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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

— Ora... quem diria?!... mas, enfim, Sr. Brás, não se perde nada em trazê-lo para perto de nós.

— Sua comadre, minha tia, há de agradecer-lhe muito.

Tomásia arrastou a sua cadeira para perto da de Brás-mimoso, e com ele travou uma conversação cerrada, e em tom de quem não queria ser ouvida.

Félix escondia debaixo da sua fingida jovialidade uma dose de ciúme, que já muito cruelmente o incomodava; Rosa afetava ter tomado pouco interesse no que dissera sua mãe, e Manduca continuava a devorar pão com manteiga.

Rosa aproveitou aquele momento e dirigiu-se a Félix, falando-lhe também em tom baixo.

— Mas não tem razão, meu primo, que culpa tenho eu em que me achem bonita?

— Não você tem razão, minha prima, eu ainda não a acusei de nenhuma falta.

— Sempre lhe conheci ciumento.

— Ora... quando se ama uma moça tão firme como minha prima...

— Senhor!... basta de ironias!

— Senhora! eu estou falando como Salomão, com o coração na mão.

— Eu não desço da minha dignidade para fazer caso do que o senhor diz.

— Bravo, mana Rosa! bravo! exclamou Manduca com a boca cheia.

— Então que é isso? perguntou Tomásia.

— Era uma história que eu contava, respondeu Félix!

— É verdade, minha mãe, era uma história que ele contava à minha mana.

— Pois, se era uma história, nós todos queremos ouvi-la.

— Agora, meu primo! exclamou outra vez Manduca, conte lá a história à minha mãe.

— Pois então lá vai, disse Félix sem hesitar; é uma história muito verdadeira, e acontecida há pouco tempo: ia ontem para S. Cristovão no ônibus das cinco horas da tarde, quando chegamos à ponte do aterrado vimos vir um homem que, montado em um vivo cavalo, todavia acompanhava a custo uma jovem que cavalgava branco palafrém, boleado, ardido e fogoso; nem eu, nem nenhum dos que vinha no ônibus se importou mais com o cavaleiro que a seguia; os nossos olhos ficaram embebidos na jovem cavaleira.

— Isso é muito natural, disse Brás-mimoso.

— O vestido da moça era verde-escuro; nada mais engraçado que a sua cinturinha delicada, do que o justo corpinho do seu vestido, que desenhava as mais encantadoras e voluptuosas formas; trazia na cabeça um simples boné preto que, muito pequeno para esconder os seus cabelos, deixava cair uma imensa multidão de lindos anéis de madeixas negras, que voavam pelos ares na impetuosidade da carreira que trazia o cavalo! oh!... ela passou junto do ônibus!...

— E então?...

— Oh! minha tia, é cruel; mas, enfim, os anjos devem passar assim, rápidos e brilhantes como o relâmpago!...

— Portanto, não sabes se é bonita ou feia?...

— Sei, sei muito bem; nesse curto instante nós admiramos, desprendendo um leve chicotinho, uma pequena mão de querubim.

— Mas o rosto?... o rosto?...

— O rosto talvez seja pálido; mas a agitação lhe acendia o rubor nas faces... meigo sorriso estava deslizado em belos lábios cor de nácar... os seus olhos grandes... negros... ardentes... brilhavam como o sol no mais claro dia. Oh!... palavra de honra, minha tia, é o rosto mais bonito que tenho visto!

Rosa soltou uma gargalhada, e disse:

— Continue a sua história, meu primo, na verdade está muito bonita.

— Essa moça causou-nos, como era de esperar, a mais viva impressão, e um jovem poeta que ia conosco, exclamou: eis o tipo romântico! e em toda a viagem não falamos senão na moça romântica.

— E depois?...

— Voltando de S. Cristovão para a cidade, achei a notícia de que meu amo, o Sr. Hugo de Mendonça, havia chegado e partido logo para Niterói, onde tinha mandado alugar uma quinta. Fui imediatamente vê-lo, e quem o diria?... o homem que seguia a jovem cavaleira e de quem desviei os olhos, para só empregá-los nela, era meu amo!

— E a jovem cavaleira?...

— A jovem cavaleira é a filha dele, a quem não conheci, sem dúvida, pela grande rapidez com que passou junto do ônibus.

— Pois bem, e como a achou?...

— Desgraçadamente não a pude ver; estava descansando.

— Foi na verdade uma desgraça enorme!... disse Rosa.

— Certamente, acudiu Félix; mas foi uma desgraça da qual eu espero que minha tia tome o cuidado de vingar-me.

— Como?...

— Já que minha tia não se poupa a oferecer convites para o seu sarau a pessoas a quem não conhece, eu lhe rogo que me encarregue de levar uma carta ao Sr. Hugo de Mendonça, meu amo.

— Eu sei... mas...

— Não o deve fazer, minha mãe, disse Rosa.

— Oh, minha prima! não se perde assim uma moça bonita, quando se trata de um sarau.

— Temos muitas, e muitas bonitas!

— Sim, minha mãe!... há de convidar a moça romântica, quero dançar com ela.

— Eu entendo que deve produzir efeito, disse Brás-mimoso; sempre é uma novidade...

— Não ceda, minha mãe!...

— Ora... dir-se-ia que minha prima tem medo da concorrência.

— Com efeito!... meu primo está hoje insuportável...

— Por que, minha bela prima?... por falar na concorrência?... não, eu tenho a certeza de que minha prima não tem medo.

— Eu vou mostrar-lhe que não tenho medo!... minha mãe, mande convidar essa gente que veio do campo!

— Pois sim, convidar-se-á.

— Bravo, minha mãe!... gritou Manduca.

— Estou louco pelo sarau, disse Brás-mimoso.

(continua...)

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