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#Romances#Literatura Brasileira

Diva

Por José de Alencar (1864)

Reli a nota que Geraldo me havia dado. Era uma meia folha de pequeno velino, onde a mão de Emília traçara algumas linhas com elegante e fina escritura. Conservei este papel por muito tempo; creio que o queimei sem querer de envolta com outros. Nem já me lembra o nome da menina, que teve, sem o saber, uma influência rápida, mas decisiva na minha vida. 

Uma carta da mulher que eu amasse talvez não produzisse em mim a emoção que senti lendo aquelas palavras. Sorria de contentamento, e uma vez machuquei o papel aos lábios. Cuidei então que afagava a minha vingança; mas quanto me enganei! Sorvia o filtro dos ódios fugaces de um amor espezinhado! — Ah! Ela é boa e compassiva! murmurava eu. Estou vingado!... 

Até então, Paulo, cuidava que um egoísmo frio forrasse a alma dessa menina; e tinha medo, porque todo o desprezo, que eu pudesse amassar em meu coração para afrontá-la, iria bater e pulverizar-se nessa crosta impenetrável. 

Recolhi um instante em mim para refletir. Concertado meu plano, a execução foi imediata. Tudo me favorecia: era um sábado, dia em que o Sr. Duarte se recolhia mais cedo; por outro lado, o passeio de Geraldo me assegurava da sua ausência. 

Cheguei à casa do negociante com as primeiras sombras da noite.  


VII 

A CASA do Sr. Duarte acabava de sofrer uma transformação completa. 

Quando eu a conheci, e mesmo ainda depois de minha volta, era um velho prédio, feio e irregular, construído numa das abas da montanha que cinge os amenos vales de Catumbi e Rio Comprido. A chácara coberta de arvoredo estendia-se pelas encostas até as pitorescas eminências de Santa Teresa. Gozava-se aí de uma vista magnífica, de bons ares e sombras deliciosas. O arrabalde era naquele tempo mais campo do que é hoje. 

Ainda a fouce exterminadora da civilização não esmoutara os bosques que revestiam os flancos da montanha. A rua, esse braço mil do centauro cidade , só anos depois espreguiçando pelas encostas, fisgou as garras nos cimos frondosos das colinas. Elas foram outrora, essas lindas colinas, a verde coroa da jovem Guanabara, hoje velha regateira, calva de suas matas, nua de seus prados. 

Caminhas íngremes e sinuosas veredas serpejavam então pelas faldas sombrias da montanha, e prendiam como num abraço as raras habitações que alvejavam de longe em longe entre o arvoredo. Límpídas correntes, que a sede febril do gigante urbano ainda não estancara, rolavam trépidas pela escarpa, saltavam de cascata em cascata, e iam fugindo e garrulando conchegar-se nas alvas bacias debruadas de relva. 

As paineiras em flor meneavam à doce brisa da tarde os brilhantes penachos, como numa festa da roça as mais belas raparigas, soberbas de seus enfeites, balançam airosas ao som da música as frontes toucadas de nastros de fitas. 

Cresciam ali bosques espessos de bambus que ciciavam brandamente, enquanto os leques das palmeiras vibrados pelo vento arpejavam como flauta rústica. 

Naqueles lugares nascera Emília e se criara. Eles foram o molde de sua alma, formada ao contato dessa alpestre natureza cheia de fragosidades e umbrosas espessuras. 

A primeira vez que a tímida menina ousou penetrar esse mato esquecido às abas da cidade, tinha ela onze anos. Até então vivera à sombra materna, como flor que se planta em vaso de porcelana e vegeta nos terraços. Do colo passara ao regaço; quando principiou a andar, coseu-se à falda do vestido de sua mãe. 

Com os hábitos sedentários que tinha a senhora, a órbita do seu giro não se estendia além da beira da casa e do estreito jardim, que uma cerca de tábuas separava da chácara inculta e abandonada; porém mesmo de longe, Emília enfiava os olhos por entre os grupos de árvores. 

Vinham dali rumores vagos e estranhos mistérios que a estremeciam. Logo presa de grande pavor, fugia a abrigar-se no colo materno. 

Um dia venceu a tentação. A menina avançou afouta, cuidando encontrar perto a professora. Hão a viu; quis retroceder e não teve ânimo; tornou a avançar; o menor ruído a assustava, a mais leve sombra lhe incutia terrores e vertigens. Até que sucumbiu num ataque de nervos. 

Emília esteve dous dias de cama. A mãe declarou-a doente por uma semana. Houve larga discussão a respeito do grave acontecimento; um mês durante não se falou de outra cousa. Julinha foi estar algum tempo com a prima para distrai-la; e a medrosa menina se viu cercada dos maiores desvelos. 

Tudo isto produziu efeito oposto ao que esperava a mãe. Cuidava ela conservar assim aquela natureza frágil, tímida e melindrosa, que só podia viver elada ao seio materno, como hera ao tronco. Que bem sabia do germe funesto que lançara na alma tenra da filha! 

Foi a semente da primeira rebelião. Emília teve grande vergonha de seu pânico. Um sentir novo e estranho, que não era desejo, nem raiva, pesar ou contentamento, porém um misto de tudo isso, a intumescer-lhe a alma; um sentir nunca sentido turbou a inocência da menina. 

(continua...)

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