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#Crônicas#Literatura Brasileira

A Alma do Lázaro

Por José de Alencar (1873)

Os outros, já não estranho. Tão habituado estou à crueldade do mundo; mas ela?... não quero ser-lhe um objeto de repulsão. Ignore para sempre que existo, e possa eu de longe, em silêncio, contemplá-la, como a estrela do céu a que dirige sua prece.

Quando ela acabou de cantar, sentou-se no terrado, junto de uma roseira de Alexandria que estava coberta de flores, e ficou olhando o mar, onde com a ardentia se esfacelavam as vagas em chuva de pedrarias cintilantes.

Tinha de todo caído a noite; e já fazia bastante escuro, para que me pudesse aproximar sem receio. Avistou ela meu vulto, pois senti que seus olhos se fitavam nele; e não sei o que foi de mim, que não me lembrei mais onde estava, nem se vivia ainda neste vale de lágrimas.

Do que só me recordo é de encontrar-me, em tornando a mim, posto de joelhos, a soluçar um pranto em que parecia ir-se toda a minha alma. Quanto tempo estive assim, não o poderia dizer, nem o como isso sucedeu, tão alheio fiquei deste mundo e de suas misérias.

Deitei a medo os olhos para o terrado. Uma sombra alva perpassava entre as moitas do terrado. Era ela que recolhia-se vagarosamente.

Será possível, mãe, que eu ame neste mundo outra criatura com as abundâncias do coração e a santidade com que sempre te estremeci?...


2 DE ABRIL

Meu Deus!.. . Meu Deus! calcastes sobre mim, pobre verme da terra, a Vossa mão onipotente, e eu não murmurei.

A peste soprou em minhas veias seu hálito de chamas, que me requeima o sangue e devora as carnes. Meu corpo, o que é senão um crivo de dores, e um inferno onde me abraso em vida?

Tudo sofrerei resignado. Mas, Senhor, poupai-me a esse cruel martírio! Sentir-se a gente vil para aquela a quem vota seu amor!... Parece-me que ainda não tinha sofrido toda a degradação de minha pessoa. Contra a repulsão do mundo revoltava-se minha alma que o despreza como a um ventre de misérias. Contra o nojo que às vezes tenho de mim mesmo, consola-me o pensamento de que meu ser purifica-se nessa chama em que abraso-me.

Mas contra ela, que posso eu senão abater-me no pó, e sumir-se como uma causa hedionda em que não devem pousar jamais os seus meigos olhos?

Que tremendo suplício, mãe! Ter n'alma um afeto grande e imenso; porém nesse afeto uma abjeção maior que ele, uma vergonha que o remorde e o acabrunha!

Para que enviou-me o céu este afeto? Pensava eu, mãe, depois que te partiste, que de mim, deste ente votado ao sofrimento e à desgraça, já não podia sair uma doce efusão, mas somente a paixão cruel e implacável como a lepra que me corrói.


6 DE ABRIL

Sei-lhe o nome!

Foi esta noite. Lá estava ela, no terrado, olhando o mar, onde se escondera a zela branca do navio de seu pai.

Uma voz, era a de sua mãe, soltou o nome de Úrsula. Ergueu-se ela, e caminhou para a casa, dizendo com um modo brando e sossegado:

- Aí vou, mãe.

Úrsula!... Que suave encanto acho eu neste nome, que dantes nunca em. mim despertou a menor atenção. Ouvia-o como um som qualquer; não passava de uma palavra indiferente. Agora canta em minha alma como celeste harmonia, que me inunda todo o ser de júbilo.

Os sussurros da brisa, os murmúrios das ondas, as vozes do céu e da terra repetem para mim o mavioso nome, que me envolve em uma bem-aventurança.

Nos momentos em que a alma exubera e subleva-se com o esto do contentamento ou da mágoa, manam as abundâncias da paixão, em poemas e hinos.

Não careço eu de poesias, nem descantes, para transbordar as santas alegrias que me enchem o coração. Basta dizer baixinho, entre Deus e mim, o nome dela.


10 DE ABRIL

Ainda não tornei do abalo!

Não quisestes ouvir a minha prece! Como a Vossa cólera é implacável, Senhor, que um só instante não se retira deste punhado de limo!

Era-me consolo em meio das tribulações, aquela inocente devoção de adorar de longe entre as sombras da noite, o formoso vulto de Úrsula; e tanto Vos supliquei arredásseis de mim os olhos dela, para não perceber-me no suave enlevo de a contemplar.

E esse consolo me negastes!

Ela reparou na minha insistência, e desde aí não voltou ao terrado, nem lhe vi mais que a sombra, quando canta da janela a sua Ave-Maria.


12 DE ABRIL

Apareceu esta noite.

Como costumava, rezou a sua oração da tarde, e ficou no terrado com os olhos engolfados no horizonte.

Eu que me havia escondido atrás de um coqueiro, para não assustá-la outra vez, como a visse distraída, criei ânimo para chegar-me e vê-la de mais perto.

De repente voltou-se ela e pondo em mim seus olhos, que me deixaram transido e quedo, sem acordo para fugir, quando tudo eu dera para sepultar-me ali na terra, e subtrair-me à sua vista.

Ela, em vez de esquivar-se, como antes fizera, reclinou-se ao balaústre, e começou a desfolhar os botões da roseira, soltando à fresca brisa do mar as pétalas que vinham farfalhar-me no rosto.

(continua...)

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