Por José de Alencar (1860)
Meneses – Como muitas famílias não a têm; mas assim deve ser quando os maridos roubam as suas mulheres, e os pais a seus filhos para alimentarem esses parasitas da sociedade.
Luís – Dizes bem; a culpa não é delas.
Meneses – Mas, Araújo, sinceramente te confesso que ainda não compreendi o teu empenho!
Araújo – Empenho de quê?
Meneses – De conhecer a Helena. Achas bonita?
Araújo – Bonita!... Uma mulher que tem os dentes e os cabelos na Rua do Ouvidor!
Meneses – Entretanto entraste hoje de madrugada, quero dizer, às dez horas por minha casa; interrompeste o meu sono de domingo, o único tranqüilo que tem um jornalista; me fizeste sair sem almoço; pagaste um carro; e tudo isto para que te viesse apresentar a essa velha sem dentes e sem cabelos!
Araújo – Isso se explica por um capricho. Sou um tanto original nas minhas paixões.
Meneses – Então estás apaixonado pela Helena?
Araújo – Infelizmente.
Luís – Por que não confessas a verdadeira causa? O Sr. Meneses é teu amigo, e embora só há pouco tempo tivesse o prazer de conhecê-lo, confio bastante no seu caráter para falar-lhe com franqueza.
Araújo – É o melhor; assim me poupas o descrédito de inventar uma paixão bem extravagante.
Meneses – Qual é então a verdadeira causa desta apresentação?
Luís – Eu lhe digo. Trata-se de salvar uma moça por quem muito me interesso; quero falar-lhe ainda uma vez, tentar os últimos esforços; mas na sua casa é impossível; o Ribeiro guardou-o com um cuidado e uma vigilância excessiva.
Meneses – E a Carolina?
Luís – Ela mesma. Lembra-se daquela cena que presenciamos no hotel há cerca de um mês?
Meneses – Lembro-me perfeitamente; e parece-me, pelo que vi, que os seus esforços serão inúteis.
Araújo – É também a minha opinião. Tenho-lhe dito muitas vezes que a honra de um homem é uma coisa muito preciosa para estar sujeita ao capricho de qualquer mulher, só porque o acaso a fez sua parente.
Luís – Não é por mim, Araújo, é por ela que procuro salvá-la. Reconheço que é bem difícil; mas resta-me ainda uma esperança: talvez a mãe obtenha pelo amor, aquilo que nem a voz da razão nem o grito do dever puderam conseguir.
Meneses – Pensa bem, Sr. Viana.
Luís – Para isso, porém, é preciso encontrá-la um só instante; soube que costuma vir à casa desta mulher que a perdeu e de quem é amiga. Araújo disse-me que o senhor a conhecia; e fomos imediatamente procurá-lo. Eis o verdadeiro motivo do incômodo que lhe demos; o Sr. Meneses é homem para o compreender e apreciar.
Meneses – Não se enganou, Sr. Viana; farei o que me for possível.
Meneses – Não tem de que; é dever de todo homem honesto proteger e defender a virtude que vacila e vai sucumbir ou mesmo ajudá-la a reabilitar-se. Mas devo corresponder à sua fraqueza com igual franqueza. Creio que o senhor, e tu mesmo, Araújo, não conhecem bem o terreno em que pisam.
Luís – Não, decerto.
Araújo – Quanto a mim estou em país estrangeiro.
Meneses – Pois é preciso estudar o movimento e a órbita destes planetas errantes para acompanhá-los na sua rotação. Aqui não se conhece nem um desses objetos como a honra, o amor, a religião, que fazem tanto barulho lá fora. Neste mundo à parte, só há um poder, uma lei, um sentimento, uma religião; é o dinheiro. Tudo se compra e tudo se vende; tudo tem um preço.
Luís – Que miséria, meu Deus!
Meneses – Quem vê de longe este mundo, não compreende o que se passa nele, e não sabe até onde chega a degeneração da raça humana. O oriente desses astros opacos é o luxo; o ocaso é a miséria. Começam vendendo a virtude; vendem depois a sua beleza, a sua mocidade, a sua alma; quando o vício lhes traz a velhice prematura, não tendo já que vender, vendem o mesmo vício e fazem-se instrumento de corrupção. Quantas não acabam vendendo suas filhas para se alimentarem na desgraça!
Araújo – Tu exageras!... Ninguém se avilta a esse ponto.
Meneses – Não exagero. Muitas são boas e capazes de um sacrifício; têm coração.
Mas de que lhes serve esse traste no mundo em que vivem!
Araújo – Para amar o homem a quem devem tudo.
Meneses – Ele seria o primeiro a escarnecer dela.
CENA II
(Os mesmos, Vieirinha e Helena)
Vieirinha (cantarolando) – De suis le sire de Framboisy! meus senhores!... Não se incomodem, estejam a gosto.
Meneses – Adeus. Como vais?
Vieirinha – Bem, obrigado.
Meneses – Que se faz de bom?
Vieirinha – Nada; enche-se o tempo.
Meneses – Enfim apareceu!
Helena – Desculpe; se me tivesse prevenido da sua visita... Mas chega de repente e no momento em que estava me penteando.
Meneses – Tem razão!... Aqui lhe trouxe o Sr. Viana e o Sr. Araújo que muito desejam conhecê-la. São meus amigos; isto diz tudo.
Helena – A minha casa está às suas ordens. Estimo muito...
Meneses – Se não me engano, o Sr. Viana deseja conversar com a senhora; portanto não o faça esperar.
Helena – Fazer esperar é o nosso direito, Sr. Meneses!
Meneses – Quando
se trata de amor, mas não quando se trata de um negócio.
(continua...)
ALENCAR, José de. As asas de um anjo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16675 . Acesso em: 12 jan. 2026.