Por José de Alencar (1857)
JORGE - Está bom! Eu vou!
CENA IV
PEDRO, VASCONCELOS, JORGE
VASCONCELOS - Não deixaria por aqui a minha caixa e o meu lenço?
PEDRO (a JORGE} - Um dia é capaz também de deixar o nariz!... Vintém é que não esquece nunca! Está grudado dentro do bolso!
JORGE - Lá no sofá, Sr. Vasconcelos!
VASCONCELOS - Ah! Cá está! Acabou-se-me o rapé! Chega aqui, Pedro!
PEDRO (a JORGE) - Já vem maçada! (Alto.) Sr. quer alguma coisa?
VASCONCELOS - Vai num pulo ali em casa, pede a Josefa que me encha esta caixa de rapé, e traze depressa.
PEDRO - Sim, senhor; Pedro vai correndo.
VASCONCELOS - Olha, não te esqueças de dizer-lhe que eu sei a altura em que deixei o pote. Às vezes gosta de tomar a sua pitada à minha custa.
PEDRO - Mas, Sr. Vasconcelos...
VASCONCELOS - O que é? (JORGE sai.)
PEDRO - Nhonhô dá uns cobres para comprar... uma jaqueta.
VASCONCELOS - Ora que luxo!... Uma jaqueta com este calor?
PEDÚO - É para passear num domingo, dia de procissão!
VASCONCELOS - Pede a teu senhor!
PEDRO - Qual!... Ele não dá!
VASCONCELOS - Bom costume este! Vocês fazem pagar caro o chá que se toma nestas casas! Mas eu não concorro para semelhante abuso!
PEDRO - Ora! dez tostões; moedinha de prata! Chá no hotel custa mais caro!
VASCONCELOS - Sim; vai buscar o rapé e na volta falaremos. (Batem palmas.)
CENA V
EDUARDO, ALFREDO
ALFREDO - Boa noite. Ah! Dr. Eduardo...
EDUARDO - Sente-se, Sr. Alfredo; preciso falar-lhe.
ALFREDO - Peço-lhe desculpa de me ter demorado; mas quando levaram o seu bilhete não estava em casa; há pouco é que recebi e imediatamente.
EDUARDO - Obrigado; o que vou dizer-lhe é para mim de grande interesse, e por isso espero que me ouça com atenção.
ALFREDO - Estou às suas ordens.
EDUARDO - Sr. Alfredo, minha irmã me pediu que lhe entregasse esta carta.
ALFREDO - A minha!...
EDUARDO - Sim. Quanto à resposta, é a mim que compete dá-la. É o direito de um irmão, não o contestará, decerto.
ALFREDO - Pode fazer o que entender. (Ergue-se.)
EDUARDO - Queira sentar-se, senhor, creio que falo a um homem de honra, que não deve envergonhar-se dos seus atos.
ALFREDO - Eu o escuto!
EDUARDO - Não pense que vou dirigir-lhe exprobrações. Todo o homem tem o direito de amar uma mulher; o amor é uni sentimento natural e espontâneo, por isso não estranho, ao contrário, estimo, que minha irmã inspirasse uma afeição a uma pessoa cujo caráter aprecio.
ALFREDO - Então não sei para que essa espécie de interrogatório!...
EDUARDO - Interrogatório? Ainda não lhe fiz uma só pergunta, e nem preciso fazer. Tenho unicamente um obséquio a pedir-lhe; e depois nos separaremos amigos ou simples conhecidos.
ALFREDO - Pode falar, Dr. Eduardo. Começo a compreendê-lo; e sinto ter a princípio interpretado mal as suas palavras.
EDUARDO - Ainda bem! Eu sabia que nos havíamos de entender; posso ser franco. Um homem que ama realmente uma moça, Sr. Alfredo, não deve expô-la ao ridículo e aos motejos dos indiferentes; não deve deixar que a sua afeição seja um tema para a malignidade dos vizinhos e dos curiosos.
ALFREDO - uma acusação imerecida. Não dei ainda motivos...
EDUARDO - Estou convencido disso, e é justamente para que não os dê e não siga o exemplo de tantos outros, que tomei a liberdade de escrever-lhe convidando-o a vir aqui esta noite. Quero apresentá-lo à minha família.
ALFREDO - Como? Apesar do que sabe? E do que se passou?
EDUARDO - Mesmo pelo que sei e pelo que se passou. Tenho a este respeito certas idéias, não sou desses homens que entendem que a reputação de uma mulher deve ir até o ponto de não ser amada. Mas é no seio de sua família, ao lado de seu irmão, sob o olhar protetor de sua mãe, que uma moça deve receber o amor puro e casto daquele que ela tiver escolhido.
ALFREDO - Assim, me permite...
EDUARDO - Não permito aquilo que é um direito de todos. Somente lhe lembrarei uma coisa, e para isso não e necessário invocar a amizade. Qualquer alma, ainda a mais indiferente, compreenderá o alcance do que vou dizer.
ALFREDO - Não sei o que quer lembrar-me, doutor; se é, porém, o respeito que me deve merecer sua irmã, é escusado.
EDUARDO - Não; não é isso, nesse ponto confio no seu caráter, e confio sobretudo em minha irmã. O que lhe peço é que, antes de aceitar o oferecimento que lhe fiz, reflita. Se a sua afeição é um capricho passageiro, não há necessidade de vir buscar, no seio da família, a flor modesta que se oculta na sombra e que perfuma com a sua pureza a velhice de uma mãe, e os íntimos gozos da vida doméstica. O senhor é um moço distinto; pode ser recebido em todos os salões. Aí achará os protestos de um amor rapidamente esquecido; aí no delírio da valsa, e no abandono do baile, pode embriagar-se de prazer. E quando um dia sentir-se saciado, suas palavras não terão deixado num coração virgem o germe de uma paixão, que aumentará com o desprezo e o indiferentismo.
ALFREDO - A minha afeição, Dr. Eduardo, é seria e não se parece com esses amores de um dia!
EDUARDO - Bem; é o que desejava ouvir-lhe. (Vai à porta da sala, e faz um aceno.)
CENA VI
Os mesmos, CARLOTINHA
(continua...)
ALENCAR, José de. O demônio familiar. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7547 . Acesso em: 26 jan. 2026.