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#Crônicas#Literatura Brasileira

A Alma do Lázaro

Por José de Alencar (1873)

Como foi isto?... Como foi que me não acometeu o horror que ainda me transe neste momento? Por que me não fulminastes, Deus de Misericórdia, quando sem tento de mim, transpus a distância que me separava dela?

Mas não fui eu, que morreria ao primeiro passo... A insânia que me arrancava a mim mesmo, apoderou-se deste esqueleto vil, e arrastou-o miseravelmente ao sopé do terrado.

Ao ver-me ali perto de si, Úrsula debruçada à balaustrada, começou a desfolhar as. rosas sobre minha cabeça, rindo faceiramente de sua travessura..

Disto não tenho mais que uma vaga e tênue reminiscência, pois meus espíritos ainda estavam nesse momento alheios de mim com a grande torvação.

Colhia ela as rosas que me atirava e eu recolhia em meu seio. Correram assim as horas da noite, sem que as sentisse.


24 DE ABRIL

Todas as noites, as tenho passado naquele doce enlevo!

Ali, próximo a ela, sinto-me como outrora quando me recolhias em teu regaço, mãe, e à força de carinho me acalentavas a dor horrível.

Como teus braços outrora, cinge-me o olhar de Úrsula, e me envolve. As folhas das rosas, que ela esparge sobre mim, são carícias tão doces como eram teus beijos, mãe, quando derramavas em meu seio o bálsamo santo da tua alma.

Horas e horas ficamos ali, mudos a olhar-nos, eu repassando-me de sua imagem, ela talvez admirada, em sua ingênua isenção, do meu estranho pasmo.

Ontem, sem o sentir, rompeu-me da seio o seu nome, que meus lábios repetiam submissos, uma e muitas vezes, como as palavras de uma oração. Interrompeu-me a voz de Úrsula.

- Acha bonito meu nome?

Naquele instante não atinei o sentido das palavras, tão absorto fiquei a ouvir a voz melodiosa que falava. Mas quando entendesse, podia eu exprimir em linguagem o que se passava em meu ser, e pronunciar seu nome?

Movi a cabeça maquinalmente como se dissera: sim.

- E o seu? Qual é? perguntou-me ainda.

Meu nome?... Há no mundo para os desgraçados como eu outro nome que não seja o de miserável?... Tive outrora um; nem já me lembro qual fosse, pois há tanto tempo que ninguém o chama! Para ti, mãe, eu era o filho; para o mundo, o lázaro!

Não se abriram meus lábios, porém com o gesto supliquei-lhe silêncio.

Teve ela sombra do horrível mistério, que reclinou a fronte merencória? Não; se a menor suspeita passasse em seu espírito, a houvera espavorido.

Sua tristeza foi sem dúvida por não ver satisfeito seu desejo. As crianças são assim, tiranas e absolutas em seus caprichos.


27 DE ABRIL

Não mais voltarei àquele sítio! Não mais profanarei com a minha presença o olhar puro e santo do anjo que se comiserou de mim!

O mau espírito apoderou-se deste abjeto esqueleto, e fez dele um inferno. Revolvem-se em meu seio pensamentos que me enchem de pavor.

Quando há duas horas cheguei à praia, não vi Úrsula no lugar do costume, o que deu-me ânimo para aproximar-me bem perto do terraço, na impaciência de entrevê-la através da folhagem.

Ela que se tinha escondido para surpreender-me, logo se debruçou no gradil, e estendeu para mim uma rosa que tinha na mão.

Pus-me de joelhos para recebê-la como uma graça celeste. Mas Deus poupou-me a essa infâmia, abatendo sobre mim a sua cólera. Caí, prostrado ao chão, escondendo o rosto na poeira da terra.

E fugi como um louco!...

Como pôde esta miserável carcaça que me deu o Criador para repasto dos gusanos, como pôde conceber o vil desejo de tocar com a sua hediondez a mão pura e imaculada da formosa donzela?

Deus fez o homem do limo da terra; da sânie, só tirou as vespas. Mas o virulento inseto apenas destila veneno; e o meu contágio é mais do que a peste; porque não só mata o corpo, como também a alma. É o contágio da abjeção.

Ah! os felizes que morrem à vida levando a estima do mundo, não sabem o que é esse frio assassínio duma alma, que o mundo lapida, como se ela fora um perro danado, e cujo despojo lança-se ao monturo, e queima-se para não contaminar os ares!


28 DE ABRIL

Tinha jurado não voltar ao eirado; e voltei arrastado por uma força a que não posso resistir.

Parecia-me que estava atado ao leito da dor, onde todo o dia me revolvi em uma angústia cruel, e todavia, ao toque de trindades, sem que desse tento de mim, caminhava como um espetro para aquele sítio, onde me disputam o céu e o inferno; porque ali está a fonte de meus júbilos e o antro de meus sofrimentos.

Assomava a lua no horizonte, como uma sultana a recostar-se nos estofados coxins de brocado azul, recamado de branco. Nas folhas dos coqueiros passava a brisa sutil, ramalhando as verdes palmas.

Da terra, bordada de quintais e granjearias, se exalava, como de uma caçoula, a suave fragrância do campo. O mar dormia em bonança; e o colo da onda arfava mansamente, como o seio da criança engolfada em sonhos ridentes.

Derramava-se no espaço uma doçura inefável, que parecia manar do céu em um jorro de luz alva e macia. Parecia-me às vezes que eu sugava no teu peito, mãe, um sorvo de leite vigoroso, que me infundia saúde e contentamento.

(continua...)

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