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#Romances#Literatura Brasileira

O Gaúcho

Por José de Alencar (1870)

Sua alma comovida por sentimentos afetuosos pôs-se em contato com o instinto do animal; operou-se a transfusão; os íntimos impulsos da recém-mãe se refletiram no coração terno do mancebo. Compreendeu o desespero, a saudade bravia pelo filho abandonado e a cólera terrível contra aqueles que a tinham arrebatado às doçuras da amamentação. 

Quando nitria a égua, fitando nele os olhos ou tomando o faro da campanha, era como se lhe falasse. 

Desde criança lidava Manuel com animais; fora esse o ofício de seu pai; não havia em toda a campanha do Rio Grande amansador de fama que se comparasse com o João Canho. o que mais se admirava no moço gaúcho não era contudo a destreza, na qual excedia de muito ao pai; porém sim a dedicação que ele tinha à raça hípica. 

Havia entre o gaúcho e os cavalos verdadeiras relações sociais. Alguns faziam parte de sua família; outros eram seus amigos; aos mais tratava-os como camaradas ou simples conhecidos. 

Com os irmãos e amigos vivia em perfeita intimidade; consentia que lhe roçassem a cabeça pelo ombro, ou lambessem-lhe a face. Muitas vezes comiam em sua mão; andavam constantemente soltos; não havia cabresto nem soga para eles; era corcéis livres. 

Tinham esses membros da família suas vontades, que o chefe respeitava por uma justa reciprocidade. Se acontecia agastar-se algum, e a consciência de Manuel o acusava, era ele quem primeiro cedia; e assim faziam-se as pazes. 

Aos camaradas não consentia o gaúcho aquelas familiaridades; ao contrário, os tratava com certa reserva. Saudavam-se pela manhã ao despontar do dia; e à noite, na ocasião de recolher. Comumente se encontravam na hora da ração: comiam juntos, os brutos no embornal, o homem na palangana. 

Na opinião de Manuel o cavalo e o homem contraíam obrigação recíproca; o cavalo de servir e transportar o homem; o homem de nutrir e defender o cavalo. Se um dos dois faltasse ao compromisso, o outro tinha o direito de romper o vínculo. O homem devia expulsar o cavalo, o cavalo devia deixar o homem. 

Só em um caso o Canho castigava o ginete brioso: era quando o bruto se revoltava. Então havia luta franca e nobre; os dois contendores mediam as forças, e o mais hábil ou o mais vigoroso vencia o outro. Na sua adolescência, até aos quinze anos, fora o gaúcho batido muitas vezes; mas já ia para sete anos que tal coisa não lhe sucedia. 

Fora desse caso do desafio, o rebenque e as chilenas eram trastes de luxo e galanteria. Somente usava deles em circunstâncias extraordinárias, quando era obrigado a montar em algum cavalo reiúno e podão, desses que só trabalham como o escravo embrutecido à força de castigo. 

Tinha o gaúcho inventado uma linguagem de monossílabos e gestos, por meio da qual se fazia entender perfeitamente dos animais. Um hup gutural pungia mais seu cavalo do que a roseta das chilenas; não carecia das rédeas para estacar o ginete à disparada: bastava-lhe um psiu. 

Enfim o cavalo era para o gaúcho um próximo, não pela forma, mas pela magnanimidade e nobreza das paixões. Entendia ele que Deus havia feito os outros animais para vários fins recônditos em sua alta sabedoria; mas o cavalo, esse Deus o criara exclusivamente para companheiro e amigo do homem. Tinha razão. 

Se o homem é o rei da criação, o cavalo serve-lhe de trono. Veículo e arma ao mesmo tempo, ele nos suprime as distâncias pela rapidez, e centuplica nossas forças. Para o gaúcho, especialmente para o filho errante da campanha, esse vínculo se estreita. 

O peixe careca d’água, o pássaro do ambiente, para que se movam e existam. Como eles, o gaúcho tem um elemento, que é o cavalo. A pé está em seco, faltam-lhe as asas. Nele se realiza o mito da antigüidade: o homem não passa de um busto apenas; seu corpo consiste no bruto. Uni as duas naturezas incompletas: este ser híbrido é o gaúcho, o centauro da América. 

Contavam muitas coisas a respeito de Manuel Canho. 

Não passava ele por lugar onde visse um cavalo enfermo ou estropiado que se não apeasse, fosse embora com pressa, para o socorrer. Sangrava-o, se era preciso; cauterizava-lhe as feridas; e até quando já o animal se não podia erguer, ele o arrastava para a sombra e ia buscar-lhe água no chapéu em falta de outra vasilha. 

Tinha comprado alguns cavalos que os donos arrebentavam de mau trato, unicamente para lhes dar repouso e assegurar-lhes velhice sossegada. Por causa de um destes protegidos seus, que um vizinho derreou, teve ele uma briga feia que felizmente acabou sem desgraça. O vizinho de uma satisfação completa, alforriando, a pedido do gaúcho, um reiúno que tinha feito a campanha de 1812.  

Não via o Canho castigarem barbaramente um animal, sem tomar o partido deste. Por isso afirmavam que era ele o gaúcho mais popular entre os quadrúpedes habitantes das verdes coxilhas banhadas pelo Uruguai e seus afluentes, o Ibicuí e o Quaraim. 

(continua...)

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