Por Joaquim Manuel de Macedo (1840)
Estef. Fortunato a ama... livra-la-á do inferno em que vive... creia que a senhora está exposta aos maiores perigos, e meu sobrinho que é o mais nobre cavalheiro, que a adora, e que daria a vida pelo seu amor...
Corina Olhe, quanta gente chega.
Cena 4ª
Carlos, Peregrino, Simão de Souza, Tomás Pereira, Teófilo, Firmino, Fortunato, Estefânia, Corina, Teodora, Júlia, senhoras, cavalheiros — conversação geral, movimento.
Teóf.
(com a boneca nos braços) A minha linda afilhadinha não pode dormir com semelhante ruído! Acabou de despertar chorando assustada... onde melhor lhe poremos o berço? (embala a boneca) Tempo perdido! Nos meus braços não dorme: (a Corina) minha senhora, por quem é, acalente esta menina.
Corina Compete esse dever à madrinha.
Teóf.
A madrinha está carregando o berço... e que pesa!...
Estef. Que feliz [sic] boneca! (Corina recebe-a e acalenta-a)
Júlia (com o berço nos braços) Qual! Uma pobre enjeitadinha, que não tem pai nem mãe!
Simão
Enjeitada! Pronto a declarar-me pai da menina. (riso)
Teóf.
Ah; senhor! Acaba de matar-nos a esperança de achar mãe para a criança!... (risadas)
Simão
(a Pereira ) Eu não sei porque esta gente ri assim!...
Teóf.
E a menina dormiu ao doce calor dos seus braços: (a Corina)
V. Exª. há de por compaixão e caridade apresentá-la à pia... mas onde depositaremos o berço?...
Firmino Neste gabinete (abre a porta onde entram Júlia e Corina)
Teóf.
Minhas senhoras, deixemos a menina dormindo. (segue-as)
Tomás (a Firmino) Que enchente de puerilidades; na comédia do mundo somente o dinheiro é coisa séria: e o senhor não quer crer!...
Simão
(a Pereira) Ainda não pude manifestar-me: não sei, como hei de conseguir que a moça olhe para mim...
Pereira
(a Simão) Convide-a para dançar. (Júlia e Corina voltam)
Teóf.
(a Simão) V. Exª. terá a bondade de ser o padre que batize a criança... acho-o com jeito... com a aparência de cônego...
Simão
Aceito in limine: (a Pereira ) É um modo de me manifestar...
Teod.
Oh, nunca me trataste assim Firmino!
Firmino E tu?... E tu?... Nossa casa era um paraíso... mudaste de caráter por amor de teu filho...., a tentação da riqueza...
Teod.
Sim... é isso... a fome de dinheiro.
Cena 6ª
Firmino, Teodora e Estefânia
Estef. Que dois pombinhos! Festejam-se mais ternos do que moças que (começa a rir)
Teod.
Oh, que torpe sede de ouro!...
Firmino Confessa: é por causa do teu Carlos que me vejo exposto ao mais triste desengano... Teófilo me roubará Corina!...
Júlia Minha afilhada dorme: vamos dançar?...
Teod.
É o senhor com o seu Peregrino: para que se casou comigo, se só vive pelo filho da sua defunta?
Firmino Faço-lhe igual pergunta: tem a bondade de me responder!... creio, porém, que ali vai um teu rival. (vai-se)
Simão
(tomando o braço de Pereira ) Aquele padrinho me parece muito estúpido! (Pereira sorri — vãose)
Cena 5ª
Firmino e Teodora
Firmino Eis aí em que está dando o batizado da boneca!... Não me sujeitarei mais aos caprichos de Júlia.
Teodora Júlia está bem castigada: sua esperança vai morrendo... já morreu talvez... Teófilo voltou-se para Corina.
Firmino Uma indignidade e um perigo a mais!
Júlia Minha afilhada dorme: vamos dançar?...
Teóf.
Decreto de rainha: (a Corina) é a nossa contradança... (baixo) por procuração... (oferecendo-lhe a mão)
Corina Com o maior prazer. (toma-lhe a mão vão sair todos)
Fortunato (a Estef. dando-lhe o braço) Que devo esperar?...
Estef. (a Fortunato) Por ora nada; mas desesperar nunca. (Vão-se)
Carlos (a Per.) A idolatria do ouro é esquálida, lá se rendem ternuras, dançando!
Teod.
Este nosso amor já é hábito, não merece elogio.
Firmino É a felicidade pelo egoísmo... só cuidamos de nós. Eu tenho, porém, meus momentos de abnegação: aí lhe deixo a sua amiga. (vai-se)
Estef. Tenho perdido toda a minha eloqüência esta noite: Corina não quer ouvir falar de Carlos: é preciso ser severa e um pouco clara e inclemente com ela: fecha a porta de tua casa ao filho do barão...
Teod.
É a primeira vez que eles se encontram. Julgávamos Teófilo apaixonado de Júlia...
Estef. Vou ver como Teófilo e Corina se namoram. Estão tocando a indecência...
Teod.
Estefânia, que dizes?...
Estef. Eu falo-te assim só por amor de Carlos... tolerar as loucuras desta noite é, sem dúvida, sacrifício obrigado ao decoro, e ao dever; mas desde amanhã ou só prepotente, austera, terrível, ou despede-te de Corina...
Teod.
Eu não devia ter saído da sala... vamos.
Estef. Vamos... (indo) é porém tarde... a contradança acabou.
Teod.
Não importa. (vão-se; tem acabado a música)
Cena 7ª
Peregrino e Simão
Pereg.
Que tem?... que quer?...
Simão
Aquele padrinho que dança com ela quem é?...
Pereg.
É filho de um barão.
Simão
Assim não me diz nada, barão? Tenho uma dúzia de barões embrulhados na minha burra.
Pereg.
Chama-se Teófilo e é filho do barão do Lago Azul.
Simão
Do barão do Lago Azul!... Estou perdido. Vale muito mais do que eu... podia ser marquês ou duque... já não tenho ânimo de manifestar-me
Peregr.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de Macedo. Uma pupila rica.