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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

— Mais dura é a miséria, filho, que já calejou-me a alma. Não se teme da iniquidade dos homens quem se entregou nas mãos de Deus. 

— Faz o que te peço, Jó; afasta-te dêstes sítios ao menos por alguns dias, até esquecer o perigo por que passou a casa com seus moradores. 

— Eu sou o peregrino da morte, Arnaldo; quantas vezes já to hei dito! Ando em romaria após ela, que fugiu-me sempre até êste momento. E quando enfim me sai ao encontro, posso eu voltar-lhe o rosto e arredar-me para longe? Não o farei de-certo; nem tu o exigirás.

— Não o exijo por ti, senão por mim. 

— Também por tua causa, não devo demorar-me neste mundo, onde estou roubando-te uma parte dos pensamentos cuidados dessa mocidade, que merece melhor destino. Não vês como tombam na mata os troncos velhos e carcomidos para deixar que remontem-se os jovens e robustos madeiros? 

— Não me entendeste, Jó; quando te rogo por amor de mim, é porque se ficares aquí, e da fazenda te vierem buscar, achar-me-ão primeiro.

— Não farás isto. 

— Enquanto eu vivo, ninguém te ofenderá, juro-o pelas cinzas de meu pai. Ninguém, ainda que seja o capitão-mór em pessoa! 

O mancebo pronunciou estas palavras com uma articulação enérgica; mas logo após súbita emoção lhe ofuscou a voz. 

— E tu sabes que o capitão-mór é a sombra de meu pai neste mundo. O ancião ergueu-se pronto: 

— Caminha, Arnaldo; eu te seguirei aonde fores. 

— Não sairás assim por teu pé, que deixarias o rumo para te buscarem. 

Proferindo estas palavras o mancebo cingiu os rins do velho com os braços e carregou-o aos ombros por um largo trato até dentro da mata e o pousou em uma cepa de gameleira. 

Tornou então atrás, cortou uma palma de carnaúba que esgarçou com a faca, e entrou na cabana, onde apagou os rastos que aí tinham deixado seus passos. 

Para conseguí-lo, sassara a poeira, prurindo sutilmente o chão com os folíolos da palha verde, de modo que a terra parecia intacta de qualquer vestígio e apenas ao de leve frisada pelo sôpro da viração. 

Concluída a tarefa dentro, saíu fora, andando sempre de costas e expungindo do caminho pelo mesmo processo não somente o rasto que agora ia deixando, como os anteriores. 

Chegou assim ao sítio onde ficara o velho, o qual em completa contradição com a sua tenacidade recente, deixava-se conduzir como uma criança dócil e submissa. 

Carregou-o outra vez Arnaldo aos ombros, e desta vez levou-o até um bamburral espêsso e impenetrável, que embrenhava as fragas alcantiladas de um grupo de penhascos. 

Mergulhando por baixo dessa espessura, em um ponto onde mais fechada se mostrava, o sertanejo surdiu ao cabo de algumas braças em uma fenda de rochedo, que formava a bôca de uma gruta. 

A poucos passos, achou-se em uma cripta aberta na rocha viva, e que recebia a claridade de estreitas fisgas da lapa côncava que lhe servia de abóbada. 

O sertanejo triscou fogo e acendeu um rôlo de cera amarela guardado numa grêta da pedra. 

A um canto via-se no chão a cama feita de um couro de boi em cabelo, servindo-lhe de cabeceira a armação dos chifres do mesmo animal presos à caveira. 

Da parede granítica da caverna pendia uma canastrinha também de couro de boi em cabelo, como ainda hoje se usam no sertão, e chamam-se bruacas. 

— Aí está a cama, e aquí dentro as provisões, disse Arnaldo. Prometes não sair dêste retiro enquanto não passar o perigo, Jó? 

— Vai em paz, filho. Estou bem aquí; e como não estaria, se essa é já meia sepultura, que me começa a enterrar em vida? Guarde-te Deus! 

Arnaldo não se demorou na gruta senão o tempo necessário para instalar o novo habitante dêsse eremitério. Uma vez fora, desandou o caminho percorrido, desvanecendo todo o indício de sua passagem até o ponto onde havia deixado o seu cavalo, que o esperava sem nenhuma impaciência, remoendo um abrôlho mais novo de mandacarú. 

Cavalgou e afastou-se, não deixando após si o mínimo traço de sua ida à choça do velho Jó. Se alguém se lembrasse de rasteá-lo, não descobriria senão que passara a cavalo pela várzea na direção das vertentes. 

— Amanhã nos entenderemos, Aleixo Vargas; disse entre si o moço sertanejo. 

E buscou no recôndito da floresta a sua malhada favorita. Era esta um jacarandá colossal, cuja copa majestosa bojava sôbre a cúpula da selva como a abóbada de um zimbrório. 

Alí costumava o sertanejo passar a noite ao relento, conversando com as estrêlas, e a alma a correr por êsses sertões das nuvens, como durante o dia vagava êle pelos sertões da terra. 

É êste um dos traços do sertanejo cearense; gosta de dormir ao sereno, em céu aberto, sob essa cúpula de azul marchetado de diamantes, como não a têm nos mais suntuosos palácios. 

Aí, no meio da natureza, sem muros ou tetos que se interponham entre êle e o infinito, é como se repousasse no puro regaço da mãe pátria, acariciando pela graça de Deus, que lhe sorrí na luz esplêndida dessas cascatas de estrêlas. 

(continua...)

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