Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
Já se desenganara do esperançoso plano de chegar a introduzir-se, mercê do jogo, no interior da casa, porque a banca tinha por limite absoluto o fundo da saleta contígua à loja, e a porta de comunicação interna sempre estava trancada; já estava disposto a libertar-se do sacrifício daquele jogo plebeu, quando uma noite, saindo pouco antes da meia-noite da banca de João Fusco, ao tomar no Largo da Carioca a Rua da Cadeia viu um vulto de homem embuçado ao portão do quintal da casa que era o seu objetivo.
Alexandre Cardoso recuou, e, pregando-se à quina da Rua dos Latoeiros, estendeu o pescoço, adiantou a cabeça até os olhos, e apurando a vista, e no silêncio geral aproveitando o ouvido, observou curioso...
O vulto bateu de leve e compassadamente três vezes no portão, que quase logo se abriu com abafado ruído da chave...
O vulto entrou, e o portão se trancou com o mesmo cuidado.
Alexandre Cardoso estava informado de que havia bravíssimo cão no quintal, mas não ouviu nem latido, nem enfezado rosnar de cão.
- É um amante feliz! disse entre si com ciúme e contusão o soberbo oficial da sala do vice-rei.
Havia explicável erro no pensamento íntimo de Alexandre Cardoso. Águeda não era vítima de um sedutor; mas, graças à segunda chave fabricada por artifícios de exaltado amor, e confiada à velha escrava protetora, a menina recebia algumas vezes em entrevistas o escolhido de seu coração, e seu desejado noivo.
Helena cansada dos trabalhos do dia inteiro, desde que dormia, era sono de pedra; João Fusco, desde que começava a jogar, e tinha no bolso a chave do portão, só ia aos fundos da casa, se o Degola rosnava, ou assanhava-se no quintal; a negra Jacoba velava protegendo o amor da menina: em noites ajustadas, ouvindo os três toques de sinal, abria o portão que outra vez trancava depois de dar entrada a um mancebo, e enquanto ia anunciá-lo a Águeda, o Degola festejava o seu já conhecido, que lhe trazia sempre algum regalo à gulodice canina.
No entanto, Águeda chegava, mas a sua entrevista com o namorado nunca se estendia além de um quarto de hora, nunca se passava livre da presença da escrava, nisso ao menos prudente.
O namorado de Águeda era o sacristão, sobrinho muito querido do Vigário da freguesia de S. José.
Mas Jacoba precauta a preparar defesa para si, ou fonte de astúcias para os seus protegidos amantes, andava a fingir-se assustada, dizendo a João Fusco e a Helena que havia lobisomem a correr de noite pelas vizinhanças.
A crença insensata nos lobisomens era muito comum então entre a gente rude; João Fusco deu a coisa por certa, e Helena chegou a assegurar que o lobisomem de que Jacoba falava devia necessariamente ser um meirinho que morava na Rua do Cano e que era muito amarelo.
Pelo medo que o lobisomem causava Jacoba se presumia de domínio mais seguro no quintal durante as noites.
Nem tudo, porém, havia de ir correndo á medida dos desejos da velha escrava que, ao amanhecer de um dia, achou morto no pé do portão o bravo Degola, que era tão amigo do sacristão. Debulhada em lágrimas correu ela a dar parte do caso, e João Fusco, tendo examinado o corpo do pobre animal e não encontrando nem ferimento, nem contusão, declarou o cão morto de peste e consolou a escrava, prometendo dar-lhe em breve um outro Degola, o que aliás era do seu interesse.
Quem sabia perfeitamente de que mal tinha morrido o Degola era Alexandre Cardoso.
O extravagante e dissoluto oficial da sala descobrira depois de algumas noites de espreita que o ama e suposto sedutor de Águeda era o sacristão e sobrinho do Vigário de S. José.
Alexandre Cardoso delineou então atrevido ou antes adoidado plano só explicável em quem muito contava com o respeito que impunha a sua posição oficial, além de confiar não menos na própria valentia.
Continuou a jogar na casa de João Fusco; mas às 11 horas da noite saía, indo encontrar-se no Largo da Carioca com um soldado do seu regimento, que ali o esperava.
Perdeu três noites assim; na quarta, porém, viu o embuçado, reconheceu o sacristão que dobrava da Rua da Cadeia para a dos Latoeiros.
- É aquele... murmurou.
O soldado avançou rápido e, chegando ao pé do embuçado, disse-lhe vivamente:
- Sr. Sacristão, o reverendíssimo Sr. Vigário o manda chamar já e já à igreja.
O sacristão atarantado por terem-no reconhecido, e não sabendo que pensar do que àquelas horas tinha de fazer na igreja, voltou apressadamente.
Alexandre Cardoso despediu o soldado, chegou-se ao portão da casa de João Fusco e bateu de leve três vezes.
O portão abriu-se, e ele que não se arreceava mais do Degola entrou imediatamente.
Jacoba trancou de novo o portão, e tão escura estava a noite, que ela não deu logo pela troca do namorado da menina.
Mas Alexandre Cardoso, sentindo-a tirar a chave do portão, e querendo ter saída livre, disse baixinho e disfarçando a voz:
- Dê-me a chave.
A negra recuou desconfiada, e perguntou:
- Você quem é?... fala!
Alexandre Cardoso, em vez de falar, avançou dois passos, e Jacoba recuou quatro, e um a avançar, e a outra a recuar chegaram, isto é, a negra meteu-se pela cozinha, e o tresloucado substituto do sacristão parou à porta, e à fraca luz de ruim candeia mostrou uma bolsa, sacudindo-a para assinalar que estava cheia de ouro.
Jacoba, verificando que não era o sacristão, soltou um grito, e, atirando-se para dentro da casa, começou a bradar:
- Tem lobisomem em casa!... lobisomem entrou!
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.