.
Henrique — E meu tio, não vem?
Miranda — Já tomei alguma cousa.
Henrique — Até já. (Sai)
Miranda (senta-se com a menina no colo) — Então, minha filha, passeou muito? Estava bonito o passeio? Por que não convidou Mamãe? Olhe! sempre que Iaiá for passear, há de convidar Mamãe, sim?
Rita — Sinhá não quer sair nunca, por mais que eu lhe diga...
Miranda — Agora como Clarinha está aqui...
Rita — Ah! Nhanhã D. Clarinha chegou?
Miranda — Pode ser que ela a acompanhe. Se precisar de alguma cousa... Talvez os vestidos já não estejam bons.
Rita — Estão novinhos em folha no guarda-roupa.
Miranda — Naturalmente porque não são do gosto dela. Também tu não lhe perguntas o que ela deseja.
Rita — Sinhá acha tudo bom! Tudo lhe agrada mas não quer que se compre...
Aquelas jóias, meu Senhor não sabe ainda, estão por abrir.
Miranda — Não teve a curiosidade de vê-las?
Rita — Viu, sim, Senhor, e achou muito bonitas. Mas de que serve?... Ninguém vê
Sinhá com elas. Estão guardadas. Diz que hão de ser para Iaiá quando ficar moça. (Pausa. Miranda brinca com a menina)
Miranda — Quem sabe se ela não está aborrecida do Rio de Janeiro. Talvez deseje fazer uma viagem, ir à Europa; e não me diz por acanhamento.
Rita — Qual, meu Senhor.
Miranda — Nunca a ouviste falar nisto?
Rita — Nunca, não, Senhor!
Miranda — Mas é preciso que faças com que tua Senhora se divirta um pouco. Ela anda muito triste e muito abatida: não tem distração!
Rita — Nem uma mesmo. Ela não quer sair: também aqui ninguém vem, senão quando meu Senhor...
Miranda — Basta! Não te perguntei por isso. (Amimando a menina que tira o chapéu) Não desmanche os seus cachos! Quem foi que penteou Iaiá? Foi Rita? Não. Foi Mamãe? Foi! E quem vestiu?... Também foi Mamãe? (A RITA) Outra cousa! Por que deixas que tua Senhora se mate a coser a roupa de Iaiá? Não tem vindo constantemente roupa feita da casa da Cretin?
Rita — Sinhá não quer! Diz que isso é o seu divertimento!...
Miranda — O que é, minha filha? (Entra Isabel sem ser vista) Quer Rita?... Não.
Rita — É o brinquedo!
Miranda — Ah! Iaiá trouxe o seu brinquedo!... Quer que dê corda?... Muito bonito!... Quem deu a Iaiá?... Quem?... Senhor... diga... diga no ouvido do Papai!...
Rita — Foi aquele moço que encontramos na rua... Não se lembra... que beijou Iaiá... Senhor Sales.
Miranda — Senhor Sales... Ah! Foi ele!... (Afastando a menina)
CENA XIV Miranda e Isabel
Miranda (voltando-se, vê Isabel) — Senhora! Eu lhe suplico! Uma dúvida horrível!
Isabel — Oh! Por piedade!
Miranda — Esta menina...
Isabel — Cale-se!... não vê que me está matando?
Miranda — É... É minha?...
Isabel — Eu sou pura, Senhor! Juro!
Miranda (respira) — Ah!... (Angustiado) Mas que vale o juramento de quem esqueceu o mais santo!...
ATO TERCEIRO Na casa de Henrique, em Petrópolis.
CENA PRIMEIRA
Isabel, Clarinha, Siqueira e Sales
(Sales entra quando os outros têm chegado do passeio. Formam-se dois grupos separados Clarinha e Sales — Isabel e Siqueira).
Sales — Como andam depressa!... Desde Vila Teresa que os sigo sem poder alcançar. Minha Senhora. (Cumprimenta Isabel)
Clarinha — Ora! Por que tomou tanto incômodo!
Sales — Permite que lhe ofereça estas flores?
Clarinha — O meu médico não permite, não, Senhor: fazem-me dor de cabeça!
Sales — À vista disso condeno-as à prisão. (Esconde no peito)
Clarinha — Era melhor que lhes desse a liberdade!
Isabel — O passeio fatigou-me.
Siqueira — Então já viste o lucro que se tira da política?
Isabel — Fala comigo, meu pai?
Siqueira — Não leste o jornal de ontem?
Isabel — Não, já veio?
Siqueira — Estava sobre a mesa. Traz uma correspondência bem forte contra Augusto. Entre outras cousas, diz que ele esbanjou a sua fortuna e de tua filha, e foi obrigado a vender quanto tinha para pagar dívidas de jogo.
Isabel — Mas, é
uma calúnia, meu pai.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Que é o Casamento?. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16678 . Acesso em: 27 jan. 2026.