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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

E as mulheres, as mulheres em quem a religião, além de um dever, é ainda, mais que em todos, uma necessidade e um encanto, têm entre si muitas que olham a noite sagrada como o ensejo feliz de ostentar suas graças e suas galas; e lá mesmo, no seio dos templos, suas orações não chegam nunca ao céu, porque as desconceituam as murmurações que de envolta com elas caem na terra.

E o dia de finados, o dia de luto que os homens têm tornado de festa; o dia do pó, a recordação do nada que somos, é em nosso tempo a demonstração viva e solene do muito que pretendemos ser.

Uma palavra diz tudo: no dia da comemoração dos defuntos, a vaidade dos vivos levanta seu trono sobre o túmulo dos mortos.

E portanto ainda nesses dois solenes dias nós demonstramos crime e fraqueza.

Em quinta-feira de Endoenças nós somos sacrílegos.

Em 2 de novembro de todos os anos nós somos, pelo menos, vaidosos.

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Havia chegado o dia 2 de novembro de 1846.

Tinha-se, pouco mais ou menos, passado mês e meio depois daquela manhã em que Cândido, da fresta de sua janela, observara em êxtase a “Bela Órfã” passeando no seu jardim.

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Desde o romper da aurora que os bronzes de todas as igrejas da capital do Brasil gemiam com seu dobre lúgubre, longo e monótono.

Multidão imensa de homens e mulheres, todos vestidos de luto, saíam ou entravam em turmas pelas portas dos templos como ondas negras.

Apesar de sua vaidosa ostentação, de sua inoportuna riqueza, os jazigos ofereciam um aspecto sublime e melancólico: era o aspecto da morte.

O cemitério de S. Francisco de Paula estava semeado de túmulos e repleto de povo.

Os curiosos que o visitavam cediam à força do império da morte; obumbravam-se.

Os órfãos e as viúvas, os pais que haviam perdido seus filhos, choravam e rezavam.

A despeito das galas e do luxo de alguns imensos mausoléus, o pó, o nada humano parecia transudar por entre as molduras douradas, e uma caveira se mostrava triunfante de sobre as colunas de ébano.

Nos túmulos humildes, sem pompa de luxo, cobertos de roxos amarantos e tristíssimas perpétuas, como que o gênio da saudade estava aí sentado para intermediário entre a dor do vivo e a alma do- morto. O túmulo sem pompa era a expressão da saudade do vivo.

Porque, preciso é dizê-lo, a verdadeira dor é simples e singela; e a saudade que se não simula, a saudade que sai do coração, não tem necessidade de adornar-se. Assemelham-se nisso às mulheres, que quanto mais feias mais se enfeitam para disfarçar seus senões, e quanto mais belas mais simplesmente se vestem para ostentar seus naturais encantos. Assim a dor e a saudade que se fingem, precisam de ornar-se muito, e as que são verdadeiras apresentam-se nuas... e sua nudez é imensamente sublime.

A melhor expressão de uma dor é o pranto. O mais rico ornamento dos túmulos é a caveira.

Os vestidos devem condizer com o corpo que se veste. Não há, não pode haver relação entre molduras, franjas douradas e um esqueleto.

Essa riqueza parece uma zombaria que a vida faz à morte. Essa riqueza destrói completamente a idéia tremenda que em tal dia deve ocupar o espírito dos vivos.

Porque à porta do cemitério o homem lê as terríveis palavras de morte: “Lembra-te, homem, que és pó, e que em pó te hás de tornar”. E dentro do jazigo de encontra ouro... ostentação... luxo...

Para que pois uma tão grande mentira em dia de tão grande verdade?... não sabeis?

É porque o filho do rico tremeu quando viu que os ossos de seu pai não se podiam distinguir dos ossos do mendigo; e com as galas da vida quis esconder a igualdade do pó.

Embora... Ou no mausoléu, ou na simples urna funérea, estava sempre o triunfo da morte. Mesquinha diferença havia: um guardava o esqueleto do rico, a outra os ossos do pobre; mas de mistura um e outros, quem acertaria com a caveira do primeiro?. .

Havia aí mesmo nessa área tremenda, ouro, ostentação no exterior; pó e mais nada internamente. Por cima estava ainda a vida... a mentira; por baixo triunfava a morte... a verdade.

A linha terrível e anti-religiosa que com tão maus resultados divide os filhos de Deus em dois grupos, ricos e pobres: ricos que gozam e mandam; pobres, que trabalham e sofrem de contínuo, estava traçada aos olhos dos vivos; mas em seu hediondo aspecto as caveiras pareciam estar soltando disformes gargalhadas de escárnio contra pretensões vãs de uma vaidade impotente.

E pois, e apesar de tudo, havia aí no cemitério a igualdade dos mortos mal desfigurada pela desigualdade dos vivos.

E por entre esses mausoléus e esses túmulos, iam passando grave e tristemente aqueles que vinham chorar seus defuntos.

O silêncio dos túmulos era de instante a instante cortado pelos soluços dos vivos, e a sequidão do pó recebia as lágrimas da carne.

Às vezes uma virgem pálida e indiferente a tudo que a rodeava, banhada em pranto de saudade, se deixava ver de joelhos junto de um túmulo, como a sombra de um finado descansado sobre seus restos. No meio dessa multidão desolada, não se perguntava, adivinhava-se quais eram os pais, quais as mães que choravam seus filhos, porque essa dor profunda do coração fala mais alto e mais claro do que as outras.

(continua...)

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