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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

A fisionomia deste homem tinha, quer pela sagacidade inquieta que era a sua expressão ordinária, quer pelos seus traços alongados, uma certa semelhança com o focinho da raposa, semelhança que era ainda mais aumentada pelo seu trajo bizarro. Trazia sobre o gibão de belbutina cor de pinhão uma espécie de véstia do pêlo daquele animal, do qual eram também as botas compridas, que lhe serviam quase de calções. 

— Em que o negues, Aires Gomes, dizia o fidalgo ao seu escudeiro, medindo a passos lentos o terreno; estou certo que és do meu parecer. 

— Não digo de todo que não, sr. cavalheiro; confesso que D. Diogo cometeu uma imprudência matando essa índia. 

— Dize uma barbaria, uma loucura!... Não penses que com ser meu filho, o desculpo!

— Julgais com demasiada severidade. 

— E o devo, porque um fidalgo que mata uma criatura fraca e inofensiva, comete uma ação baixa e indigna. Durante trinta anos que me acompanhas, sabes como trato os meus inimigos; pois bem, a minha espada, que tem abatido tantos homens na guerra, cair-me-ia da mão se, num momento de desvario, a erguesse contra uma mulher. 

— Mas é preciso ver que casta de mulher é esta, uma selvagem... 

— Sei o que queres dizer; não partilho essas idéias que vogam entre os meus companheiros; para mim, os índios quando nos atacam, são inimigos que devemos combater; quando nos respeitam são vassalos de uma terra que conquistamos, mas são homens! 

— Vosso filho não pensa assim, e bem sabeis que os princípios que lhe deu a Sra. D. Lauriana... 

— Minha mulher!... replicou o fidalgo com algum azedume. Mas não é disto que discorríamos. 

— Sim; faláveis dos receios que vos inspirava a imprudência de D. Diogo.

— E que pensas tu? 

— Já vos disse que não vejo as coisas tão negras como vós, Sr. D. Antônio. Os índios vos respeitam, vos temem, e não se animarão a atacar-vos. 

— Digo-te que te enganas, ou antes que procuras enganar-me. 

— Não sou capaz de tal, sr. cavalheiro! 

— Conheces tão bem como eu, Aires, o caráter desses selvagens; sabes que a sua paixão dominante é a vingança, e que por ela sacrificam tudo, a vida e a liberdade. 

— Não desconheço isto, respondeu o escudeiro. 

— Eles me temem, dizes tu; mas desde o momento em que se julgarem ofendidos por mim, sofrerão tudo para vingar-se 

— Tendes mais experiência do que eu, sr. cavalheiro; mas queira Deus que vos enganeis. 

Voltando-se na beira da esplanada para continuarem o seu passeio, D. Antônio de Mariz e o seu escudeiro viram um moço cavaleiro que atravessava pela frente da casa. 

— Deixa-me, disse o fidalgo a Aires Gomes; e pensa no que te disse; em todo o caso que estejamos preparados para recebê-los. 

— Se vierem! retrucou o teimoso escudeiro afastando-se.  

D. Antônio dirigiu-se lentamente para o moço fidalgo que se havia sentado a alguns passos. Vendo aproximar-se seu pai, D. Diogo de Mariz ergueu-se e descobrindo-se esperou-o numa atitude respeitosa. 

— Sr. cavalheiro, disse o velho com um ar severo, infringistes ontem as ordens que vos dei.

— Senhor... 

— Apesar das minhas recomendações expressas, ofendestes um desses selvagens e excitastes contra nós a sua vingança. Pusestes em risco a vida de vosso pai, de vossa mãe e de homens dedicados. Deveis estar satisfeito de vossa obra. 

— Meu pai!... 

— Cometestes uma ação má assassinando uma mulher, uma ação indigna do nome que vos dei; isto mostra que ainda não sabeis fazer uso da espada que trazeis à cinta. 

— Não mereço esta injúria, senhor! Castigai-me, mas não rebaixeis vosso filho. 

— Não é vosso pai que vos rebaixa, sr. cavalheiro, e sim a ação que praticastes. Não vos quero envergonhar, tirando essa arma que vos dei para combater pelo vosso rei; mas como ainda não vos sabeis servir dela, proíbo-vos que a tireis da bainha ainda que seja para defender a vossa vida. 

D. Diogo inclinou-se em sinal de obediência. 

— Partireis brevemente, apenas chegar a expedição do Rio de Janeiro; e ireis pedir a Diogo Botelho que vos dê serviço nas descobertas. Sois português, e deveis guardar fidelidade ao vosso rei legitimo; mas combatereis como fidalgo e cristão em prol da religião, conquistando ao gentio esta terra que um dia voltará ao domínio de Portugal livre. 

— Cumprirei as vossas ordens, meu pai. 

— Daqui até então, continuou o velho fidalgo, não arredareis pé desta casa sem minha ordem. Ide, sr. cavalheiro; lembrai-vos que tenho sessenta anos, e que vossa mãe e vossa irmã breve carecerão de um braço valente para defendê-las, e de um conselho avisado para protegê-las. 

O moço sentiu as lágrimas borbulharem nos olhos, mas não balbuciou uma palavra; curvou-se e beijou respeitosamente a mão de seu pai. 

D. Antônio de Mariz, depois de olhá-lo um momento com uma severidade sob a qual transpareciam os assomos do amor de pai, voltou pelo mesmo caminho e ia continuar o seu passeio quando sua mulher apareceu na soleira da porta. 

D. Lauriana era uma senhora de cinqüenta e cinco anos; magra, mas forte e conservada como seu marido; tinha ainda os cabelos pretos matizados por alguns fios brancos que escondia o seu alto penteado, coroado por um desses antigos pentes tão largos que cingiam toda a cabeça, e fingiam uma espécie de diadema. 

(continua...)

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